02 Junho 2026
O governo se recusa a liberar o corpo do político para sua família e mantém detidos sete parentes que o exigiam. Os Estados Unidos responsabilizam Ortega e Rosario Murillo pela morte de Rivera.
O artigo é de Wilfredo Miranda Aburto, jornalista nicaraguense exilado na Costa Rica, fundador da revista Divergentes, publicado por El País, 01-06-2026.
Eis o artigo.
Brooklyn Rivera, o histórico líder indígena da Nicarágua, morreu às 20h30 do dia 30 de maio, mas somente quinze horas depois o regime que o manteve como prisioneiro político por 971 dias confirmou sua morte. A notícia foi devastadora para sua família, que passou quase três anos sem saber de seu paradeiro ou estado de saúde. O regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo o apresentou em 27 de maio em estado crítico, com traqueostomia e falência múltipla de órgãos. Mesmo após a confirmação de sua morte, a crueldade contra sua família não cessou: Murillo, nomeada por Ortega como sua copresidente, confiscou o corpo e impediu que os enlutados o enterrassem onde ele desejava, em Sandy Bay, na costa caribenha da Nicarágua, ao lado de sua mãe.
O corpo nunca saiu da custódia do Estado. Até o seu sepultamento, ele foi um prisioneiro político. A recusa do Estado em liberar o corpo para a família foi acompanhada pela imposição de um funeral apressado. Embora a comunidade Miskito estivesse preparando os ritos fúnebres na Igreja Morávia em Manágua antes de transportar o corpo para a costa caribenha, o regime decidiu realizar um breve velório de algumas horas na funerária particular Sierras de Paz e enterrá-lo naquela noite, no domingo, 31 de maio, sem a presença da família, em uma sepultura que o líder do partido Yatama (cujo nome em língua Miskito significa Filhos da Mãe Terra) jamais desejou.
Embora o copresidente Murillo tenha afirmado, até a tarde de segunda-feira, que Rivera esteve sempre rodeado por familiares durante sua agonia, morte e sepultamento, sua família nega categoricamente essa afirmação. A filha do líder indígena, Tininiska Rivera, falando do exílio na Espanha, negou que seu irmão Wailan estivesse com o pai. Em um comunicado, ela expressou "profunda tristeza e preocupação com as circunstâncias que envolveram sua morte" e afirmou que, durante meses, a família viveu "na incerteza, sem acesso a informações diretas, sem poder vê-lo, falar com ele ou estar com ele".
No entanto, a declaração mais recente do regime, intitulada "Descanse em paz, irmão Brooklyn Rivera", insiste que a vítima estava cercada por sua família. "Ressaltamos que Brooklyn recebeu cuidados meticulosos em todos os momentos, como pode ser verificado em todos os laudos médicos, com apoio científico e emocional dos especialistas e de sua família", disse Murillo esta tarde, sem mencionar a responsabilidade que a comunidade internacional, especialmente os Estados Unidos, atribui ao seu regime: a morte de Rivera.
O vice-secretário americano de Estado, Christopher Landau, culpou diretamente a ditadura de Ortega-Murillo pela morte. "Ele morreu neste fim de semana como prisioneiro do regime, após três anos de tratamento desumano, detenção injusta e desaparecimento forçado", escreveu em sua conta no Twitter. Washington expressou solidariedade àqueles que, como o líder indígena, "estão comprometidos com uma Nicarágua livre".
Eles estão mantendo seus parentes contra a vontade deles.
Simultaneamente ao enterro apressado e forçado, sete parentes e associados de Rivera, que viajavam do Caribe para Manágua para reclamar seu corpo, foram detidos pela polícia sandinista. Seu paradeiro permaneceu desconhecido por horas. Na segunda-feira, a libertação de seis dos sete foi confirmada. A do sétimo permanece sem confirmação. O líder indígena foi sepultado por enlutados, alguns funcionários do governo e, em particular, parlamentares do regime com quem Rivera havia dividido uma cadeira no Congresso no passado, antes de criticar o regime como um aliado incômodo da estrutura de poder copresidencial.
Fontes próximas ao regime asseguraram a este jornal que a decisão de Murillo de sequestrar o funeral teve a ver com o "medo" de protestos contra o regime na costa caribenha, onde Rivera era o "Ta Upla", o líder dos Miskitos, uma das principais populações indígenas da Nicarágua.
O caso do sequestro de Rivera não é uma exceção, já que o controle sobre os mortos tem sido uma prática sistemática. O general reformado Hugo Torres, que morreu na prisão em 2022, teve sua autópsia negada pela família porque o regime controlou o enterro. O prisioneiro político Mauricio Alonso Petri foi enterrado às pressas, com policiais armados assediando sua família durante o velório. Em 2018, o regime chegou a profanar os túmulos das vítimas do massacre de abril. Essa crueldade não respeita laços familiares, já que o funeral do general Humberto Ortega, irmão de Daniel e cunhado de Rosario, também foi alvo de interferência do regime. E a missa de funeral do padre e poeta Ernesto Cardenal, uma das figuras intelectuais mais renomadas da Nicarágua, foi profanada por multidões sandinistas.
O sepultamento é o último direito do falecido e o primeiro passo no processo de luto para os sobreviventes. Presos políticos da ditadura também tiveram esse direito negado, segundo organizações de direitos humanos como o Grupo de Monitoramento Azul e Branco. “Após sua morte, o regime se apropriou do corpo do líder indígena: alterou deliberadamente o local do velório para impedir a presença de seus familiares e o sepultou sem a presença de seus parentes mais próximos. Esse ato também violou o direito dos povos indígenas de se despedirem de seus líderes de acordo com suas tradições”, condena a organização que documenta violações de direitos humanos na Nicarágua.
O Grupo de Peritos das Nações Unidas sobre a Nicarágua expressou "profunda consternação" com a morte sob custódia do Estado e alertou que o Estado nicaraguense é obrigado, segundo o direito internacional, a conduzir uma investigação independente, garantir uma autópsia transparente e devolver os restos mortais à família sem demora.
O grupo também alertou que a morte de Rivera não pode ser entendida como um incidente isolado, mas sim como parte de um padrão mais amplo de violações contra povos indígenas e afrodescendentes na costa caribenha da Nicarágua. Observou que o destino e o paradeiro de outras oito pessoas detidas arbitrariamente permanecem desconhecidos e apelou à comunidade internacional para que preste atenção urgente à situação, investigue o caso e exija responsabilização por uma morte que, segundo especialistas, pode constituir um crime internacional.
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