04 Agosto 2026
“A rebelião de abril de 2018 foi um ponto de inflexão. Centenas de milhares de nicaraguenses foram às ruas contra a reforma da previdência; o papel dos estudantes e das gerações mais jovens foi particularmente proeminente. Após o massacre, o regime mostrou seu pior lado ditatorial, o que levou milhares de pessoas ao exílio, enquanto qualquer dissidência era silenciada e as prisões ficavam abarrotadas de veteranos sandinistas”. A reflexão é de Raúl Zibechi, em artigo publicado por Brecha, 31-07-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O anúncio de Daniel Ortega de que “não haverá mais eleições na Nicarágua” foi feito “sob o disfarce de uma farsa ao estilo norte-coreano”, segundo o escritor Sergio Ramírez. A afirmação descreve um regime que se fechou em si mesmo após construir uma verdadeira prisão a céu aberto para sua população. “A ironia é devastadora: aqueles que lutaram contra uma ditadura acabaram sendo perseguidos por outra que fala em seu nome”, escreve Mónica Baltodano de seu exílio na Costa Rica. Suas críticas mordazes ao regime têm ainda mais peso porque ela fez parte do movimento sandinista, integrando o governo nascido da revolta popular de 1979 que sepultou o regime de Anastasio Somoza, apenas para vê-lo posteriormente desmantelado quando o casal Ortega e Rosario Murillo fechou todas as vias de liberdade.
Em 1972, aos 18 anos, Baltodano ingressou na Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Cinco anos depois, foi presa e torturada, e após sua libertação, liderou a insurreição em Manágua e as tomadas de Jinotepe e Granada. Depois da vitória sandinista em 19 de julho de 1979, recebeu o título honorário de comandante guerrilheira e ocupou diversos cargos ministeriais. Em 2023, a ditadura cassou sua cidadania, declarou-a “traidora da nação”, confiscou seus bens e revogou sua aposentadoria. Com a mesma intensidade com que lutou contra a ditadura de Somoza, Baltodano denuncia o casal que detém poder quase absoluto na Nicarágua. Ela acredita que a formação desse novo tipo de ditadura foi impulsionada pela guerra travada pelo governo de Ronald Reagan contra o governo que emergiu do regime derrotado de Somoza, uma guerra que se materializou em uma agressão armada sustentada pelos Contras, financiada pela venda ilegal de armas ao Irã.
No entanto, Baltodano não concorda com o pensamento de alguns esquerdistas que atribuem toda a culpa aos seus adversários, recusando-se a reconhecer suas próprias falhas. “Nem podemos esconder os nossos próprios erros: as violações dos direitos humanos, a repressão contra as comunidades indígenas e camponesas, as restrições às liberdades civis e, sobretudo, a crescente concentração de poder nas mãos de um pequeno grupo de comandantes”, afirmou em um artigo recente.
O brasileiro Frei Betto aponta na mesma direção. Ele lembra que Ortega está no poder há 19 anos, desde as eleições de 2007, e que a última eleição presidencial, realizada em novembro de 2021, foi contestada porque os principais candidatos da oposição estavam presos. “Ortega está no poder há mais tempo do que qualquer membro da dinastia ditatorial Somoza, o grupo familiar que governou o país por mais de 40 anos e que o próprio Ortega ajudou a derrubar”, disse. Assim como Baltodano, ele atribui a derrocada rumo à ditadura à concentração de poder. “Em dois anos trabalhando no Palácio do Planalto (2003-2004), aprendi que os seres humanos são vulneráveis a cinco grandes tentações: a primeira é o poder; a segunda, o poder; a terceira, o poder; a quarta, o dinheiro; a quinta, o sexo. As três primeiras garantem as duas últimas. Isso vale para qualquer nível de poder, de um diretor de escola a um gerente de farmácia”.
A ex-guerrilheira e o frade dominicano também concordam em comparar Ortega a Somoza. Baltodano acredita que Ortega aprendeu com o regime de Somoza como controlar as organizações sociais. “A autonomia universitária foi conquistada sob Somoza, e agora não existe mais. Greves e manifestações podiam ser realizadas sob aquele regime, mas o de Ortega é muito mais repressivo e fechado do que o de Somoza”. É verdade que Somoza bombardeou cidades, “mas houve uma revolta popular e ação armada. Ortega foi capaz de assassinar 355 pessoas entre 18 de abril e 19 de julho de 2018 — pessoas desarmadas — e Somoza não cometeu esse tipo de massacre”.
A rebelião de abril de 2018 foi um ponto de inflexão. Centenas de milhares de nicaraguenses foram às ruas contra a reforma da previdência; o papel dos estudantes e das gerações mais jovens foi particularmente proeminente. Após o massacre, o regime mostrou seu pior lado ditatorial, o que levou milhares de pessoas ao exílio, enquanto qualquer dissidência era silenciada e as prisões ficavam abarrotadas de veteranos sandinistas, como aconteceu com a ex-comandante Dora María Téllez.
Frei Betto afirma que Ortega se consolidou no poder por meio da fraude eleitoral e prendendo e exilando candidatos da oposição, aos quais tirou a cidadania. “Ditaduras nem sempre irrompem por meio de um golpe”, diz Baltodano. “Muitas são construídas lentamente: concentram poder, destroem os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, normalizam a corrupção e se alimentam da cumplicidade e do silêncio”. O primeiro passo, após a derrota eleitoral de 1990, foi a “piñata”, a apropriação de fazendas, terras e ações de empresas industriais que haviam sido confiscadas do regime de Somoza, o que permitiu a formação de “um novo setor capitalista emergente que se apoia no poder de Ortega e o defende”.
Houve outros momentos significativos nesse processo. Zoilamérica Narváez, filha de Murillo, denunciou que seu padrasto a havia abusado sexualmente desde a infância. “Fui abusada sexualmente por 12 anos. E depois por mais oito anos com assédio sexual”, disse ela à BBC. Mas Murillo apoiou Ortega e desprezou a sua filha, que foi forçada ao exílio na Costa Rica em 1998. Grande parte da esquerda da região se recusou a ouvir seu depoimento angustiante.
Durante a década de 1990, enquanto estava na oposição, Ortega fez um acordo com o então presidente Arnoldo Alemán, um conservador, para dividir o poder estatal entre a FSLN e o Partido Liberal Constitucionalista. O acordo abriu caminho para seu retorno ao poder e suas ações subsequentes, pois estabeleceu o controle bipartidário da Suprema Corte, do Conselho Supremo Eleitoral e da Controladoria-Geral da República, além de criar mecanismos para garantir a impunidade de ambos (Alemán enfrentou acusações de corrupção).
Após a vitória eleitoral de 2007, o clã Ortega-Murillo se apropriou de fundos provenientes da importação de petróleo da Venezuela e se envolveu em diversas transações comerciais com seus aliados, a ponto de, segundo Baltodano, “se tornarem parte das novas oligarquias, usando o Estado para proteger seus interesses e os de seus aliados”. Embora se defina como um presidente “cristão, socialista e solidário”, o objetivo de Ortega é o controle absoluto do poder. “Até que Deus me dê vida”, disse.
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