Em 2050, 25% da população mundial será africana e isso determinará nosso futuro

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10 Junho 2022

 

Em 2022, a população mundial ultrapassará 8 bilhões, um aumento de um terço em apenas duas décadas. Respeitados demógrafos estimam que, em 2050, seremos cerca de 9,5 bilhões. Por isso, são desconcertantes os comentários feitos por Elon Musk, há alguns meses. Segundo ele, “a baixa natalidade e seu rápido declínio” são “um dos maiores riscos para a civilização”.

 

A reportagem é de Edward Paice, publicada por El Diario, 06-06-2022. A tradução é do Cepat.

 

As taxas de natalidade na Europa, América do Norte e Ásia oriental estão, em geral, abaixo de 2,1 nascimentos por mulher, nível em que as populações se mantêm estáveis com taxas de mortalidade constantes. A situação em alguns países é especialmente chamativa.

 

A taxa de natalidade na Itália é a mais baixa na história do país. A taxa de natalidade da Coreia do Sul há décadas está estagnada, abaixo de um nascimento por mulher, apesar do cálculo de que foram investidos 120 bilhões de dólares em iniciativas destinadas a aumentá-la. O Japão começou o século com 128 milhões de cidadãos, mas está a caminho de ter apenas 106 milhões, em 2050.

 

A população da China atingirá o pico de 1,45 bilhão, em 2030, mas se não conseguir aumentar sua taxa de natalidade, o país mais populoso do mundo pode terminar este século com menos de 600 milhões de habitantes. Este é o “grande risco” mencionado por Musk. O problema é que a sua afirmação parece insinuar que a “civilização” não inclui a África.

 

A população de mais da metade dos 54 países da África duplicará – ou mais – até 2050, em consequência da alta fecundidade e da melhora nas taxas de mortalidade. Então, o continente abrigará ao menos 25% dos habitantes do planeta. Em 1950, sua população correspondia a 10% da população mundial.

 

A dimensão dessa expansão é sem precedentes: enquanto a população da Ásia terá multiplicado por quatro, no mesmo período, a da África terá multiplicado por dez. O resultado é o que o demógrafo Richard Cincotta chama de “juventude crônica”: 40% dos africanos são crianças com menos de 14 anos e na maioria dos países africanos a idade média é inferior a 20 anos.

 

As mães africanas terão cerca de 450 milhões de filhos, nos anos 2020. Nos anos 2040, prevê-se que esse número chegue a mais de 550 milhões, aproximadamente 40% de todas as crianças nascidas no mundo ao longo desse período. As taxas de natalidade baixas ou em rápido declínio continuam sendo a exceção e não a regra na maior parte da África. Em nível global, o número de nascimentos está no ponto mais alto da história – 140 milhões por ano – e é pouco provável que ocorra um declínio acentuado nas próximas duas ou três décadas.

 

Trata-se de uma espécie de onda que sustenta o futuro crescimento da população, para o bem ou para o mal (ou para ambos). Com a alta fecundidade sustentada na África oriental, ocidental e central, o continente contribuirá com 1,3 bilhão dos 2 bilhões de habitantes que comporão o aumento populacional que ocorrerá entre 2019 e 2050. Então, tanto a África oriental como a África ocidental terão populações maiores do que a da Europa.

 

A partir desse ponto, a demografia variada da África será um dos fatores centrais que determinarão se a população mundial alcançará seu ponto máximo na segunda metade do século XXI ou se continuará crescendo, uma questão controversa, em disputa e especialmente significativa na era da crise climática.

 

O relato de Elon Musk sobre a implosão demográfica não é original. Lembra o que dizia o Dr. HB McKlveen, que alertava sobre o “despovoamento das nações civilizadas”, no Journal of the American Medical Association, em 1895. Opinião de muitos economistas ocidentais nos anos 1930, entre eles, John Maynard Keynes.

 

Mais de 50 anos após a publicação do best-seller de Paul Ehrlich, The Population Bomb, as narrativas de “explosão” também aparecem com regularidade. Até hoje, a adaptabilidade e a resistência humanas superaram as crises demográficas (como a Peste Negra, no século XIV) e o alarmismo cíclico.

 

Não se trata de ser complacente, nem panglossiano, mas em alertar que as narrativas alarmistas são invariavelmente apregoadas por razões ideológicas ou de outro tipo. Para além das próximas duas ou três décadas, a futurologia demográfica está repleta de escolhos, embora não sejam tão perigosos como os prognósticos econômicos ou meteorológicos a médio e longo prazo.

 

Reimaginar a África

 

A omissão da demografia africana no pronunciamento de Musk é um sintoma das colossais deficiências na compreensão do Ocidente sobre a África e os países que a compõem. As delegações africanas são atores secundários nas cúpulas mundiais como a COP26, apesar das ramificações da crise climática para o continente (e de seu potencial para combater os efeitos nocivos).

 

Os governos ocidentais foram lentos em cooperar com seus homólogos africanos na batalha para conter o COVID-19, para a qual forneceram pouquíssima ajuda humanitária. A África permanece marginalizada, inclusive nas representações estereotipadas da maioria dos meios de comunicação ocidentais e no imaginário da maioria dos cidadãos ocidentais. Este lamentável estado de coisas não pode – não poderá – perdurar.

 

O mero peso dos números deve levar a uma “re-imaginaçãodos países africanos e suas populações. Isso por si só terá a capacidade de repercutir na geopolítica, no comércio mundial, no desenvolvimento tecnológico, no futuro das religiões dominantes do mundo, nos padrões migratórios... em quase todos os aspectos da vida.

 

Uma familiaridade mais ampla com as diversas características e trajetórias demográficas do continente é um bom ponto de partida para esta “re-imaginação”. E também pode ajudar ter sempre consciência de que as massas continentais da China, Estados Unidos, Europa, Índia e Japão podem, todas juntas, caber dentro deste continente que ocupará um lugar cada vez maior nas vidas de seus vizinhos e do mundo.

 

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