Uma leitura distorcida que pesa sobre as mulheres. Os Sete Demônios de Maria Madalena

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22 Julho 2026

"Nos Evangelhos, um dos elementos distintivos de "Maria, chamada Madalena", é que ela foi "liberta de sete demônios" (Lc 8,2). Mas o que são exatamente esses espíritos malignos? Sete, um número simbólico que indica totalidade e plenitude, evoca aqui uma gravidade particular, mas não é fácil entender o que representam", escreve Adriana Valerio, historiadora e teóloga, no artigo a seguir, publicado em L'Osservatore Romano, 04-07-2026.

Eis o artigo.

Se examinarmos a pintura de Guido Cagnacci, Madalena Penitente, também conhecida como A Conversão de Madalena, observamos um forte contraste entre o sagrado e o profano, representado, ao fundo da pintura, pela luta do bom anjo (virtude) que expulsa o demônio (vício), evocado, em primeiro plano, pelo contraste entre o corpo nu e sedutor de Madalena, sensualmente estendido e rodeado por um vestido suntuoso e ricas joias das quais ela se despiu, e uma modesta Marta que a exorta a abandonar a vida pecaminosa.

Madalena Penitente de Guido Cagnacci

Esta pintura, executada por volta de 1660, em plena Contrarreforma Católica, é uma concentração de erros exegéticos e preconceitos que se sedimentaram e foram incentivados ao longo dos séculos, e que ainda hoje são sustentados por pregações enganosas. De fato, Madalena é erroneamente identificada com Maria de Betânia, irmã de Marta, e, sobretudo, com a prostituta anônima mencionada no Evangelho de Lucas (7,36-50). Esses erros de interpretação remontam a Gregório Magno que, talvez devido à necessidade de harmonizar histórias semelhantes, gerou um mal-entendido fatal ao unificar mulheres diferentes: Madalena, liberta dos sete demônios (Mc 16,9; Lc 8,2); a prostituta anônima que banha os pés de Jesus com lágrimas e os unge com perfume (Lc 7,36-50); Maria de Betânia que unge os pés do Nazareno com essência de nardo, enxugando-os com os cabelos (Jo 12,1-8); a mulher anônima que, na casa de Simão, o leproso, derrama "um perfume muito precioso" sobre a cabeça de Jesus (Mt 26,6-13; Mc 14,3-9).

Gregório Magno funde todas essas figuras em Madalena e, com o peso de sua autoridade, inicia aquele processo de construção de identidade que, nos séculos vindouros, verá a mulher não mais como a apóstola, mas como a pecadora por excelência e, acreditando que esses sete demônios são um sinal de pecaminosidade, "uma concentração de todos os tipos de vícios" e a expressão de "uma vida cheia de todos os pecados" (Homilia 33), ele orienta a interpretação da presença dos demônios para o vício da luxúria, que se prestará bem a caracterizar a mulher, sedutora e tentadora.

Esse arquétipo cultural persistiu ao longo dos séculos, a ponto de, na Idade Média, o monge Honório de Autun ter apresentado Madalena como "a prostituta vulgar que, depois de se tornar um bordel de lascívia, tornou-se, com razão, um santuário para demônios; na verdade, sete demônios entraram nela de uma só vez e a atormentavam continuamente com desejos imundos" (Speculum Ecclesiae. De sancta Maria Magdalena, in PL 172, 979). Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam hoje que esses demônios representam adequadamente o pecado da luxúria de Madalena.

Portanto, partindo da falsa identificação com a pecadora arrependida, a figura de Madalena favoreceu a demonização da sexualidade e da sensualidade feminina que, para se redimirem, necessitam de penitência e mortificação, e os sete demônios dos quais Jesus a libertou foram associados ao vício da luxúria e erroneamente identificados com a luxúria que a levou a se prostituir.

Certamente, nos Evangelhos, um dos elementos distintivos de "Maria, chamada Madalena", é que ela foi "liberta de sete demônios" (Lc 8,2). Mas o que são exatamente esses espíritos malignos? Sete, um número simbólico que indica totalidade e plenitude, evoca aqui uma gravidade particular, mas não é fácil entender o que representam. Na cultura judaica contemporânea e no Novo Testamento, os demônios são entidades consideradas responsáveis ​​pelo sofrimento, doenças ou transtornos mentais. Não designam vícios, muito menos uma vida dissoluta ou desvio moral; antes, expressam desconforto e desajuste, bem representados, por exemplo, em outros episódios que falam de endemoniados libertos (Mc 5,1ss. e passagens paralelas).

Os Evangelhos, portanto, não mencionam qualquer desvio moral, nem há qualquer indicação de que ela fosse uma prostituta: Jesus a restaura à sua identidade original, e ela o segue, tornando-se discípula e apóstola. Devemos, então, levantar a hipótese de que ela foi curada de uma profunda enfermidade, de um grave estado de sofrimento e talvez de marginalização, e essa nova libertação, proporcionada pelo encontro com Jesus, permitiu-lhe alcançar um espaço de liberdade que lhe possibilitou deixar a segurança da família e seguir o Mestre por meio de novas formas de relacionamento que envolviam partilha e participação na vida do grupo.

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