África do Sul: da luta contra o apartheid à cruzada popular contra a imigração africana

Foto: Unicef/Jiro Ose

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18 Julho 2026

Nas últimas semanas, o país tornou-se palco de violentos protestos contra imigrantes africanos, exigindo sua deportação. O governo endureceu sua política de imigração, anunciando um número recorde de expulsões.

A reportagem é de Sarah Babiker, publicada por El Salto, 16-07-2026.

A música chama-se Abahambe e sua versão oficial tem mais de um milhão de visualizações no YouTube, com inúmeros comentários explicando como a canção os emociona e compartilhando sua mensagem. "Saiam daqui!" é o título do sucesso, refletindo um slogan popularizado durante os protestos anti-imigração que tomaram conta da África do Sul nas últimas semanas. No estilo Amapiano, um gênero musical urbano que surgiu na África do Sul na última década e agora é popular em todo o continente, três pessoas cantam em inglês e zulu: Jacinta Ngobese-Zuma, Ngizwe Mchunu e Phakelumthakathi.

A primeira intérprete desta canção, Jacinta Ngobese-Zuma, é conhecida por atividades não relacionadas à música: ela é a fundadora da March to March, organização por trás de uma campanha contra imigrantes de outros países africanos, que atingiu seu ápice em 30 de junho. O movimento de Ngobese-Zuma, juntamente com outros grupos com ideias semelhantes, como a Fundação para o Desenvolvimento Insizwa Nobusizwa, havia estabelecido esse prazo para que imigrantes indocumentados de países como Malawi, Moçambique, Zimbábue, Nigéria e Gana deixassem o país.

"Obrigado por compartilhar este hino, pois não poderei participar da marcha", comentou um usuário do YouTube sobre a música, que clama pela luta da nação contra estrangeiros e invoca a memória de Nelson Mandela para justificar seu objetivo de "limpar o país". A marcha de 30 de junho resultou em dezenas de cenas de perseguição e assédio a estrangeiros. Uma semana depois, na quinta-feira, 9 de julho, outra marcha se transformou em uma repressão porta a porta para expulsar pessoas consideradas imigrantes indocumentados. Em cidades como Joanesburgo, manifestantes arrastaram pessoas diretamente de suas casas e as entregaram à polícia. A líder da March to March, Jacinta Ngobese-Zuma, afirmou em 30 de junho que eles protestariam todas as quintas-feiras até que o governo levasse suas reivindicações a sério. Assim, a quinta-feira, 16 de julho, foi aguardada com certa tensão, embora nenhuma grande mobilização tivesse sido anunciada.

Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, pelo menos quatro pessoas foram mortas e milhares fugiram do país durante as últimas semanas de junho e as primeiras de julho. As principais áreas afetadas foram as províncias de KwaZulu-Natal, onde fica a cidade de Durban; Cabo Ocidental, cuja capital é a Cidade do Cabo; e Gauteng, onde ficam Joanesburgo e Pretória. A organização relatou que, embora os grupos agressores afirmem estar visando apenas imigrantes sem documentos, muitos dos atacados não se encontravam em situação migratória irregular.

3,9% da população da África do Sul (aproximadamente 2,4 milhões de pessoas) nasceu no exterior (em comparação com mais de 10 milhões na Espanha, representando cerca de 20% da população). Nos últimos meses, milhares de migrantes foram evacuados por seus países ou deixaram a África do Sul por conta própria, onde se tornaram bodes expiatórios para o desemprego que ultrapassa os 30%, com dois terços da população vivendo na pobreza.

Uma história de beligerância anti-imigração

March to March é o sucessor de outro importante movimento contra migrantes, a Operação Dudula, que surgiu em 2021, em meio à pandemia, nas ruas de Soweto, as mesmas ruas de onde Nelson Mandela veio. Dudula significa "expulsar", e suas práticas nesse sentido tornaram-se visíveis naquela época, quando centenas de pessoas saquearam estabelecimentos comerciais de propriedade de estrangeiros e semearam o terror entre a população migrante.

A retórica anti-imigração prevalece no país desde o fim do apartheid, mas ganhou força particular nos últimos anos. A comunidade online Put South African First, que também ganhou impulso durante a pandemia como uma campanha online, compartilha slogans com movimentos semelhantes em todo o mundo, promovendo a teoria da grande substituição e vendo suas mensagens viralizarem. Mas o golpe final que levou à crise atual veio em abril, quando Mazwi Kubheka, dono de uma mercearia (pequenos mercados que vendem produtos de primeira necessidade) no subúrbio de Vosloorus, desapareceu por dois meses. Esses movimentos sugeriram que o sequestro se devia à recusa de Kubheka em vender seu negócio para estrangeiros.

A campanha online #BringMazwiBack, apresentada como uma forma de coordenar as comunidades para garantir a libertação do jovem, transformou-se em "um ecossistema digitalmente coordenado de mobilização anti-imigração", segundo alguns críticos, que apontaram como figuras das redes sociais, como Jacinta Ngobese-Zuma, construíram uma narrativa anti-imigração com base no caso.

O incidente, que ocorreu após a morte de outro proprietário de um desses estabelecimentos em Soweto, abalou o país, com patrulhas de vigilantes visando estrangeiros em meio a um clima de discriminação contra cidadãos de outros países. As Nações Unidas denunciaram a situação com alarme em abril. O reaparecimento de Kubheka um mês depois pouco contribuiu para acalmar os ânimos. Ele alegou ter sido sequestrado e torturado, e acusou estrangeiros de serem os responsáveis. O governo continua sua investigação, afirmando que o motivo do sequestro permanece desconhecido e que cidadãos sul-africanos também podem estar envolvidos.

As lojas de bairro (spaza shops) surgem nos subúrbios e bairros operários, constituindo uma parte importante da economia local e um meio de sobrevivência para os setores mais pobres da sociedade. Como explicam autores como David Harvey, após o fim do apartheid, a África do Sul adotou o neoliberalismo, consolidando a desigualdade econômica exacerbada pela privatização e pelo aumento do desemprego. As lojas de bairro tornaram-se uma opção para muitos cidadãos, agora considerados iguais perante a lei, mas excluídos pela negligência estrutural e pela perda de seus meios de subsistência. Os migrantes também entraram nesse setor econômico, semeando tensões.

O movimento anti-imigração na África do Sul também inclui grupos políticos como o Action SA, liderado pelo ex-prefeito de Joanesburgo, que defende uma linha dura contra os africanos. Este grupo político anti-imigração exigiu recentemente proteção governamental após o assassinato de Andile Mvuyelwa Somgxada, um dos líderes do March to March, que foi morto a tiros no final do mês passado ao sair de casa. Embora os motivos do crime permaneçam obscuros, seus seguidores já o transformaram em um símbolo, definindo o assassinato como um "ato de represália", "um assassinato orquestrado, do tipo realizado por pistoleiros".

Leis de imigração mais rigorosas e biometria

O surto de violência na África do Sul causou medo entre os migrantes, que se viram sitiados e no centro da agenda política do país. Milhares de estrangeiros foram evacuados por seus governos nas últimas semanas, e muitos outros fugiram de suas casas por medo da violência.

A perseguição escalou a tal ponto que vários governos africanos exigiram explicações pelos ataques contra seus cidadãos, desencadeando uma crise diplomática com países como a Nigéria, que acusam Pretória de inação diante do racismo. Em Pretória, o presidente Cyril Ramaphosa dirigiu-se à nação em 9 de junho, expressando sua compreensão da frustração pública com o desemprego e as dificuldades econômicas, mas enfatizando que os migrantes não eram os culpados por essa situação. Ele então descreveu a imigração irregular como um grande desafio e prometeu superar uma era de políticas migratórias "fracas", reiterando que somente o Estado tinha autoridade para processar a imigração irregular.

O governo, portanto, optou por uma certa ambiguidade. Durante as marchas de 30 de junho, Ramaphosa se reuniu com dois líderes dos movimentos anti-imigração, demonstrando compreensão por suas reivindicações e insistindo que, por isso, o governo estava endurecendo suas leis de imigração, além de pedir que as manifestações fossem pacíficas. Ademais, alguns dias depois, reiterou que somente as forças de segurança do Estado estão autorizadas a solicitar documentos ou deter pessoas e enfatizou a necessidade de respeitar os direitos dos migrantes. Por outro lado, o governo também adotou argumentos que associam a presença de migrantes à insegurança ou ao desemprego.

Não se trata apenas de retórica. Em abril passado, foi aprovada uma reforma legislativa mais restritiva, apresentada como forma de melhorar o controle sobre os fluxos migratórios. Sob o nome de "Livro Branco", a lei visa "combater fraudes e abusos, fortalecer a segurança e digitalizar os serviços, além de atrair talentos e investimentos. Essas mudanças alinham a África do Sul às tendências globais", explica uma agência de notícias ligada ao governo. Enquanto em abril Pretória alegava ter deportado mais de 100 mil pessoas nos dois anos anteriores, na última segunda-feira anunciou a execução de 53 mil deportações em apenas algumas semanas.

Em relação à reforma das políticas de imigração, ela endurece os requisitos de entrada, prioriza estrangeiros com potencial de investimento e promove a migração qualificada, introduzindo novos programas como autorizações de residência para nômades digitais. Outro aspecto da nova legislação é a implementação da coleta de dados biométricos, seguindo o exemplo de outros atores, como a União Europeia.

Nesse contexto, foi anunciado no início de julho que o Ministério do Interior da África do Sul está trabalhando em um sistema biométrico de gestão de casos, que incluirá dispositivos que permitirão aos inspetores de imigração verificar a situação administrativa de estrangeiros durante as inspeções presenciais. Para tanto, Pretória busca um fornecedor para implementar essa tecnologia em tempo recorde, com prazo final em 24 de julho.

Muitos expressam preocupação com o que consideram um aumento da vigilância, que pode levar a erros e violar ainda mais os direitos humanos dos migrantes. Centenas de milhares de pessoas temem enfrentar mais uma quinta-feira de violência por parte de patrulhas de vigilantes que popularizaram a perseguição racial no país que derrotou o apartheid.

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