"Em tempos de trabalho em prol de uma Igreja sinodal, continuar a destacar Maria Madalena nos papéis que ela verdadeiramente desempenhou ao lado de Jesus e na nascente comunidade cristã contribuirá significativamente para acelerar a plena participação das mulheres na Igreja", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, em comentário publicado por Religión Digital, 19-07-2026.
Eis o artigo.
Em 2016, o Papa Francisco decretou que a comemoração de Maria Madalena (22 de julho) se tornasse uma festa litúrgica, como as dos outros apóstolos, chamando-a de "Apóstola dos Apóstolos". Segundo o então secretário da Congregação para o Culto Divino, essa decisão respondia "ao contexto atual, que exige uma reflexão mais profunda sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina". Ele lembrou que João Paulo II já havia chamado a atenção para a importância da mulher na missão de Cristo e da Igreja, enfatizando a figura de Maria Madalena como a primeira testemunha da ressurreição e aquela que anunciou esse evento aos apóstolos. Portanto, o decreto afirma que "Santa Maria Madalena é um exemplo de verdadeira e autêntica evangelização, isto é, uma evangelizadora que proclama a mensagem central e jubilosa da Páscoa". Contudo, essa recuperação da figura de Maria Madalena ainda não penetrou suficientemente o imaginário e as crenças da maioria dos cristãos.
A imagem de Maria Madalena que lhe foi atribuída durante séculos persiste: a de uma pecadora (uma prostituta) a quem Jesus perdoou. Essa imagem surgiu da identificação dela com o pecador arrependido que entra na casa de Simão, o fariseu (Lucas 7,36-50), e com Maria, irmã de Lázaro e Marta, que também unge Jesus (João 12,1-8). Quando o texto de Lucas se refere a "algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios" (8,2), significa que ela foi curada de sua doença, provavelmente muito grave — daí os sete demônios —, mas em nenhum momento se refere à sua condição moral. Embora existam muitos estudos sobre Maria Madalena hoje, as implicações plenas de uma interpretação bíblica correta dela para as mulheres na Igreja ainda não foram concretizadas na prática.
A primeira é o reconhecimento de Maria Madalena no mesmo nível dos apóstolos. De fato, ela — e outras mulheres — o seguiram da Galileia a Jerusalém, um fato posteriormente invocado no livro de Atos para designar o apóstolo para substituir Judas (Atos 1,21). Portanto, não deveria ser tão difícil imaginar mulheres como parte do colégio apostólico. Sabemos com certeza que Maria Madalena foi uma Apóstola, e celebramos isso. Outra consequência é que, como a primeira evangelizadora, não há razão para não valorizar os ensinamentos das mulheres tanto quanto os dos homens. Ainda é difícil aceitar o ensino teológico ministrado por mulheres em seminários e faculdades de teologia. É claro que as coisas mudaram, e mais mulheres estão sendo reconhecidas no campo da teologia e no serviço eclesial. No entanto, a participação deles continua pequena, nada equitativa em relação ao número de homens que ocupam esses espaços, e suas realizações acadêmicas e pastorais não são levadas em consideração com a mesma seriedade, interesse e respeito que a contribuição de teólogos e clérigos costuma receber.
Gostaria também de salientar a raridade com que chamamos Maria Madalena de santa. Ela é, de fato, uma santa, e poderíamos chamá-la assim para dissipar ainda mais a imagem frequentemente evocada dela como prostituta, uma imagem que contribuiu para associar as mulheres a pecados relacionados à sexualidade. Não há muito esforço para chamá-la de santa, nem se dá muita importância ao seu dia festivo. Este seria um momento oportuno para estabelecer a verdade sobre ela. Há ainda menos interesse em chamá-la de Apóstola ou primeira evangelista, embora três evangelistas relatem o envio de Jesus a ela para anunciar a sua ressurreição aos discípulos (Mc 16,7; Mt 28,7; Jo 20,17) e até Lucas, que progressivamente tornou o papel das mulheres invisível em seu evangelho, não deixa de notar que são as mulheres que anunciam esta boa nova aos apóstolos, colocando Maria Madalena em primeiro lugar (Lc 24,9).
Ultimamente, sua figura tem sido usada — na literatura e no cinema — para retratá-la como companheira de Jesus ou para destacar seu papel na comunidade cristã primitiva, a fim de contrapor a figura de Pedro. Mas nenhuma dessas abordagens é encontrada na Bíblia.
Em tempos de trabalho em prol de uma Igreja sinodal, continuar a destacar Maria Madalena nos papéis que ela verdadeiramente desempenhou ao lado de Jesus e na nascente comunidade cristã contribuirá significativamente para acelerar a plena participação das mulheres na Igreja. Portanto, espera-se que possamos vivenciar esta celebração de sua festa, em 22 de julho, com maior profundidade, reconhecendo que não é incomum que 50 mulheres tenham participado com voz e voto no Sínodo sobre a Sinodalidade. Pelo contrário, o que é incomum é que não haja muito mais mulheres nesses níveis de tomada de decisão onde o futuro da Igreja é moldado – esta mesma Igreja que, sem a proclamação inicial feita por Maria Madalena, talvez nunca tivesse existido. Por fim, vale ressaltar que, apesar da resistência à linguagem inclusiva em alguns círculos eclesiásticos (e sociais), foi São Tomás de Aquino quem se referiu a ela como uma “apóstola”, e o Decreto para sua festa mantém esse termo na forma feminina. Seria bom deixarmos de lado nossa resistência e acostumarmos nossos ouvidos aos termos femininos que tornam as mulheres visíveis. Antes que percebamos, essas palavras soarão tão naturais para nós quanto todos os termos criados em nossa língua até o momento.