Trump usa o poder dos EUA por meio de tarifas para influenciar a política interna do Brasil em favor de seu amigo Bolsonaro

Foto: Alan Santos/PR | Flickr

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11 Julho 2025

O presidente americano vem em socorro de seu aliado, que está sendo processado por ser um golpista, impondo um imposto de 50% sobre produtos brasileiros que entram no país.

A reportagem é de Andrés Gil e Bernardo Gutiérrez, publicada por El Diario, 10-07-2025.

Esta não é a primeira vez que os EUA tentam intervir na política interna de um país latino-americano. Nem mesmo na do Brasil, como quando apoiaram o golpe de abril de 1964 contra João Goulart, que deu origem à ditadura militar brasileira (1964-1985), inicialmente liderada por Humberto Castelo Branco.

Mas talvez seja a primeira vez que isso aconteça de forma tão pessoal, sem pretextos ideológicos, econômicos ou anticomunistas. Desta vez, os EUA estão intervindo na política interna do Brasil porque Jair Bolsonaro é aliado de Donald Trump, outro ator da Internacional Reacionária do presidente americano, como Benjamin Netanyahu ou Javier Milei. E o Brasil não é São Vicente e Granadinas, cujo primeiro-ministro, Ralph Gonsalves, é ideologicamente mais à esquerda do que Lula, mas sim uma pequena ilha caribenha de 100 mil habitantes.

E o Brasil de hoje tem desafios demais para Trump: seu amigo Bolsonaro está sendo julgado por ser um golpista; empresas de tecnologia estão sendo condenadas por sua responsabilidade em crimes de ódio cometidos em suas plataformas; e é um país que está desafiando os EUA pela hegemonia continental e além por meio de sua aliança com China, Índia, Rússia e África do Sul no BRICS, um crescente clube do sul global — Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Egito — que inclui países como Irã, Palestina e várias nações africanas em suas reuniões, como a realizada há alguns dias em Brasília.

Além disso, Trump está consternado com a ideia de uma nova moeda do BRICS para substituir o dólar americano. Embora o BRICS tenham buscado reduzir sua dependência do dólar no comércio internacional e tenha havido conversas sobre a criação de uma nova moeda, o grupo não possui uma moeda comum nem ainda concordou com uma.

Trump anunciou esta semana que imporia uma tarifa adicional de 10% ao BRICS e aliados, mas no caso do Brasil, a tarifa de 50% é puramente pessoal.

Se a desculpa do presidente dos EUA para impor tarifas estiver relacionada ao déficit comercial: os EUA e o Brasil registraram um comércio combinado de aproximadamente US$ 92 bilhões no ano passado, com um superávit de US$ 7 bilhões para os EUA. De fato, o Brasil tem registrado déficit comercial com os EUA todos os anos desde 2008, segundo dados do governo americano.

Entretanto, em 2024, o Brasil vendeu US$ 40 bilhões em produtos, principalmente petróleo, café e aço, para os Estados Unidos.

No caso do Brasil, as tarifas, que entrarão em vigor em 1º de agosto, representam um aumento drástico da taxa de 10% que Trump propôs para o Brasil como parte de seu anúncio do Dia da Libertação em 2 de abril.

Defesa de Bolsonaro

O presidente dos EUA aproveitou o anúncio de tarifas de quarta-feira para defender Bolsonaro, que está sendo julgado por tentativa de golpe militar após a vitória eleitoral de Lula. Assim, em sua carta a Lula, o presidente dos EUA falou sobre o "tratamento vergonhoso" que, em sua opinião, o ex-presidente Bolsonaro está sofrendo: "É uma caça às bruxas que deve parar imediatamente". Trump também falou sobre "perseguição à liberdade de expressão e aos direitos dos americanos" devido aos processos judiciais no Brasil contra fraudes nas redes sociais.

Lula, por sua vez, respondeu na mesma moeda: “Em resposta à declaração pública do presidente dos EUA, Donald Trump, é importante ressaltar: o Brasil é um país soberano, com instituições independentes que não aceitarão o controle de ninguém; os processos judiciais contra os planejadores do golpe são de competência exclusiva da Justiça brasileira e, portanto, não estão sujeitos a qualquer tipo de interferência ou ameaça que viole a independência das instituições nacionais; no contexto das plataformas digitais, a sociedade brasileira repudia conteúdo de ódio, racismo, pornografia infantil, golpes, fraudes e discursos que violem os direitos humanos e as liberdades democráticas; no Brasil, a liberdade de expressão não deve ser confundida com agressões ou práticas violentas. Para operar em nosso país, todas as empresas nacionais e estrangeiras estão sujeitas à legislação brasileira”.

O presidente brasileiro também destacou que os Estados Unidos tiveram um superávit comercial de mais de US$ 410 bilhões com o Brasil nos últimos 15 anos.

Mas as ameaças de Trump não são novidade. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou em uma aparição no Congresso em maio que Washington estava considerando sancionar um dos ministros da Suprema Corte do Brasil, Alexandre de Moraes. O crime de Moraes? Ter ordenado o fechamento de contas de mídia social consideradas disseminadoras de notícias falsas. Ele também é o juiz que entrou em conflito com Elon Musk e suspendeu provisoriamente X no Brasil.

“Passei dois anos com o presidente Trump, onde sempre defendemos os interesses do nosso povo e a liberdade de todos”, escreveu Jair Bolsonaro no X após a primeira postagem do presidente americano em sua defesa: “Este caso é uma aberração jurídica (Lawfare), uma clara perseguição política, já reconhecida por todos com bom senso. Agradeço ao distinto presidente e amigo. O senhor passou por algo semelhante. Foi implacavelmente perseguido, mas prevaleceu pelo bem dos Estados Unidos e de dezenas de outros países verdadeiramente democráticos. Sua luta por paz, justiça e liberdade repercute em todo o planeta. Obrigado por existir e dar um exemplo de fé e resiliência”.

A apaixonada defesa de Jair Bolsonaro por Donald Trump após a Cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro acontece mais cedo do que o esperado. Eduardo Bolsonaro, além de tentar salvar seu pai da prisão, esperava usar o apoio do governo Trump para tentar salvá-lo da prisão (sua sentença está marcada para setembro) e legitimar sua própria candidatura presidencial nas eleições de 2026.

No entanto, o aumento de 50% nas tarifas contra o Brasil surpreendeu até mesmo os bolsonaristas. Enquanto o governo Lula considera levar as tarifas à justiça na Organização Mundial do Comércio (que proíbe a aplicação de tarifas por motivos políticos), alguns líderes da extrema-direita brasileira aplaudiram rapidamente as medidas de Donald Trump contra o Brasil. Tarcísio de Freitas, governador do estado de São Paulo, publicou em suas redes sociais que "Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado". No entanto, a extrema-direita tenta blindar a família Bolsonaro dos efeitos negativos do aumento das tarifas.

A postura de Lula como defensor da soberania nacional contra a interferência estrangeira e a narrativa esquerdista (que fala da "tarifa Bolsonaro") já estão chegando à arena política. Gleisi Hoffman, atual ministra das Relações Institucionais do governo Lula, acusou Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas de traidores. "Quem está colocando a ideologia acima dos interesses do país é o governador Tarcísio e todos os cúmplices de Bolsonaro que aplaudem o aumento de tarifa de Trump contra o Brasil. Eles só pensam no benefício político que esperam obter com a chantagem do presidente americano, porque nunca se importaram verdadeiramente com o país e o povo", criticou Gleisi. Líderes bolsonaristas já admitem estar desgastados com o aumento de tarifa, segundo a Folha de São Paulo.

Manobras bolsonaristas

Após a tentativa frustrada de golpe, que levou aos protestos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, com o ataque aos Três Poderes, a família Bolsonaro confiou seu futuro ao destino de Donald Trump. Após a posse de Trump em 20 de janeiro, Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, fez quatro viagens consecutivas aos Estados Unidos. Inicialmente, o lobby de Eduardo Bolsonaro para posicionar Donald Trump contra Lula passou despercebido. No início de fevereiro, Jair e Eduardo Bolsonaro abriram um perfil na plataforma de extrema direita Truth Social, parte do Trump Media Group, desencadeando uma migração em massa de bolsonaristas radicais para a rede social. No final de fevereiro, Truth Social, Gettr e Rumble entraram com várias queixas nos tribunais dos EUA contra Alexandre de Moraes, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), por suposta censura. Moraes havia imposto sanções a essas plataformas por não terem representação legal no Brasil e por não removerem mensagens acusadas de crimes de ódio.

Em 18 de março, Eduardo Bolsonaro renunciou ao seu mandato como deputado federal para permanecer nos Estados Unidos por tempo indeterminado. O Partido dos Trabalhadores solicitou a revogação de seu passaporte, acusando-o de "traição à pátria" (agir contra os interesses do Brasil). Eduardo, nos Estados Unidos, instigou uma narrativa de perseguição política à oposição e censura por parte do governo Lula. Ele se encontrou com Jason Miller, fundador da rede social radical Gettr, um dos principais assessores de Trump durante a campanha de 2016. Ele também pressionou a Organização dos Estados Americanos (OEA) a incluir a "suposta censura" à liberdade de expressão em seu relatório sobre o Brasil, algo que não conseguiu.

O próprio Steve Bannon, figura de proa da extrema direita americana MAGA, solicitou a Marcos Rubio, secretário de Estado de Trump, que impusesse sanções contra Alexandre de Moraes e Lula. Rubio, amigo de longa data da família Bolsonaro, apressou-se em anunciar que o governo americano estava considerando impor sanções contra Alexandre de Moraes, com base na Lei Magnitsky Global (que permite a punição de autoridades estrangeiras acusadas de corrupção ou graves violações de direitos humanos).

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