Peter Thiel em Roma: "marketing político disfarçado". Entrevista com Alessandro Mulieri

Peter Thiel | Foto: Gage Skidmore/Flickr

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19 Março 2026

 "Perseguido" pelas ruas do centro por aqueles que tentam saber de "aulas" e ter uma ideia de quem participa delas, Peter Thiel parece estar seguindo, na capital, uma estratégia publicitária centrada inteiramente no mistério. Mas a lista de participantes de sua primeira palestra — domingo no Palazzo Taverna — é bem pouco impressionante. Nenhum grande nome da Cúria ou da política presentes, embora seja preocupante a presença de vários estudantes do Angelicum. Conversamos sobre sua visita a Roma com Alessandro Mulieri, diretor de pesquisa do CNRS na França, professor de filosofia política no Sciences Po e autor de Tecno monarchi – Gli ideologi della nuova destra all’attacco della democrazia (Tecno-monarcas – Os ideólogos da nova direita ao ataque da democracia, Donzelli editore).

A entrevista é de Giovanna Branca, publicada por il manifesto, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Qual a sua impressão da visita de Thiel a Roma até agora?

Que com essa turnê europeia, esteja tentando se firmar como "intelectual" do Vale do Silício, que, aliás, é a imagem de si mesmo que desde o início tentou criar. Isso lhe permite, infelizmente de maneira bastante eficaz até o momento, evitar falar dos verdadeiros problemas de que trata: a começar pelo papel da Palantir na guerra no Irã, ou nas deportações do ICE. Deixa-me indignado que Thiel seja convidado para falar sobre esses temas — anticristo, apocalipse — e que seja recebido por associações, acadêmicos, grupos de pseudo-intelectuais e outros — esteve na Academia Francesa, onde há verdadeiros catedráticos franceses. Ele fala sobre temas sobre os quais possui um conhecimento duvidoso, superficial. Em vez daqueles em que tem verdadeira expertise, porque contribui para criá-los.

A ideia da Palantir, por exemplo — embora ainda não tinha esse nome — foi anunciada já em seu ensaio de 2007, "O momento straussiano", como a única alternativa real para a inteligência após o 11 de setembro. Desde o início, sua estratégia tem sido jogar em dois campos: o culto, que deveria projetar suas ideias para o mundo no papel de pseudo-intelectual do Vale do Silício. E o verdadeiro, como empreendedor de tecnologia e capitalista de risco, que explora o campo culto para criar uma narrativa. Uma estratégia que parece ser sustentada também pela jogada publicitária dos convites secretos, das pistas falsas, das palestras misteriosas. É uma grande operação de marketing.

E, ao longo dos anos, Thiel conseguiu cobrir até mesmo o marketing com uma roupagem filosófica. Um dos heróis de seu panteão é Leo Strauss. De quem retoma a ideia dos segredos, ou seja, do fato de existirem formas de conhecimento que só podem ser disponibilizadas para um pequeno círculo de iniciados. Uma ideia que Strauss considera extremamente complexa, com uma profundidade filosófica, e que Thiel retoma de forma superficial, simplificando-a e transformando-a em uma estratégia de marketing político na qual se apresenta como o intelectual que consegue desvendar verdades filosóficas, criando círculos de iniciados sempre prontos para ouvi-lo. E jogando com a ambiguidade entre o círculo de iniciados-intelectuais ou supostos intelectuais, fascinados pela teologia política do apocalipse — e aquele das startups.

Em seu livro, você explica como Thiel e outras figuras do Vale do Silício, como Curtis Yarvin, postulam um retorno a categorias políticas e científicas pré-modernas, um elemento presente no comunicado da associação Gioberti, que coorganiza a visita do CEO da Palantir. O que pensa disso?

Por um lado, o conúbio entre saudosismo pelo pré-moderno e celebração do hipermoderno é útil para interpretar o que está acontecendo, as ideias da nova direita. As implicações que a aceleração tecnológica — que começa no Vale do Silício — pode ter para uma política que a modernidade esqueceu: um retorno à hierarquia "natural”, ditadura do QI, a ideia de que existem grandes patrões, o racismo científico.

Em uma conferência de que participei recentemente, um especialista em inteligência artificial contava sobre alguns aspectos dessa tecnologia utilizando as categorias da teologia. Por exemplo, o desaparecimento da autoralidade individual — que com a IA é uma mistura de ser humano e máquina — temas que se encontram na teologia escolástica e medieval. Assim, por um lado, esse conúbio ajuda a dar um sentido ao que está acontecendo. Mas o retorno da nova direita ao pré-moderno é, na realidade, uma leitura condicionada por motivos completamente diferentes — uma leitura seletiva de tudo o que existia antes da modernidade política, usada para defender uma ideia muito simples: a democracia não tem mais sentido, acabou, foi um erro político e, portanto, devemos retornar a uma estrutura de poder hierárquica, autoritária e antidemocrática. O saudosismo pelo pré-moderno é simplesmente um pretexto para não dar nome ao fato de que uma nova forma de fascismo hipertecnológico está sendo implementada.

Entre essas categorias, você escreve em seu livro "Tecno monarchi", está também aquela aristotélica da escravidão natural.

Curtis Yarvin defende que se trata de uma "ideia interessante" desde seus primeiros blogs dos anos 2000. A continuidade entre a escravidão natural de Aristóteles e o racismo moderno reside no fato de que se tomam algumas diferenças artificiais entre seres humanos e se passa a apresentá-las como essenciais, naturais. Blindando, legitimando a desigualdade. No passado, se utilizava a metafísica e a ontologia. Hoje, muda a roupagem, mas a história continua essencialmente a mesma.

Um pilar contraintuitivo do "pensamento" de Thiel, também central em suas palestras, é que vivemos em uma época de estagnação tecnológica. Isso "revela" o verdadeiro propósito de suas dissertações pseudofilosóficas?

Se forem lidas as poucas coisas que ele escreveu — porque, no fim das contas, a Thiel-sofia se baseia principalmente em entrevistas — sobre a ideia de aceleração tecnológica e estagnação, Thiel afirma tudo e o contrário de tudo. Em um caso, ele admitiu que a IA e a internet parecem sugerir que, na verdade, não estamos tão "estagnados". Mas o problema seria que não estamos nos níveis de aceleração da revolução industrial, da qual deriva a ideia de estagnação. Não creio que isso deva ser visto como um conceito teológico ou filosófico, mas simplesmente como uma ideia de negócios a serviço da Palantir e de suas atividades de empreendedor tech. A "preocupação" com a estagnação serve para argumentar que o Estado não deve pôr nenhum tipo de freio. É ideologia no sentido marxista do termo — uma inversão da realidade para promover uma determinada filosofia de negócios, de suas empresas, de suas atividades.

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