15 Janeiro 2026
"Esse estilo de estar e exercer o poder na Igreja é uma ‘perversão’ antievangélica. Infelizmente, nos deparamos com estas mentalidades de príncipes em alguns ambientes eclesiásticos. Essa ‘alucinação narcísica’ corrói mentes e corações de alguns membros da Igreja", escreve o padre Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.
Eis o artigo.
A nossa ação pastoral necessita de espiritualidade. Através dela, teremos paixão pela causa do Reino de Deus. Num mundo marcado pela ‘crise de sentido’, essa questão tem que ser considerada pelos projetos pastorais das Igrejas Particulares do nosso imenso Brasil. O fundamento espiritualidade está no ‘encontro pessoal com Jesus Cristo’. Não podemos cair na lógica da ‘sociedade do cansaço’ (cf. Byung-Chul Han), que é consumida enquanto consome. Estamos de fato preocupados, em fazer muitas coisas, esquecendo-nos do Único Necessário (cf. Lc 10,38-42). A negligência na ‘escuta do Senhor’ é uma falha grave na construção de um projeto pastoral que realmente tenha a Missão como o paradigma e o programa da ação evangelizadora de uma Igreja Local (cf. Papa Francisco, disponível aqui n. 3). Um projeto pastoral sem um alicerce espiritual será refém daquelas tentações elencadas pelo Pontífice de então, neste mesmo discurso, a saber:
1. A ideologização da mensagem evangélica
a) O reducionismo socializante; b) A ideologização psicológica; c) A proposta gnóstica; d) A proposta pelagiana. Assumo este esquema apresentado pelo Papa Francisco, porque nele encontro uma síntese antropológica do que a cultura contemporânea nos apresenta na sua busca incessante de expulsar Deus do paraíso por Ele criado - o mundo, a história, as subjetividades - (cf. disponível aqui). Há, não só uma negação de Deus, como também uma grande indiferença à sua importância para o “lugar existencial” que Ele poderia ocupar na condição humana. O contemporâneo tem essa marca pós-teísta, que não quer dizer pós-religiosa. Ao contrário, este tem tomado corpo em muitos espaços; contudo, com uma criação subjetivista, sem, necessariamente, uma aceitação do objeto da Divina Revelação, que é a pessoa de Jesus Cristo.
2. O funcionalismo
Esse ponto levantado pelo saudoso Papa Francisco tem sido fomentado em muitas de nossas Igrejas Particulares. Os burocratas e os profissionais do sagrado gostam de resultados. Valorizam os que, por conveniência, dizem sim para tudo que é feito, sem nenhuma preocupação com o bem comum. Há um círculo vicioso de jogo de interesses nas tribos construídas. O jogo é cortesã, como algo próprio das cortes. Eles tratam as pessoas como números, não são capazes de olhá-las na face e chamá-las pelo nome. As posicionam de acordo com as suas conveniências e interesses. São muito ciosas do poder e atropelam quem estiver pela frente, principalmente quando seus interesses e seus projetos pessoais estão em jogo. O funcionalismo eclesiástico é um irmão próximo do ‘carreirismo’. É notório esse dado dentro dos círculos eclesiásticos também. As posturas pastorais funcionais são contaminadas de mundanismo espiritual, seguindo os sintomas denunciados pelo Papa Francisco quando falou à Cúria Romana, apresentando as suas doenças (cf. disponível aqui).
3. O clericalismo
Esse estilo de estar e exercer o poder na Igreja é uma ‘perversão’ antievangélica. Infelizmente, nos deparamos com estas mentalidades de príncipes em alguns ambientes eclesiásticos. Essa ‘alucinação narcísica’ corrói mentes e corações de alguns membros da Igreja. Estes são os alucinados que têm uma percepção ‘infantilizada’ do lugar da Igreja no mundo de hoje. Não acolhem, nem fazem o esforço espiritual e intelectual de recepcionar o Concílio Vaticano II. Vivem em casulos, esperando ser ‘borboletas’. Não reconhecem a urgência da “conversão missionária” de toda a Igreja” (cf. EG, cap. I). Não assumem uma pastoral com rosto missionário, porque com ela teriam que potencializar a “pirâmide invertida” da eclesiologia do Concílio Vaticano II. O Papa Leão deu ênfase, mais uma vez, a essa linha de teologia no último Consistório convocado por ele. Teremos uma série de catequeses sobre os ensinamentos do grande evento conciliar. A pastoralidade da teologia (cf. disponível aqui), sobre a qual já tratei, tem que injetar uma forma contemporânea de pensar o “ser Igreja em nossa cultura” pós-humanista, com clara e determinante superação desse clericalismo que sufoca uma ampla e séria conversão pastoral, como nos indicara a V Conferência de Aparecida.
Enfim, a pastoral com Espírito é aquela vivida pelas primeiras comunidades cristãs. Temos que reler, em chave pastoral, o que fora vivido pelas comunidades dos Atos dos Apóstolos. Estamos numa Era neo-pagã. Os desafios vividos pelas Igrejas dos primórdios é o que temos aos nossos olhos no contemporâneo. O que dará vitalidade às nossas causas, se chegarmos a cultivá-las, será uma profunda espiritualidade arraigada no Evangelho. Infelizmente, em nome da onda, estamos apostando em ‘cavilações midiáticas’. O caminho para essa qualificação da nossa ação evangelizadora passará necessariamente pela espiritualidade e pelo estudo de uma teologia que faça a hermenêutica dos sinais dos novos tempos. Essa conversão, os burocratas e funcionários eclesiásticos de plantão não valorizarão, infelizmente. Mas, como somos salvos pela Esperança, vamos lutando e fazendo a nossa parte nas pequenas atitudes. Temos que esperançar. Assim o seja!
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