07 Julho 2026
"Leão pastoreia uma Igreja que enterrou seus mártires sob imperadores que exigiam que ela escolhesse lados, e essa Igreja sobreviveu a todos eles. A risada vai se apagar até o outono, e a Magnifica Humanitas ainda estará ensinando muito depois que as pedras-videntes do Vale do Silício tiverem se apagado."
O artigo é de Christopher Hale, jornalista, publicado por Letters from Leo, 03-07-2026.
Eis o artigo.
Peter Thiel se levantou diante do Aspen Ideas Festival na terça-feira e disse à plateia que o Papa Leão XIV está "trabalhando para os comunistas chineses".
A plateia riu, mas Thiel falava sério.
A CNN divulgou as declarações na quinta-feira, feitas num painel não gravado no Colorado, no qual Thiel apareceu ao lado do cientista político Francis Fukuyama, e no qual os jornalistas puderam apenas tomar notas.
A lógica por trás da acusação passa pelas próprias palavras do papa. Em maio, Leão publicou a Magnifica Humanitas, sua primeira encíclica, um documento de 40 mil palavras que declara que a inteligência artificial "deve ser desarmada" e pede uma supervisão internacional mais forte sobre a tecnologia.
Como os norte-americanos poderiam de fato ouvir esse ensinamento enquanto o Partido Comunista Chinês o ignora, argumentou Thiel, a encíclica ameaça desacelerar exatamente um dos lados da corrida de IA entre Washington e Pequim. Um papa que pede a seu rebanho que pense antes de construir se torna, por essa aritmética, um ativo de um adversário estrangeiro.
O Vaticano não respondeu ao pedido de comentário da CNN. Os leitores desta comunidade conhecem o arco mais longo da história.
Em novembro passado, escrevi sobre o áudio vazado de uma série de palestras privadas de Thiel em São Francisco, nas quais ele sugeriu que o próprio Leão poderia ser uma manifestação do Anticristo — e revelei que ele instou o vice-presidente JD Vance a ignorar a orientação moral do papa.
Em março, Thiel havia levado suas palestras sobre o Anticristo a Roma, promovendo eventos por convite a poucos quarteirões da Santa Sé. As palestras deixaram o Vaticano incomodado e levaram duas universidades católicas a declarar publicamente que não tiveram qualquer papel em sediá-las.
A própria encíclica chegou no Memorial Day trazendo uma citação de O Senhor dos Anéis — uma escolha literária que escritores dos Estados Unidos à Itália leram como mirando diretamente Thiel, enquanto o Catholic Herald, no Reino Unido, perguntou se a encíclica inteira teria como alvo o seu império. Dias depois, o New York Times encontrou o bilionário instalado numa mansão de 12 milhões de dólares em Buenos Aires, direcionando mais uma vez a conversa do jantar para o Anticristo.
JD Vance está no centro dessa colisão, quer ele reconheça isso ou não. Em Communion: Finding My Way Back to Faith, livro de memórias publicado por ele no mês passado, o vice-presidente atribui parte de sua conversão católica a uma palestra que Thiel deu em 2011 na Faculdade de Direito de Yale.
"Possivelmente a pessoa mais inteligente que já conheci, ele se identificava abertamente como cristão", escreve Vance sobre o mentor que mais tarde o recrutou para o capital de risco e gastou 15 milhões de dólares para colocá-lo no Senado.
Thiel semeou a fé católica do vice-presidente, e agora diz a plateias abastadas de festivais que o líder dessa fé trabalha para um governo comunista.
Vance ultimamente tem oferecido sua própria instrução a Roma. Na mesma terça-feira em que Thiel falava no Colorado, o vice-presidente foi à Fox News e disse a Laura Ingraham que as posições do Vaticano sobre imigração são "preocupantes" — e que espera que a liderança católica tenha aprendido com o governo Trump.
O papa ocupou apenas uma posição numa lista mais longa de inimigos que Thiel descreveu no Colorado. Ele afirmou, sem apresentar provas, que a Anthropic — "uma empresa liberal woke" a quem atribui o mérito de "vencer a corrida de IA" — iria "fraudar as eleições de 2028" em favor dos democratas.
As palestras de São Francisco já haviam incluído reguladores, ambientalistas e Greta Thunberg entre o que Thiel chama de "legionários do Anticristo". Qualquer um que faça uma pergunta moral à sua indústria acaba, em sua narrativa, trabalhando para algo sinistro.
Thiel dedicou outro trecho do painel a defender o nome de sua empresa de vigilância, que tirou dos palantíri, as pedras-videntes de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.
"No fim, ela acaba sendo usada pelos mocinhos", disse Thiel sobre a pedra-vidente. "Quem contar uma história diferente sobre Tolkien", acrescentou, "nem sequer sabe do que está falando no plano literário".
O mocinho em questão é Aragorn, e a cena desmonta a defesa de Thiel. Como argumentou John Grosso no site Where Peter Is — uma leitura que percorri em maio —, Aragorn prevalece com a pedra ao se render por meio dela: ele se revela deliberadamente a Sauron, desviando o olhar do inimigo de Frodo para que alguém menor e mais fraco possa terminar a tarefa. A pedra recompensa o sacrifício e destrói todos os que se estendem para controlá-la.
A encíclica que Thiel agora rotula de propaganda chinesa cita o discurso de Gandalf aos capitães do Ocidente, justamente no conselho em que essa estratégia é proposta: "Não é nossa tarefa dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance pelo socorro daqueles anos em que nos foi dado viver".
Colocando as duas teologias lado a lado, o argumento se resolve sozinho. Thiel adverte que o Anticristo chegará como um governo mundial único, prometendo proteger a humanidade de ameaças existenciais como a inteligência artificial. Nenhum governo mundial se materializou. Seu software, entretanto, já move o motor de dados do programa de deportação em massa do governo Trump, parte de bilhões de dólares em contratos federais da Palantir.
O ensinamento de Leão caminha na direção oposta. A pessoa humana carrega uma dignidade que nenhuma máquina pode anular, e as tecnologias dos poderosos devem prestar contas às pessoas que vigiam, classificam e deportam.
O papa escolheu seu nome pensando em máquinas. Dias após sua eleição, disse ao Colégio de Cardeais que Leão XIII havia respondido à primeira revolução industrial com a Rerum Novarum, e que a Igreja hoje enfrenta outra revolução industrial, a da inteligência artificial, com novas ameaças à dignidade humana, à justiça e ao trabalho.
A Igreja vem perguntando a quem a máquina serve desde 1891, e nenhuma versão de sua resposta jamais nomeou um governo ou uma fortuna.
Nesta semana, uma sala cheia de americanos ricos riu enquanto um bilionário acusava o sucessor de Pedro de servir a um Estado comunista. A risada merece atenção, porque mede o que o dinheiro aprendeu que pode dizer sem consequências.
Leão pastoreia uma Igreja que enterrou seus mártires sob imperadores que exigiam que ela escolhesse lados, e essa Igreja sobreviveu a todos eles. A risada vai se apagar até o outono, e a Magnifica Humanitas ainda estará ensinando muito depois que as pedras-videntes do Vale do Silício tiverem se apagado.
Em Letters from Leo, estamos ao lado do Papa Leão XIV e dos milhões de católicos americanos — e de tantos outros de boa vontade — que acreditam que a dignidade humana não é uma moeda de troca numa corrida armamentista, e que uma Igreja que faz perguntas difíceis a máquinas poderosas está fazendo exatamente o que o Evangelho exige dela.
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