As novas diretrizes da ação evangelizadora. Artigo de Matias Soares

Foto: Joice Rivas | Pexels Canva

Mais Lidos

  • Michel Foucault: a engenharia do ódio social. Artigo de Alexandre Francisco

    LER MAIS
  • RS deve enfrentar primeira onda de tempestades sob El Niño

    LER MAIS
  • Um dos primeiros sinais do lawfare no Brasil foi o processo de impeachment que se abateu sobre Dilma Rousseff. Entrevista com Gisele Cittadino

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

15 Julho 2026

"As Novas Diretrizes devem ser lidas, rezadas e discutidas em cada comunidade eclesial do nosso imenso país. Elas são também um caminho para testemunharmos um rosto pastoral da nossa catolicidade. É momento oportuno para que as suas grandes preocupações sejam assumidas por todos e cada um dos sujeitos eclesiais e organizações do povo de Deus, que deseja promover o anúncio do Evangelho. Assim como foram construídas, as Diretrizes devem ser recebidas por toda a Igreja no Brasil. É missão de todos nós. Vamos em frente!"

O artigo é de Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN. 

Eis o artigo. 

As Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora

A Igreja no Brasil acaba de publicar, via CNBB, as suas Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora (2026-2032). Agora é tempo de recepcioná-las. A sua construção foi fruto de um amplo processo sinodal: escuta e participação de todos. Com elas, a Igreja pretende "Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos, em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino de Deus" (cf. Objetivo Geral). O texto está construído com seis capítulos, além da introdução e conclusão. O paradigma missionário é a questão transversal ao seu desenvolvimento, muito na linha do que os ensinamentos do Concílio Vaticano II nos ensinou (cf. Ad Gentes, 2), quando o lemos e interpretamos integralmente. Temos que estudar bem os documentos conciliares e o magistério das Conferências na América Latina para compreendermos o que nos propõem as Novas Diretrizes. Serão seis anos iniciados e abertos ao futuro da nossa responsabilidade evangelizadora e pastoral; por isso, é tempo de estudo e discernimento acerca do que somos chamados a concretizar, à luz do Espírito Santo e sob a guia do Evangelho.

Os temas abordados, a saber: A Igreja: tenda do encontro, a escuta dos sinais, discernimento para uma igreja sinodal, povo de Deus em missão, caminhos da missão e compromissos sinodais, constituem uma sinfonia da pastoralidade da Igreja no Brasil para os nossos tempos e contextos. Temos que partir do princípio da sua sacramentalidade, como aquela que existe para reluzir a luz de Jesus Cristo à humanidade de hoje, com suas alegrias, dores e esperanças (cf. Lumen Gentium, 1; Gaudium et Spes, 1). Não podemos continuar encurvados sobre nós mesmos. Temos que sair! Anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus a todos, todos, todos! Para isso, antes de quaisquer preconceitos, ou fantasias pueris, temos que contemplar os sinais dos novos desafios à evangelização, com a centralidade do ser humano, que está imerso e vitimado por estes fenômenos multifaciais. Os ensinamentos recentes do autêntico magistério eclesial, na pessoa dos Papas e demais sucessores dos apóstolos, em comunhão com o sucessor de Pedro, têm nos favorecido com profundas e densas reflexões que nos mostram com lucidez e coragem o que devemos fazer neste momento complexo da história da humanidade, assinalada com uma "época de mudanças".

Os grandes temas como a identidade missionária da Igreja, a sua relação com o mundo, as questões climáticas, a fraternidade humana, a urgência do pacto educativo global, com seus princípios, a tecnocracia, com a sua revolução confirmada pela inteligência artificial, as desigualdades sociais, o tema da paz e outros dramas, são abordados pelas Diretrizes. Elas exigem de todos nós, que somos sujeitos eclesiais e cidadãos brasileiros, lucidez, discernimento e amor às causas evangélicas defendidas por Jesus Cristo. Temos que nos voltar ao essencial do cristianismo. Fujamos do paganismo religioso, com seus exoterismos alienantes. Urge uma "mística de olhos abertos" (cf. J. B. Metz). Nesse cenário, uma teologia radicada na antropologia posta pelo Concílio Vaticano II (cf. Gaudium et Spes, 22), em consonância com a genuína Tradição viva da Igreja, faz-se necessária e prioritária. Tudo, todavia, vivido em espírito sinodal e com o olhar da fé, da esperança e da caridade, que são as estacas desta tenda do encontro.

É tempo de acolhida criativa destas Diretrizes. Todas as forças vivas das comunidades eclesiais devem assumir esses referenciais teológicos e pastorais, com sensibilidade ao fortalecimento da comunhão, da participação efetiva e da conversão missionária de todas as nossas estruturas. Muitos ainda não entenderam; mas, na nossa América Latina, já estamos a viver um "entardecer do cristianismo" (cf. Tomas Halik). Ele ainda não é teórico; mas já é prático. Os fenômenos nos indicam uma forma de viver que não condiz com as estatísticas apresentadas acerca da quantidade dos adeptos de um cristianismo, com pouca radicalidade evangélica.

O censo de 2022 nos ofereceu um retrato numérico de cerca de noventa por cento de um Brasil de religiosidade cristã. Há um distanciamento entre o teórico e o prático. O secularismo também nos joga cada vez mais fora dos grandes debates públicos que têm a ver com a vida da população, principalmente da mais sofrida e excluída. Em contrapartida, grupos religiosos apelam ao fundamentalismo e à polarização política e ideológica, com a perda do diálogo frutífero entre fé e razão, tendo em vista o bem comum. O cristianismo que tem uma vocação eminentemente fraternal, assume os rumos da segregação e da negação do outro.

Enfim, o método ver, julgar e agir, usado pela Igreja, já com a ação católica e introduzida em nossa realidade latino-americana, tem lugar nestas Diretrizes. Há uma tradição de planejamento pastoral do episcopado brasileiro, desde 1915, que é legitimado pelas novas normativas. As nossas Igrejas Locais precisam ser fiéis a essa metodologia e assumir com espírito evangélico e eclesial o que os nossos bispos organizaram a partir do amplo processo de escuta e discernimento espiritual.

As Novas Diretrizes devem ser lidas, rezadas e discutidas em cada comunidade eclesial do nosso imenso país. Elas são também um caminho para testemunharmos um rosto pastoral da nossa catolicidade. É momento oportuno para que as suas grandes preocupações sejam assumidas por todos e cada um dos sujeitos eclesiais e organizações do povo de Deus, que deseja promover o anúncio do Evangelho. Assim como foram construídas, as Diretrizes devem ser recebidas por toda a Igreja no Brasil. É missão de todos nós. Vamos em frente!

Leia mais