Vance a Leão XIV: espero que o senhor tenha aprendido algo com Trump sobre imigração. Artigo de Artigo de Christopher Hale

Foto: Flirck CC

Mais Lidos

  • Bispos lefebvrianos: do cisma à heresia? Artigo de Lorenzo Prezzi

    LER MAIS
  • Lefebvrianos, a Santa Sé formaliza o cisma: "As portas se abrem para os fiéis que não aderirem"

    LER MAIS
  •  “Dos 38 bilhões gastos com impactos negativos gerados pelas bets, 30 bilhões são associados à saúde mental. Esse valor diz respeito ao uso de drogas, alcoolismo, depressão, ansiedade e suicídio”, informa a pesquisadora

    Custo social das bets é quase 4 vezes a arrecadação fiscal. Entrevista especial com Tiago Braga e Dayana Rosa

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

03 Julho 2026

No Quatro de Julho, enquanto o governo que JD Vance serve se celebra, o Papa Leão estará em Lampedusa, ilha mediterrânea onde Francisco fez a primeira viagem de seu pontificado e onde milhares de migrantes se afogaram à vista da Europa. "Chega de intimidação", disse Leão enquanto se preparava para a viagem. Os intimidadores dispensaram apresentações.

O artigo é de Christopher Hale, jornalista, publicado por Letters from Leo, 01-07-2026.

Eis o artigo. 

JD Vance apareceu no programa The Ingraham Angle da Fox News na terça-feira à noite e disse à apresentadora Laura Ingraham que as posições do Vaticano sobre imigração são "preocupantes".

"Acho que algumas das coisas que saíram do Vaticano sobre a questão da imigração em particular têm sido preocupantes, e em última análise discordo delas", disse o vice-presidente. Ele também teve conselhos para quem comanda a Igreja: "O que eu esperaria que a liderança católica tivesse aprendido com algumas das coisas que eu, Marco e o presidente dissemos sobre imigração é que não se trata apenas da dignidade do imigrante", disse Vance, referindo-se ao secretário de Estado Marco Rubio. "Trata-se também da dignidade do trabalhador de fábrica nascido aqui, cujos salários foram destruídos."

Um vice-presidente católico espera que o papa tenha aprendido algo sobre migrantes com Donald Trump. Releia essa frase. A aparição foi uma parada na turnê de divulgação de Communion: Finding My Way Back to Faith, a memória espiritual que Vance publicou em 16 de junho. A mesma turnê o levou ao podcast de Michael Knowles, onde chamou os cartazes com o slogan "nenhuma pessoa é ilegal" de "uma repugnante adulteração do Credo Niceno".

O histórico de dezoito meses

O vice-presidente passou um ano e meio dizendo à Igreja Católica o que ela deveria acreditar sobre o estrangeiro. O registro merece ser apresentado por completo. Em janeiro de 2025, dias após o início do segundo governo Trump, Vance foi à Fox News e invocou a ordo amoris — a ordenação teológica do amor — para defender a campanha de deportações em massa da Casa Branca. Você ama sua família primeiro, explicou, depois seu vizinho, depois sua comunidade, depois seus concidadãos e só depois de tudo isso o resto do mundo.

Roma respondeu duas vezes. Em 3 de fevereiro de 2025, um cardeal nascido em Chicago chamado Robert Prevost compartilhou no X uma manchete que dizia: "JD Vance está errado: Jesus não nos pede para hierarquizar nosso amor pelos outros." Dias depois, o Papa Francisco escreveu uma carta aos bispos americanos que rejeitou categoricamente a teologia de Vance. O amor cristão, escreveu ele, "não é uma expansão concêntrica de interesses", e a verdadeira ordo amoris é a que Jesus ensina na parábola do Bom Samaritano. E, como Hale reportou primeiro, detalhe posteriormente confirmado por Christopher Lamb, da CNN, o cardeal que ajudou Francisco a redigir aquela carta foi Robert Prevost.

Vance disse ter ficado surpreso com a resistência. Dois meses depois, encontrou-se com o Papa Francisco numa breve troca no Domingo de Páscoa na Casa Santa Marta; Francisco morreu na manhã seguinte, tornando Vance o último líder estrangeiro a vê-lo com vida. Em 8 de maio de 2025, o cardeal que havia corrigido a teologia de Vance no X caminhou até a loggia da Basílica de São Pedro como Papa Leão XIV.

Onze dias depois, Vance voou a Roma para a Missa inaugural e se encontrou com Leão em 19 de maio, entregando pessoalmente uma carta de Trump convidando o papa para a Casa Branca. Leão a colocou em sua mesa e disse: "Em algum momento." Em setembro, Leão chamou o tratamento dos imigrantes pelo governo de "desumano". Dois meses depois, após encorajar os bispos americanos a emitir uma mensagem especial sobre imigração, disse que os migrantes estavam sendo tratados "de uma maneira extremamente desrespeitosa, para dizer o mínimo".

Em abril, após Leão advertir que uma "ilusão de onipotência" estava por trás da guerra americana ao Irã, Trump respondeu com semanas de ataques públicos. Durante esse período, Vance disse duas vezes ao papa para ficar em sua raia: o Vaticano, disse, deveria "se ater a questões de moralidade" e deixar o presidente dos Estados Unidos "ditar a política pública americana". Na mesma semana, disse a uma audiência na Geórgia que o papa deveria "ter cuidado" ao falar sobre teologia, e o comitê doutrinário dos bispos americanos o repreendeu por isso. Quando bombas americanas voltaram a cair sobre o Irã em junho, Leão declarou que nenhuma guerra é abençoada por Deus.

A ligação telefônica e a freira detida

O que se sabe sobre o alegado contato entre os dois: em meados de junho, durante a mesma turnê de lançamento de livro, Vance concedeu uma entrevista ao jornalista Ross Douthat do New York Times, que lhe perguntou diretamente se havia falado com o papa nos últimos meses. Vance fez um desvio com elogios ao "respeito pelo Santo Padre" até Douthat pressioná-lo. "Falei com o papa nos últimos meses? Sim", respondeu Vance, descrevendo o que chamou de um "relacionamento positivo" com Leão. Ninguém no Vaticano pôde confirmar essa conversa a Hale. Duas fontes com conhecimento íntimo das relações diplomáticas da Santa Sé disseram ser céticas quanto à ocorrência da conversa. Em Roma, o autor desta coluna colocou a questão ao Cardeal Michael Czerny, jesuíta que desde 2022 liderou o escritório vaticano para migrantes e refugiados. Ele disse não ter conhecimento de nenhuma conversa entre os dois homens.

Dois dias antes de sua aparição na Fox, agentes do ICE detiveram uma freira a caminho da Missa dominical em McAllen, Texas. A Irmã Leticia Ugboaja, de 56 anos, enfermeira registrada, membro das Filhas de Maria Mãe da Misericórdia, vestida com seu hábito — foi levada sob custódia a caminho da Igreja Nossa Senhora das Dores e liberada somente após intervenção de membros do Congresso. Hale perguntou ao gabinete do vice-presidente sobre a detenção da Irmã Letícia. Até o momento, não houve resposta.

Mateus 25 e Lampedusa

O ensinamento que Vance considera "preocupante" não foi inventado num escritório de imprensa do Vaticano. Cristo diz a seus discípulos em Mateus 25 que as nações serão julgadas por seu tratamento ao estrangeiro: "Eu era um estranho e vós me acolhestes." Em 1952, Pio XII abriu a Exsul Familia destacando a Sagrada Família — fugindo de Herodes ao Egito — como arquétipo de toda família refugiada. Dois papas aplicaram diretamente essa tradição às próprias palavras de Vance, e ambos chegaram ao mesmo veredicto.

Vance ingressou na Igreja em 2019, recebido privadamente sob a orientação de padres dominicanos conservadores e inspirado em parte pela estranha religiosidade de Peter Thiel. Sete anos depois, quer que o magistério aprenda com Donald Trump, Marco Rubio e ele próprio. O plano de aula é pesado em economia salarial e pula inteiramente o vigésimo quinto capítulo de Mateus.

No Quatro de Julho, enquanto o governo que Vance serve se celebra, o Papa Leão estará em Lampedusa, a ilha mediterrânea onde Francisco fez a primeira viagem de seu pontificado e onde milhares de migrantes se afogaram à vista da Europa. "Chega de intimidação", disse Leão enquanto se preparava para a viagem. Os intimidadores dispensaram apresentações.

Leia mais