É desumano continuar a morrer sozinhos. E não digam que não poderia ter sido feito de outra forma

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15 Janeiro 2021

"Aqui tocamos claramente o nível mais baixo de desumanização de que nossa civilização tecnológica é capaz. E não digam que não poderia ter sido feito de outra forma", escreve por Giannino Piana, escritor, teólogo, ex-professor de Ética Cristã do Instituto Superior de Ciências Religiosas da Livre Universidade de Urbino e de Ética e Economia da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Torino, em artigo publicado por Huffington Post, 14-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Entre os aspectos mais graves da pandemia de coronavírus em que ainda estamos imersos, o mais dramático foi (e é) sem dúvida constituído pelo estado de abandono em que acabaram ficando, nos hospitais e nas casas de repouso, pacientes graves e idosos que se viram viver as últimas horas de sua existência sem o acompanhamento de seus familiares ou entes queridos que gostariam de ter por perto.

Todos ainda temos impresso nos olhos - e não poderemos apagar por muito tempo - a imagem daquela macabra procissão de caminhões militares que transportavam para cemitérios distantes dos locais de origem os caixões de várias pessoas falecidas sem poderem receber o último adeus dos seus parentes aos quais, por um determinado período, foi até impedido de participar de um rito de despedida. Sabe-se que a morte é uma experiência individual, que comporta um nível marcante de solidão, mas os modos as modalidades com que foi vivida (e ainda é vivida) por muitos idosos (e não só) neste momento de pandemia tem algo de preocupante.

A ausência de um amigo que esteja ao seu lado, que lhe pegue pela mão ou lhe faça um carinho, torna tudo muito mais trágico e desolador. Sem falar no trauma dificilmente superável de quem soube da gravidade da situação do seu familiar, descobrindo mais tarde, talvez depois do momento em que havia ocorrido, a notícia do desaparecimento.

Aqui tocamos claramente o nível mais baixo de desumanização de que nossa civilização tecnológica é capaz. E não digam que não poderia ter sido feito de outra forma. Claro, a necessidade de proteger do risco do contágio ambientes delicados como aqueles que hospedam doentes e idosos, evitando a propagação do vírus, era uma precaução correta que precisava ser respeitada. Mas talvez uma maior inventividade pudesse ter encontrado formas viáveis de combinar as necessárias medidas de proteção à saúde com as não menos importantes exigências de garantir a proximidade das pessoas em sofrimento de seus entes queridos, sem esquecer que isso também faz parte (e em grande medida) do processo de cura.

Por isso, merece um elogio especial o Conselho da Região da Toscana que, instado pela Associação "Tutto è vita onlus" e pela Fundação Meyer, bem como pelo parecer da Comissão Regional de Bioética (CRB), que aprovou por unanimidade as propostas das secretárias da Saúde Simone Berrini e dos Assuntos sociais Serena Spinelli de uma série de medidas concretas que permitem que pacientes internados em hospitais, asilos e residências de saúde recebam visitas de seus familiares, respeitando as normas anti-Covid. As medidas previstas, que dizem respeito principalmente (mas não exclusivamente) a pessoas que sofrem de patologias graves ou de prognóstico grave e que já parcialmente estão em vigor, são o testemunho claro da possibilidade de dar um passo em frente no campo da humanização da assistência e merecem ser destacadas na esperança de que medidas semelhantes também possam ser tomadas em todo o país. O que está em jogo, é o nível de civilização da nossa sociedade.

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