13 Junho 2026
“O jogo que realmente estamos jogando vai muito além do futebol. E nesse jogo, a comunidade, a dignidade e nossa humanidade compartilhada jamais poderão vencer de verdade se a humilhação continuar fazendo parte das regras”. A reflexão é de David Andersson, em artigo publicado por Pressenza, 11-06-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Os eventos esportivos internacionais são frequentemente apresentados como celebrações da nossa humanidade compartilhada. Seu objetivo é transcender as fronteiras, a política, a religião e os conflitos. Durante algumas semanas, o mundo se une em torno de uma linguagem comum – a linguagem do jogo – onde talento, esforço e trabalho em equipe supostamente importam mais do que a nacionalidade, a riqueza ou o poder.
No entanto, às vezes esses eventos revelam mais sobre quem somos do que os valores que alegam representar.
Os incidentes que cercaram a abertura da Copa do Mundo FIFA de 2026 – jogadores detidos em aeroportos, árbitros e delegações inteiras com vistos negados, torcedores impedidos de entrar apesar de terem autorizações de viagem válidas – certamente podem ser interpretados como falhas administrativas, medidas de segurança necessárias ou exceções lamentáveis. Mas, em conjunto, levantam uma questão mais profunda: que pressupostos culturais fazem com que certas formas de tratamento desigual pareçam normais, necessárias ou aceitáveis?
Durante a pandemia de Covid-19, publiquei The White-West: A Look in the Mirror (O Ocidente branco. Um olhar no espelho), uma coletânea de ensaios originalmente publicados em Pressenza. Nesses textos, argumentei que muitas das tensões tipicamente explicadas pela política ou pela economia têm suas raízes em algo mais profundo: uma formação histórica e cultural que segue moldando a forma como o Ocidente se compreende e se relaciona com os outros.
Denominei essa formação de “Ocidente branco”, não como uma categoria racial ou um julgamento moral sobre indivíduos, mas como uma paisagem cultural e histórica moldada por séculos de imperialismo, expansão colonial, hierarquias de civilização e a convicção de que certas instituições possuem a autoridade para definir os termos em que outros participam do mundo.
Dessa perspectiva, a Copa do Mundo não é simplesmente um evento esportivo marcado por incidentes infelizes. Ela se torna um espelho.
Em janeiro de 2026, à medida que as preocupações em torno do torneio aumentavam, defendi que o diálogo com a FIFA – e não um simples boicote – poderia redefinir o papel do esporte global. Em vez de esperar que as crises eclodissem, a FIFA tinha a oportunidade de iniciar conversas difíceis, porém necessárias, sobre dignidade, participação equitativa e as responsabilidades éticas que acompanham o privilégio de sediar um evento global. O adiamento, arranjos alternativos ou consultas mais amplas não eram expressões de hostilidade ao futebol. Eram convites à reflexão.
Na mesma época sugeri que a FIFA renunciasse voluntariamente ao conforto simbólico do seu Prêmio da Paz, não como um ato de autocondenação, mas como um convite à humildade. A paz não é um título que se tem. É uma prática a ser continuamente conquistada por meio da defesa da dignidade, da inclusão e da participação equitativa.
A intenção nunca foi envergonhar uma instituição. A questão era se o mundo do esporte estava disposto a viver de acordo com os padrões éticos que tantas vezes proclama.
Essas propostas, e outras semelhantes apresentadas por indivíduos preocupados em todo o mundo, foram ignoradas. Antes mesmo do apito inicial, surgiram relatos de atletas, árbitros, dirigentes e torcedores que enfrentavam obstáculos que muitos consideraram discriminatórios, arbitrários e humilhantes.
Entre os incidentes relatados, destacam-se:
• O visto do jogador suíço Breel Embolo foi submetido a revisão, atrasando sua chegada e impedindo-o de se juntar à sua equipe como planejado.
• O jogador da seleção iraquiana, Aymen Hussein, segundo informações, teria sido detido para interrogatório ao entrar nos Estados Unidos, procedimento que durou quase sete horas.
• A seleção iraniana passou dias tramitando os vistos no consulado dos EUA na Turquia. Segundo relatos, a entrada no país só foi permitida nos dias de jogos, e 15 membros da delegação tiveram seus vistos negados.
• Omar Abdulkadir Artan, eleito Árbitro Africano do Ano de 2025 pela CAF, teve seu visto negado e foi deportado, apesar de viajar com passaporte diplomático. A FIFA anunciou posteriormente que ele não seria árbitro no torneio.
• A seleção sul-africana chegou mais tarde do que o esperado porque alguns membros de sua delegação tiveram seus vistos negados.
• Segundo relatos, membros da comissão técnica da seleção senegalesa foram obrigados a tirar os sapatos e submetidos a longas revistas, o que gerou acusações de discriminação racial.
• A seleção uzbeque foi revistada por cães farejadores de explosivos, e imagens do incidente circularam amplamente na mídia internacional.
• Alguns torcedores escoceses, apesar de atenderem aos requisitos para viajar sem visto pelo programa ESTA [Sistema Eletrônico para Autorização de Viagem], tiveram suas autorizações revogadas pouco antes do embarque.
• Numerosos torcedores que já haviam comprado ingressos e reservado hospedagem tiveram seus pedidos de visto negados, resultando em perdas financeiras significativas.
Cada um desses incidentes pode ser explicado individualmente. No entanto, em conjunto, revelam um padrão reconhecível.
Algumas pessoas viajam pelo mundo com confiança, enquanto outras o fazem com suspeita. Algumas veem as fronteiras como formalidades rotineiras, enquanto outras as encaram como espaços de incerteza, humilhação e poder arbitrário. Algumas carregam passaportes que lhes abrem portas quase automaticamente; outras descobrem que sua dignidade é condicional, dependente de decisões tomadas sem explicação e sem possibilidade de recurso.
A questão não é se os Estados têm o direito de proteger suas fronteiras. Toda sociedade deve abordar as preocupações legítimas relativas à soberania e à segurança pública. A questão mais profunda é cultural: que formas de dignidade decidimos ser negociáveis? Quem é considerado aceitável para sofrer inconvenientes? Em que momento o exercício da autoridade se torna a normalização da humilhação?
É aqui que o debate se relaciona com a violência doméstica.
A violência doméstica é frequentemente entendida como uma tragédia privada confinada ao lar. No entanto, a sua característica definidora não é meramente a agressão física. Trata-se de um padrão de comportamento através do qual o poder e o controle são repetidamente utilizados para minar a autonomia, a dignidade, a segurança e a liberdade de outra pessoa. Pode envolver intimidação, pressão psicológica, isolamento social, dependência econômica, vigilância, ameaças ou a erosão gradual do senso de identidade de outra pessoa.
Essas dinâmicas não surgem no vazio. Elas se desenvolvem em culturas que, sutil e explicitamente, ensinam que a dominação pode ser justificada, que relações desiguais são naturais e que aqueles que detêm autoridade podem impor indignidades em busca de um suposto bem maior.
Isso não significa que as restrições de visto sejam equivalentes à violência doméstica, nem que os agentes de imigração sejam abusadores. As relações são diferentes e as experiências não são as mesmas.
Mas a lógica cultural subjacente merece ser examinada.
Quando a humilhação repetida se torna normalizada, quando o controle é sistematicamente valorizado em detrimento da reciprocidade, quando a suspeita é direcionada desproporcionalmente a determinados grupos e quando se espera que aqueles submetidos a tratamento desigual o aceitem silenciosamente como o preço da participação, estamos testemunhando padrões que pertencem ao mesmo ecossistema mais amplo de dominação.
Talvez esta seja uma das lições mais difíceis do nosso tempo.
A violência não é apenas um evento. É também uma cultura.
Ela reside em hábitos de pensamento, em instituições, em pressupostos sobre quem é confiável e quem não é, quem tem o direito de decidir e quem deve se submeter. Ela se reproduz sempre que a dignidade se torna condicional e a humanidade é organizada em categorias de maior e menor valor.
Se essa lógica cultural pode moldar eventos internacionais destinados a celebrar nossa humanidade compartilhada, então não deveria ser surpresa que ela também apareça em nossos lares, locais de trabalho, escolas e comunidades.
O desafio, portanto, não é simplesmente condenar atos individuais de injustiça. Trata-se de examinar as estruturas culturais que tornam tais atos imagináveis e aceitáveis em primeiro lugar.
O esporte internacional oferece uma oportunidade única para praticar outra forma de convivência. Ele pode afirmar que a segurança não precisa exigir humilhação, que a diferença não precisa gerar suspeita e que a dignidade não é um privilégio concedido a alguns e negado a outros.
Se os padrões culturais que sustentam a violência são aprendidos, eles também podem ser desaprendidos.
Um espelho não acusa. Ele simplesmente reflete.
O espelho estava presente nas histórias que herdamos. Estava presente nos alertas emitidos antes do início do torneio. Estava presente no convite ao diálogo e no apelo para que as instituições alinhassem suas práticas aos valores que celebram.
A tragédia não é que o espelho existisse. A tragédia é que ele foi ignorado.
É possível que, em última análise, a Copa do Mundo da FIFA de 2026 seja lembrada não apenas pelo que aconteceu em campo, mas pelo que revelou fora dele: uma oportunidade para perguntar que tipo de cultura estamos reproduzindo – e que tipo de cultura desejamos construir.
Porque o jogo que realmente estamos jogando vai muito além do futebol.
E nesse jogo, a comunidade, a dignidade e nossa humanidade compartilhada jamais poderão vencer de verdade se a humilhação continuar fazendo parte das regras.
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