23 Março 2026
O ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã está prestes a completar um mês sem solução à vista. Enquanto isso, os preços do petróleo e do gás fóssil no mercado internacional disparam, afetando as economias nacionais, sobretudo a dos países mais pobres. Sem falar em restrições de abastecimento global, causadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
A informação é publicada por ClimaInfo, 22-03-2026.
O conflito jogou por terra a falaciosa “segurança energética” associada aos combustíveis fósseis e lançou um novo holofote sobre a urgência da transição energética, inclusive por questões financeiras. Segundo análise do think tank Ember divulgada no fim da semana passada, os importadores de petróleo poderiam economizar até US$ 600 bilhões por ano substituindo o combustível fóssil pela eletrificação da frota de transportes, destaca a eixos.
De acordo com o Ember, a frota global de veículos elétricos evitou o consumo de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia (bpd) em 2025 – no ano anterior, foram 1,3 milhão de bpd. O volume de petróleo evitado no ano passado é próximo de 2,4 milhões de barris exportados pelo Irã pelo Estreito de Ormuz.
A dependência do petróleo, contudo, permanece elevada: 79% da população mundial vive em países importadores. A cada aumento de US$ 10 no barril, a conta líquida global de importações cresce cerca de US$ 160 bilhões por ano. “O petróleo é o calcanhar de Aquiles da economia mundial”, diz Daan Walter, diretor da Ember. “A crise atual evidenciou, em especial, a vulnerabilidade da Ásia a choques no mercado de petróleo.”
Atualmente, 39 países têm participação de vendas de veículos elétricos acima de 10% – em 2019, eram apenas quatro. Não por acaso, são justamente as economias emergentes da Ásia que vêm puxando a transição para veículos elétricos.
No ano passado, o Vietnã (38%) superou a União Europeia (26%). Tailândia (21%) e Indonésia (15%) ficaram à frente dos Estados Unidos (10%). Índia (4%) e Brasil (9%) registraram participação superior à do Japão (3%). E a China ultrapassou, pela primeira vez, 50% de participação de VEs nas vendas em 2025.
O impacto econômico já é relevante. Com o petróleo a US$ 80 por barril, a China economiza mais de US$ 28 bilhões por ano em importações evitadas. Na Europa, a economia chega a cerca de US$ 8 bilhões, e na Índia, a US$ 600 milhões anuais. Cifras que certamente crescerão este ano, já que, devido à guerra no Irã, o barril do Brent, referência do mercado mundial, já superou US$ 100 – e vem se mantendo nesse patamar nos últimos dias.
No Brasil, o avanço dos VEs também começa a reduzir a dependência de importações. Mesmo sendo exportador líquido de óleo cru, o país ainda precisa importar gasolina e óleo diesel, por restrições no refino. E a guerra no Oriente Médio também gerou pressão inflacionária no país, que seria ainda maior se não fossem os veículos elétricos já em circulação.
“Ao contrário das crises do petróleo da década de 1970, agora há uma alternativa melhor. Os veículos elétricos estão cada vez mais competitivos em termos de custos em relação aos carros a gasolina. A volatilidade do petróleo significa que os veículos elétricos são uma escolha sensata para os países que desejam se proteger de choques futuros”, reforça Walter.
Em tempo
Na 6ª feira (20/3), o barril do petróleo Brent para maio fechou o dia cotado em US$ 112,19 na Intercontinental Exchange (ICE),em Londres, uma alta de 3,25% em relação ao dia anterior. Com isso, o Brent acumulou alta de 8,8% na semana passada. Com a continuidade do conflito e a destruição de instalações petrolíferas e de gás em vários países do Oriente Médio, analistas financeiros já aumentam as projeções para os preços no médio prazo. O banco UBS, por exemplo, projeta que o Brent fique em torno de US$ 100 por barril no segundo trimestre, acima da estimativa anterior de US$ 74. O UBS também elevou suas projeções para o ano como um todo, com o Brent a US$ 86 por barril, em comparação à estimativa anterior de US$ 72, detalha o Valor.
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