Madalena, uma presença misteriosa e comovente. Artigo de Sergio Di Benedetto

Foto: Wikimedia Commons | Titian (1490–1576)

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27 Março 2026

Um livro de Paola Springhetti reconta algumas das principais tendências iconográficas ligadas a Maria Madalena, às quais os artistas dedicaram grande atenção, gerando também notáveis ​​intuições de fé.

O artigo é de Sergio Di Benedetto, professor de Literatura Italiana na Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, publicado por Vino Nuovo, 26-03-2026. 

Eis o artigo. 

Muito retratada, mas pouco apreciada: esta é Maria Madalena na arte": uma jornada através de lendas, criatividade e o texto do Evangelho, que busca aproximar o leitor da figura misteriosa, porém central, de Madalena, sobre quem muitos talvez pensem saber, mas que, ao serem examinadas nas Escrituras, muitos podem descobrir que não sabem. Este é precisamente o caminho que Paola Springhetti traça em Maria Madalena na Arte (Roma, Editrice Ave, 2026, 148 páginas, €19), acompanhando a presença da "apóstola dos apóstolos" ao longo dos séculos da arte cristã. O livro, contudo, não é um tratado crítico, mas sim um volume espiritual de fácil acesso, onde arte, meditação e o Evangelho se cruzam, permitindo-nos parar e orar diante de grandes obras que retratam uma mulher, Madalena, ou qualquer interpretação que tenha sido feita dela ao longo do tempo.

Assim, em primeiro lugar, Springhetti afirma acertadamente, ao reler o Evangelho, que "quem não era" Maria Madalena — por exemplo, ela não é a mulher que lava os pés de Jesus com suas lágrimas —, apesar de uma vasta tradição que a retrata em múltiplos episódios, dos quais muito poucos a abordam de fato, incluindo o Noli me tangere, uma esplêndida cena da ressurreição. Contudo, com base nos Apócrifos e em outras narrativas, a história da arte é rica em Madalenas penitentes (como a retratada pelo Mestre da Madalena, do século XIII), Madalenas em glória, Madalenas realizando milagres. Portanto, é necessário, ao mesmo tempo que enriquecemos nossos olhos com imagens maravilhosas (o aparato iconográfico do livro é tão rico que é impossível citá-lo na íntegra), retornar a "quem era" essa mulher e compreender quais elementos, características e, consequentemente, mensagens a arte produziu, afastando-se da Palavra. Aqui, o autor oferece algumas diretrizes, sempre inserindo uma passagem do Evangelho no início de cada capítulo, quando possível, para enquadrar um aspecto. Temos então Madalena como "pecadora e prostituta" (a imagem que retrata a Ceia na Casa do Fariseu, de Giovanni da Milano, é esplêndida), ou a mulher presente à mesa em Betânia, onde Madalena abandona sua aparência pecaminosa, tornando-se simplesmente uma pessoa "imersa na escuta da Palavra de Jesus". Ou a tradição se concentrou na mulher em luto aos pés da cruz, levando os artistas a enriquecer muitas crucificações repletas de pathos com personagens (como esquecer Giotto, Taddeo Gaddi, Masaccio, por exemplo?), ou talvez despojando a cena e apresentando apenas ela, Madalena, aos pés de Cristo sofredor, como é o caso de Mosè Bianchi.

Outra vertente da tradição diz respeito ao momento após a morte, ou seja, a deposição e o luto pelo Cristo morto, onde o sofrimento despedaça as harmonias e os equilíbrios composicionais (pense em Niccolò dell'Arca, Botticelli, Rafael, Caravaggio), conduzindo às cenas de jardim, onde as mulheres param junto ao túmulo ou onde o Cristo Ressuscitado aparece a Maria Madalena. Springhetti examina cada tema principal, selecionando e relembrando as obras que ofereceram uma interpretação original, significativa e evocativa desse núcleo. Isso leva a outro leitmotiv artístico, a saber, a representação da penitente Maria Madalena (um excelente exemplo sendo Donatello), que, dependendo do período, aparece mais ou menos emaciada e sofredora (profundamente absorta em si mesma e em seu sofrimento na Idade Média e no Renascimento, mais serena na modernidade e na contemporaneidade, como em Tintoretto, por exemplo). E, finalmente, termina com os êxtases magdalenianos, um tema recorrente na época do Concílio de Trento, quando o misticismo floresceu.

É possível discernir um fio condutor comum entre todas essas interpretações? Sim, segundo a teóloga Maria Bianco, que escreve a introdução do livro, porque Madalena "narra um exercício de proximidade corporal: unção, toque, envolvimento, choro, vigília". Certamente, cada interpretação é produto de seu tempo e, em particular, da dinâmica social e cultural que definiu o tema da feminilidade. Contudo, essa proximidade lembra ao leitor "relacionamento, cuidado, liberdade, desejo". Ou, em outras palavras, a riqueza do amor. E isso, como sabemos, é sempre o Evangelho.

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