"Nesse texto, busquei pensar sobre as lógicas que operam por detrás das atuais máquinas pensantes, e proponho uma nova taxonomia: a máquina girardiana. Se aceitarmos a ideia de Hui sobre tecnodiversidade, então é possível conceber muitas outras máquinas."
O artigo é de Fernando Wirtz, publicado originalmente em inglês por 421 News, e enviado ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU. A tradução é de Ricardo Evandro S. Martins.
Fernando Wirtz filósofo e vive no Japão. Trabalha com temas relacionadas à filosofia japonesa, filosofia da tecnologia e à filosofia transcultural. Publicou livros como Phänomenologie der Angst (2022) e Myth and Ideology (2023).
Como podemos pensar sobre a lógica que opera por detrás de figuras como Peter Thiel ou Alex Karp? Não estou me referindo às suas psicologias individuais, mas muito quanto às suas "máquinas pensantes". Um dos motivos pelos quais esses empreendedores despertam tanto interesse não se deve somente à sua influência no mundo digital, mas também porque eles personificaram o paradigma do empreendedor-filósofo; assim, o interesse deles por ideias filosófico-políticas não pode ser ignorado. Vale a pena considerar suas ideias para além do mero esquema [3] hermenêutico da tecnologia, ou, pelo menos, ampliar esse esquema para incluir o que poderíamos chamar de sua filosofia da tecnologia. Nesse texto, gostaria de explorar um pouco o tema sobre as "máquinas pensantes" da nossa era, usando as reflexões do novo livro de Yuk Hui, Kant Machine (2026), como um ponto de partida.
No seu livro, Yuk Hui explora o tema dessas máquinas através da filosofia de Kant e faz distinção entre máquinas cartesianas, máquinas humeanas e máquinas kantianas. Se aceitamos o convite de Hui, podemos ser capazes de descobrir novas máquinas. Depois de tudo, na maior parte de suas obras, Hui advoga pela noção de tecnodiversidade; isto é, a necessidade de não reduzir nossa compreensão do tecnológico àquilo que responde a uma história eurocêntrica ou ocidental da tecnologia.
Nesse sentido, nesse texto, pretendo fundamentalmente pensar sobre a máquina girardiana. Obviamente, isso não se trata de fornecer uma taxonomia definitiva do tecnológico. Contudo, é necessário considerar as lógicas que operam por detrás das atuais máquinas de terror.
Mas vamos fazer isso passo a passo.
Inteligência artificial não surge da imitação do pensamento. A "artificialidade" de uma inteligência não é meramente medida pela sua proximidade com a inteligência humana. Máquinas são humanas à medida em que humanos são máquinas. Afinal, a evolução da nossa "inteligência" teria sido impossível sem a evolução dos artefatos técnicos os quais a expandem desde o uso do fogo. Assim, pensar sobre inteligência artificial envolve pensar sobre a inteligência humana: como ela é produzida, como ela evolui, como ela transforma, como ela modifica os artefatos ao redor, e como esses artefatos, por sua vez, artificializam a inteligência humana. Inteligência humana é, desde bem do início, técnica. Matteo Pasquinelli desenvolve essa tese no seu livro The Eyes of the Master (2023): "o código inerente da IA é constituído não pela imitação da inteligência artificial, mas pela inteligência das relações de trabalho e sociais."
Máquinas pensantes são, então, máquinas que nos permitem performar operações de transformação: lógicas diferentes de pensamento. Não somos sempre livres para escolher qual lógica empregar (muitas vezes elas aderem a nós na forma de ideologias, senso comum ou evidência). No seu livro, Kant Machine: Critical Philosophy after AI (2026), Yuk Hui nos convida a pensar sobre certas formas de pensamento e sobre suas máquinas correlatas. O mundo dos humanos e o mundo das máquinas são o mesmo.
Em vários trabalhos seus, Hui tem explorado a tensão entre as duas maiores tipologias tecnológicas: mecanicismo [4] e organicismo. Mecanicismo começa a partir do princípio do individual para construir o coletivo; organicismo, por outro lado, começa a partir da organização para se compreender processos individuais. Desde uma perspectiva histórica, isso pode ser lido como sendo a transição do pensamento mecanicista do século XVIII para o organicismo do século XIX, tema explorado em detalhes por Hui em Recursivity and Contingency (2019). Mas como o autor destaca, essa lógica pode ser aplicada a campos diferentes, incluindo o campo político, o qual é o foco de seu livro anterior, Machine and Sovereignty (2024).
Vamos imaginar tipos diferentes de "máquinas". Quando pensamos em uma máquina, primeiro pensamos nos mecanismos causais: um relógio. Relógios são o paradigma do mecanicismo. Tudo neles é material e tudo pode ser explicado através de forças mecânicas (a tensão das cordas, a fricção das engrenagens). Tanto o relógio de corda quanto o automóvel requerem energia que venha de fora e se dissipe à medida que a ação se desenrola.
Em filosofia, há máquinas intelectuais as quais funcionam num modo similar: estruturas rigorosamente compostas de proposições aninhadas que, seguindo a forma dedutiva, transferem a verdade das premissas para a verdade das consequências. Máquinas cartesianas [5] são máquinas do tipo mecanicista: máquinas racionalistas movidas por um princípio substancial, capazes de operações imensas, mas sempre "duramente codificadas": elas são limitadas pelas suas configurações originais, por regras pré-dadas, ou, em filosofia, pelo princípio imobilizante da substância, da mente. Essa é a IA simbólica dos anos de 1950: regras explícitas, lógica dedutiva, representações formais do mundo. Como John Haugland formulou, "se um processo ou sistema é mecânico, não pode raciocinar; se raciocina, não pode ser mecânico."
Há outros tipos de máquinas as quais Hui chama, em reverência ao filósofo escocês David Hume, Máquinas humeanas. Máquinas humeanas não partem de uma estrutura puramente pré-programada: elas são probabilísticas, indutivas, máquinas bayesianas. [6] Hui as encontra onde quer que modelos de aprendizado de máquina incorporem dados empíricos em um processo de aprendizado baseado em probabilidade e previsão. Máquinas humeanas são muito mais abrangentes do que as cartesianas, uma vez que seu princípio de funcionamento não reside em axiomas a priori, mas sim em informação. Amazon e Uber ajustam o preço de uma oferta e de uma corrida com base no histórico do usuário e na disponibilidade de carros: a autorregulação do mercado liberal é, nesse sentido, humeana. O preço das mercadorias é um insumo [7] que traduz o desejo em forma de quantidade.
Contudo, máquinas humeanas têm seus próprios limites: elas não preveem nada que não tenha sido alimentado por dados em algum momento e, além disso, elas não são capazes de contextualizar o ciclo [8] de retroalimentação gerado por um autoconsumo geral. Elas não conseguem escapar de seu próprio espaço de probabilidade.
Kant, em Crítica da razão pura, propôs transcender tanto o racionalismo cartesiano quanto o empirismo humeano. A Filosofia transcendental não nega que os seres humanos possuem certas estruturas inatas de conhecimento, mas também não nega que sem informações externas essas estruturas são inúteis. Kant propõe combinar as categorias a priori (independentes da experiência) com um empirismo muito mais consequencial: podemos somente acessar aquela porção da realidade filtrada por meio das formas de nossa subjetividade, espaço e tempo. Isso não significa que o mundo seja uma ficção, mas sim que o mundo é mediado pelos nossos modos de conhecer. Inteligência, nessa leitura, "nem é racional, nem empírica, é transcendental", diz Hui. Máquinas kantianas são máquinas abertas, máquinas criativas, que tentam superar tanto o mecanicismo quanto o organicismo. Elas são baseadas numa razão que, enquanto não pode diretamente intuir o infinito, podem imaginá-lo, algo que a máquina humeana não pode fazer (afinal, máquinas kantianas são o nascimento das máquinas românticas as quais santificarão o gênio, mas isso é outra história).
Hui não visa fazer uma taxonomia exaustiva. O seu Kant Machine procura primordialmente apresentar três aspectos de Kant (epistemologia, moralidade e política) como contribuições à teoria cibernética. A questão que nos interessa é outra: existem outras máquinas possíveis?
Em muitos de seus trabalhos, Hui complementa o esquema mecanicismo/organicismo com um terceiro momento: cibernética. Na cibernética, a máquina não depende somente de um insumo externo; trata-se de ser capaz de gerar sua própria retroalimentação. Verdade, o organismo é também capaz disso (alguma coisa que filósofos do organicismo, como F.W.J. Schelling, se referiram como sensitividade, mas a máquina cibernética dá um passo adiante: isso não obedece somente a uma totalidade centralizada e (consciência) previamente dada, mas é modular, capaz de modulações. Isto é, isso pode ser linkado,[9] expandido, atualizado, reinstalado, hackeado. Além disso, sendo uma máquina autônoma (e não heterônoma), ela pode codificar outras máquinas. Isso é possível porque a totalidade não é dada de antemão: a totalidade cibernética é somente pressuposta como uma ideia reguladora.
Isso é, de fato, a tese central de Hui: Kant antecipa a cibernética. O filósofo Gilbert Simondon já havia observado isso: "Kant somente poderia ter tratado da cibernética, situando-a na Crítica da Faculdade de Julgar". A Crítica da Faculdade de Julgar é precisamente o livro em que Kant elabora a noção de juízo reflexivo (um exemplo comum é o juízo estético; quando dizemos "esta pintura é bela", não podemos subsumir a pintura sob qualquer regra universal ou axioma sobre o belo, pois não há um). Nesse sentido, juízo reflexivo é a habilidade de se buscar a regra desde casos particulares, sem se ter a regra de antemão.
Agora, se pensarmos em Kant Machine em relação à obra Máquina e Soberania (2024), o mais "político" livro de Hui, temos de nos questionar sobre outras máquinas — máquinas políticas e máquinas de guerra. As Máquinas decisionistas são cibernéticas também num certo sentido, mas de um modo diferente: elas não dependem de informações armazenadas como a máquina humeana o fazem. Elas operam com base na exceção.
O filósofo Carl Schmitt [10] distinguiu três tipos de pensamento jurídico: normativismo (=mecanicismo), ordem jurídica concreta (=organicismo) e decisionismo (sua posição própria). Para Schmitt, o soberano é "aquele quem decide sobre [o estado] de exceção". A exceção não é uma falha do sistema: isso é a sua alma. Como escreveu Schmitt: "A exceção é mais interessante do que a regra. A regra prova nada; a exceção prova tudo. Na exceção, o poder da vida real rompe a crosta de um mecanismo o qual tem se tornado entorpecido pela repetição". Hui lê este vitalismo político: a força vital do soberano interrompe qualquer mecanismo quando a situação a demanda.
O que é digno de nota é que esse decisionismo está se tornando cada vez mais estrutural na era da geopolítica digital. A megamáquina [11] (um conceito que Hui tomou emprestado de Lewis Mumford) é o vasto complexo tecnossocial que excede qualquer controle soberano. O soberano precisa da megamáquina, mas não a domina totalmente. A consequência: a exceção se torna normalizada.[12] Considere criptomoedas: "sua propriedade supranacional (no sentido de que não se enquadra plenamente no ordenamento jurídico de um determinado Estado) tende a subverter o sistema financeiro existente sob controle estatal. Entidades supranacionais têm aumentado significativamente por toda a última década, principalmente devido ao rápido desenvolvimento de sistemas tecnológicos digitais, os quais avançam mais rapidamente do que o sistema humano". O libertarianismo atual deve um pouco às máquinas decisionistas, uma vez que elas concebem cada indivíduo como um mini-Führer, quem toma constantemente decisões excepcionais. A manifestação da soberania como o poder que decide sobre a exceção torna-se, assim, cada vez mais normalizada. Não porque o Estado seja mais poderoso, mas porque ele já não mais controla a situação planetária e precisa intervir constantemente para restaurar a estabilidade.
Hui sugere que essas máquinas não são inocentes. Só pelo modo como vemos nos casos de máquinas schmittianas, as máquinas são essencialmente políticas. Portanto, gostaria de pensar um pouco além de Hui e considerar um modelo adicional: as Máquinas girardianas.[13] René Girard [14] foi um filósofo francês quem passou grande parte de sua carreira nos Estados Unidos. Ao longo de seus textos, Girard fala (quase obsessivamente) sobre uma única teoria, a teoria mimética.
Em resumo, para Girard, desejo é mimético: desejamos o que o outro deseja. Desejamos aquilo que o outro deseja porque o outro o deseja. Mas nessa miragem libidinal, acabamos por odiar o outro, aquele que serviu como modelo para o desejo. Para Girard, essa é a origem dos conflitos e da violência. Quando cada um começa a desejar a mesma coisa, a violência surge; tudo se torna confuso. O único modo de se restaurar a ordem é por meio do sacrifício de um bode expiatório. Em torno dessa vítima, a sociedade se reunifica. Girard encontrou essa estrutura mimética na raiz de diferentes expressões culturais: mito, tragédias, romances. Na realidade, para Girard, esse é o mecanismo que reside no coração de toda cultura ocidental.
Agora, o que são as máquinas girardianas? Máquinas girardianas são máquinas cujo algoritmo não é baseado nem num mecanismo pré-codificado, nem em aprendizado vindo de um largo banco de dados. Elas são outra forma de estrutura cibernética. A máquina girardiana também se alimenta de desejos e sentimentos, do mesmo jeito como ocorre com a máquina humeana. Contudo, enquanto a máquina humeana mobiliza um largo número de desejos em direções diferentes e as quantifica, a máquina girardiana enxerga o desejo como a máquina de poder. Poder é a habilidade de controlar o desejo.
As máquinas capitalistas têm sempre se alimentado de desejo e tem alimentado o desejo. Contudo, tem sido dito que elas operaram, nas suas formas liberal e neoliberal, baseadas na quantificação de desejo como fazem as máquinas humeanas: o preço da commodity é um insumo que traduz o desejo. A autorregulação do mercado é, neste sentido, humeano. A lógica girardiana, por um lado, é a lógica de metamáquinas [15] (as máquinas que regulam o resto das máquinas). As lógicas da metamáquina não se ocupam com qualquer tipo de desejo, mas sim com o que Girard chamou de desejo mimético.
A diferença entre o desejo humeano e o desejo mimético é estrutural. Num sistema humeano, um produto se torna mais desejável quanto mais ele é comprado (este é a lógica da frequência e do clickbait[16]). Num sistema girardiano, um produto se torna mais desejável porque outro o deseja (esta é a lógica da imitação social). São de estruturas similares, mas uma é individualizadora, enquanto a outra estrutura é organizadora. A lógica das redes sociais é girardiana, não humeana. O algoritmo não só calcula o que você quer; ele calcula o que você quer porque outros o quiseram, triangulando o nosso olhar. Isso é o porquê não se trata também de ser completamente kantiano (isto é, autônomo: que dá a si mesmo a lei).
E aqui chegamos ao ponto crucial: o desejo mimético é cibernético. Ele se retroalimenta de si mesmo. A inveja não é um estado estável; é um ciclo. O desejo cresce porque o desejo da outra pessoa cresce, e o desejo da outra pessoa cresce porque o seu cresce. Esse ciclo pode se ampliar ao ponto de levar à destruição mútua.
No trabalho tardio de Girard, a presença do Apocalipse se torna cada vez mais evidente: as portas do Apocalipse se abrem quando a violência mimética se intensifica ao extremo. Considere um conflito bélico quando ambas as partes tentam deter a outra. Seguindo a lógica de negociação de Thomas Schelling em seu livro The Strategy of Conflict (1960): aquele quem for mais louco pode vencer numa situação de negociação. Se você conseguir convencer seu oponente de que está disposto a se jogar do precipício, você é o vencedor. No entanto, se ambos os competidores forem "loucos", a escalada da violência é inevitável. Girard, em seu livro Clausewitz at the Extremes, aplica essa análise à corrida armamentista contemporânea e conclui que Clausewitz já não é suficiente: a guerra tornou-se recíproca e ilimitada.
Na história do Ocidente, o mecanismo que buscou desmantelar o conflito mimético foi a lógica do bode expiatório e, sobretudo, a lógica cristã. A mensagem do cristianismo, de segundo Girard, consiste em revelar a inocência do bode expiatório (o objeto da violência sacrificial). O cristianismo, nesse sentido, implica o fim do sacrifício. Mas isso nos leva a outra questão.
Nós começamos falando sobre inteligência artificial e acabamos discutindo sobre as máquinas sacrificiais. Máquinas sacrificiais poderiam ser aquelas capazes de sacrificar (e tenho cautela com esse termo).
Pergunta-se se as máquinas são capazes de pensar. Mas talvez uma questão mais interessante seria a de saber se as máquinas são capazes de fazer sacrifícios. Primeiro, em um sentido heurístico: sacrificar algo em nome de alguma outra coisa, decisões econômicas calculáveis, sacrificar uma despesa por outra. Isso pode recair no comportamento esperado das máquinas. O utilitarismo lida com esses problemas quando ele discute variações do "dilema do trem":[17] sacrifica-se um para salvar cinco. É um sacrifício calculável.
A questão mais perturbadora é se as máquinas são capazes de sacrificar seres humanos, não só a vida como uma grandeza calculável, mas a própria humanidade, a essência humana. E se somos capazes de construir máquinas que fazem isso.
A máquina kantiana é precisamente a máquina que nega categoricamente o sacrifício desumano. A ideia de uma IA Constitucional empregada pela Anthropic[18] traz consigo nuances kantianas. A paz perpétua de Kant é a proposta de um algoritmo político que faz do princípio da humanidade a sua condição inegociável. "Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua própria pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim e nunca apenas como um meio." O imperativo categórico não é um algoritmo fechado; ele é precisamente a negação de que qualquer decisão relativa à humanidade possa ser reduzida a um algoritmo.
Girard está mais uma vez presente nesses tempos. Não só por causa da importância de sua filosofia, mas porque alguns de seus "estudantes" tem se tornado uma figura particularmente significativa. Estou me referindo aqui a Peter Thiel, J.D. Vance e mesmo a Alex Karp, que assistiram aulas de Girard em Stanford. Embora não se possa dizer que essas três figuras sejam comparáveis, ou que incorporem Girard, e muito menos que se identifiquem plenamente com a filosofia de Girard, pode-se refletir sobre essas figuras a partir do que gostaria de chamar de "girardianismo sombrio".[19]
Em Machine and Sovereignty, Hui destaca que o vitalismo político de Schmitt está sendo reproduzido atualmente por meio de figuras como Peter Thiel e Nick Land, representantes da direita neorreacionária. Thiel, em The Straussian Moment (2007), interpreta o atentado de 11 de setembro de 2001 como uma refutação definitiva do liberalismo iluminista: a demonstração de que a política real [20] tomou lugar no reino da exceção, não das normas. Palantir Technologies, empresa de análise de dados e de vigilância que Thiel fundou com Alex Karp, fornece a infraestrutura para tal tomada de decisões: identificar exceções, designar inimigos, processar informações a uma velocidade que supera a deliberação democrática.
Contudo, girardianismo sombrio não é meramente um vitalismo reverso; trata-se de girardianismo do sacrifício do humano. Atrás da máscara do humanismo prometeico reside um girardianismo sombrio. O girardianismo sombrio não sobrevive ao primeiro momento de Girard (o que Girard chama de lógica sacrificial ou mitológica) sem avançar em direção ao cristianismo. Ao contrário, o girardianismo sombrio penetra profundamente o cristianismo, ele o atravessa, acelera-o. Para o girardianismo sombrio, a redenção tem de ser alcançada através da aceleração; a administração da redenção é a gestão das forças sacrificais.
O monopólio do sacrifício através da teologia tecnopolítica. A teocracia sacrificial é a administração do genocídio. Mas aqui a diferença em relação à máquina hobbesiana, isto é, a máquina mecanicista, é crucial: o dispositivo[21] de captura da soberania cognitiva não é concebido como um soberano absoluto, mas como um CEO, uma monarquia ao estilo de Curtis Yarvin, em que o lugar central não é conferido por Deus ou pela Vontade Geral, mas pelo desejo soberano que mobiliza o mérito (teocracia secularizada).
Como dissemos, não se trata de mero decisionismo levado ao extremo; este Girard sombrio é cibernético: retroalimenta-se do desejo. Esta talvez seja a diferença mais importante entre o desejo humeano e o desejo mimético. O desejo mimético é cibernético porque se retroalimenta do desejo. O desejo humeano: um produto se torna mais desejável quanto mais ele é consumido. O mecanicismo girardiano: um produto se torna mais desejável porque os outros o desejam. Girardianismo sombrio opera com essa segunda lógica (e a radicaliza). O único modo de se libertar desta repetição é romper com a lógica da imitação. Isso é precisamente os contrarians,[22] isto é, os investidores criativos que podem ver além.
Nossos primeiros contatos com o aprendizado ocorrem por meio da imitação. Mas em algum momento, essa imitação se torna tóxica para a criatividade. Há quem nunca supere essa espécie de infância criativa. Grande parte do que se passa por inovação no Vale do Silício é, obviamente, algo aquém disso — trata-se mais de uma tentativa de replicar o que funcionou ou o que pelo menos se percebeu como bem-sucedido no passado. Essa imitação pode, às vezes, dar frutos. Mas na maioria das vezes, revela-se derivada e retrógrada. Os melhores investidores e fundadores estão atentos a essa distinção e prosperam justamente por resistirem ativamente ao impulso de criar imitações imperfeitas de sucessos anteriores (Karp; Zamiska, 2025).
O girardianismo sombrio, um paradoxo estranho, subestima o desejo das massas devido à sua natureza mimética, ou, poderia-se dizer, memética.[23] Os "melhores investidores" são aqueles que se distanciam do mimetismo. Certamente, a lógica capitalista prospera com base no desejo; ela precisa dele e, em grande medida, vampiriza a proliferação de novos desejos. Quem gerencia o desejo mimético não deseja nada além do seu próprio desejo (eles são os únicos fora do ciclo, os únicos que enxergam o mecanismo sem estarem presos a ele). Essa é a posição ambígua do sacerdote sacrificial nos mitos que Girard analisou: sacerdotes e reis são frequentemente os sacrificadores; eles, assim como os bodes expiatórios, são aqueles que se destacam da massa. Nesse sentido, os girardianos sombrios buscam ocultar essa ambiguidade e se apresentar a si mesmos unicamente como portadores da paz.
Nesse texto, busquei pensar sobre as lógicas que operam por detrás das atuais máquinas pensantes, e proponho uma nova taxonomia: a máquina girardiana. Se aceitarmos a ideia de Hui sobre tecnodiversidade, então é possível conceber muitas outras máquinas.
[1] Filósofo e vive no Japão. Trabalha com temas relacionadas à filosofia japonesa, filosofia da tecnologia e à filosofia transcultural. Publicou livros como Phänomenologie der Angst (2022) e Myth and Ideology (2023). Originalmente publicado em inglês, disponível em: 421.news. 05.06.2026.
[2] Professor da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Universidade Federal do Pará (UFPA, Brasil, região amazônica). Autor de Ciência do Direito e Hermenêutica (2016) e Seis ensaios sobre Agamben (2020). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
[3] No original a palavra é framework, e a traduzi como "esquema", e não estrutura, para se referir ao léxico da tradução para o português da filosofia kantiana, próxima à ideia de "esquema transcendental" ou do termo neokantiano "esquema de interpretação".
[4] No original é mechanism, mas devido à oposição tensionada ao termo organicism, e porque o termo mechanism significa "mecanismo" em português, no sentido de "máquina" simplesmente, e não no sentido de tipologia tensionada com o termo em português "organicismo", optei por traduzir mechanism como "mecanicismo", resguardando o paralelo entre os sufixos "-nicismo". NT.
[5] Grifos em negrito originalmente feito pelo autor. NT.
[6] O termo se refere ao teorema de Bayes, no campo da probabilística. NT.
[7] Input.
[8] Loop.
[9] Linked.
[10] Schmitt foi um importante e famoso jurista católico alemão do século XX, autor de Teologia política (1922) e de O nómos da Terra (1950). Foi filiado ao partido nazista nos anos de 1930, mas, depois, sofrendo perseguição do próprio partido, desfiliou-se. Antes disso, ficou conhecido pelo debate com o jurista neokantiano judeu Hans Kelsen, além de ter elaborado uma teoria do estado de exceção, recepcionada nos anos 1990 pelo filósofo italiano Giorgio Agamben e, mais recentemente, "redescoberto" entre os constitucionalistas dos EUA durante o primeiro Governo Trump. NT.
[11] Megamachine.
[12. Essa ideia paradoxal, da exceção que se tornou regra, encontra-se nas famosas Teses sobre conceito de história (1940) de Walter Benjamin, mas também do livro Iustitium: Estado de exceção (2003), de Giorgio Agamben.
[13] Grifo meu. NT.
[14] Girard foi um dos grandes antropólogos culturais do século XX. Autor de Mentira romântica e verdade romanesca (1961) e de A violência e o sagrado (1972). Girard ficou mais conhecido pelos seus estudos sobre a literatura europeia, por meio da qual desenvolveu o conceito de "rivalidade mimética", tema do qual passou a estudar sobre o fenômeno do "bode expiatório". Seus estudos foram recepcionados pelos debates literários, antropológicos, sobre o "sacrifício", e sobretudo teológicos. Mais recentemente, Peter Thiel, um de seus alunos nos EUA, ficou conhecido pela sua influência empresarial e financeira nas big techs, mas também pela acusação de se utilizar da teoria girardiana de que nosso desejo é sempre uma imitação do desejo alheio, do nosso possível e eventual "rival mimético", para lidar com redes sociais como Facebook. NT.
[15] Metamachines.
[16] Clickbait é uma expressão para táticas de polemização na internet sobre temas muitas vezes falsos ou exagerados apenas com o intuito de atrair atenção, cliques.
[17] Trolley problem pode ser traduzido por "dilema do trem" ou "do bonde". Trata-se de um desafio ético elaborado por Philippa Foot para se pensar filosoficamente o problema moral acerca de um veículo sobre trilhos, o qual pode atropelar uma pessoa, numa via, ou mais de uma, em outra. Aqui se pode discutir questões próprias à concepção de bem para o utilitarismo ("maximização do prazer, minimização da dor, e para o maior número de pessoas"), de um lado, e às questões deontológicas de uma ética não consequencialista, de outro. NT.
[18] Anthropic é uma empresa de inteligência artificial dos EUA, responsável pela IA Claude.
[19] Dark Girardianism pode ser traduzido como "Girardianismo obscuro" ou "sombrio". Aqui optei por "sombrio", mas talvez possa ser melhormente traduzido como "obscuro" porque se relaciona com um tipo de pensamento obscurantista. Mas muitas traduções optam por "sombrio" quando se referem, por exemplo, ao livro de Nick Land Dark Enlightenment (2012). Assim, tentei manter a moda tradutora para fins pragmáticos. NT.
[20] Real politics no sentido de realismo político, de como as coisas se dão nas dinâmicas políticas, sem normatividade ou idealismo. NT.
[21] No texto original a palavra é apparatus, mas em vez de traduzi-la simplesmente pela sua palavra imediatamente correspondente em português "aparato", que funcionaria bem, decidi traduzi-la, contudo, por "dispositivo". Aqui a palavra pode se referir a uma certa "tradição" filosófica que se remete ao pensamento de Martin Heidegger quanto ao termo em alemão Gestell, o qual pode ser traduzido como "armação", "estrutura", relacionando-se com seus textos sobre techné, tecnologia. Mas também me amparo nesta minha escolha hermenêutica no modo como Agamben traduziu Gestell e o relacionou com o que Michel Foucault chamou de dispositif, ou, então, "dispositivo", na sua famosa entrevista publicada em Microfísica do poder (1978). Na sua conferência ministrada no Brasil, em 2005, de nome O que é um dispositivo?, Agamben chega a realizar uma genealogia etimológica do termo "dispositivo". Ele teria encontrado um passado filológico nos textos medievais sobre a tarefa de Jesus, como um elemento da Trindade, no tempo salvífico do Gênesis ao Apocalipse de João. Agamben defendeu que a palavra latina dispositio seria a tradução da palavra grega oikonomía, relacionando, então, a administração (economia) trinitária da vida na Terra com a noção de dispositivo enquanto aparato tecnológico, mas também econômico, no sentido de captura e gestão da vida terrena, sacralizando-a. Ademais, a edição para o inglês dessa conferência de Agamben traduziu "dispositivo" para apparatus. NT.
[22] Termo do mundo do mercado financeiro para aqueles investidores que aplicam em ações em baixa, contrariando o comportamento da maioria dos players, mas que acabam lucrando quando estas ações retomam força. NT.
[23] O termo se refere aos "memes" de internet, de redes sociais. NT.