12 Junho 2026
O vencedor da Copa do Mundo de futebol será definido no campo, mas esta edição da competição já tem um título nada honroso a exibir: o de Mundial mais emissor de gases de efeito estufa da história do esporte. Disputada em três países, 16 cidades e com um recorde de 48 seleções, a Copa provocará um uso inédito de transporte aéreo pelas seleções e torcedores – sem falar do volume de dados para as transmissões dos jogos por streaming.
A reportagem é de Lúcia Müzell, publicada por RFI, 11-06-2026.
O alto volume de voos será inevitável não apenas para levar um recorde de 6 milhões de espectadores do mundo todo para os países-sede, Estados Unidos, México e Canadá, como para os deslocamentos internos até os locais das partidas. A distribuição dos jogos desconsiderou o balanço ambiental das distâncias – a maior delas é de mais de 4 mil quilômetros, entre o Estádio Azteca, na Cidade do México, e o BC Place, em Vancouver.
O resultado é que as emissões geradas pela Copa serão no mínimo o dobro da última edição, no Catar: 7,8 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes, avalia um estudo da plataforma internacional de contabilidade de carbono Greenly. Isso corresponde às emissões anuais de um país pobre como Serra Leoa ou de 1,7 milhão de carros a combustível.
"O que nos impressionou nesta Copa do Mundo é que ninguém falou sobre essa questão. É uma completa negligência, como se as mudanças climáticas não existissem", observa o CEO da plataforma, Alexis Normand.
Antes da Greenly, outros estudos já haviam alertado para um resultado ainda mais pesado, como o do New Weather Institute e a rede Sport for Climate Action, que antecipa um total de emissões de 9 milhões de toneladas de CO₂.
Distâncias maiores, por mais gente e mais tempo
A média da distância da viagem de ida e volta percorrida por cada torcedor nesta Copa será de 19,4 mil quilômetros, contra 13 mil no Catar em 2022. Para piorar, esta edição será 10 dias mais longa e terá nada menos do que o triplo de torcedores do que o último Mundial. As emissões dos transportes representarão, assim, 87% das emissões totais desta Copa, estima a Greenly.
A maioria das partidas vai ocorrer nos Estados Unidos de Donald Trump, um presidente negacionista climático que, em momento algum da organização do evento, se preocupou em diminuir a sua pegada de carbono. O que chamou a atenção foi o silêncio da Federação Internacional de Futebol (Fifa) sobre o tema, apesar de a entidade ter um objetivo de redução de 50% das emissões de seus eventos até 2030 e de atingir a neutralidade de carbono até 2040.
Papel da Fifa
A decisão de aumentar de 32 para 48 equipes participantes, assim como a de estabelecer uma parceria com a gigante petroleira saudita Aramco, não avançam neste esse sentido.
"Durante a Copa do Mundo do Catar, a Fifa fez algumas confusões porque, depois de prometer que o Mundial seria neutro em carbono, soubemos que ela 'esqueceu' de calcular as emissões indiretas relacionadas ao transporte de passageiros", lembra Normand. "Então, ela disse: 'Não é um problema, porque vamos comprar projetos de compensação de carbono, financiar florestas, etc.'. Só que os projetos em questão não foram verificados. Isso se tornou um problema de comunicação para eles, de modo que, agora, aparentemente, eles decidiram nem sequer tocar mais no assunto."
Desta vez, a federação reconhece o peso dos transportes no balanço ambiental do evento. No entanto, a Fifa alega que a decisão de espalhar as competições por estádios tão distantes foi para privilegiar as instalações e infraestruturas existentes, outro eixo relevante na pegada de carbono de um grande evento esportivo. Nenhum novo estádio precisou ser construído para o Mundial de 2026.
A entidade delega aos países organizadores a missão de reduzir as emissões relacionadas a transportes, energia, alimentação e gestão de resíduos, entre outros aspectos relevantes.
"A Fifa precisa assumir a responsabilidade por seu papel crescente na crise climática", afirma Stuart Parkinson, autor principal do relatório do New Weather Institute.
"A Copa do Mundo de 2026 está prevista para ser a mais poluente de todos os tempos, e espera-se que os torneios futuros continuem dependendo fortemente de viagens aéreas e outras atividades com alta emissão de carbono. À medida que a crise climática se agrava rapidamente, a única resposta sensata é a federação tomar medidas imediatas para reduzir significativamente as emissões dos torneios."
Próximas Copas
Daqui a quatro anos, o formato em que os jogos são divididos entre diferentes países voltará a acontecer, na Copa do Mundo em Portugal, Espanha e Marrocos. Alexis Normand assinala que será uma oportunidade de retomar o exemplo dos Jogos Olímpicos de Paris, que limitou o impacto ambiental a 2,08 milhões de toneladas de carbono, o mais baixo desde a Olimpíada de Londres de 2012.
Ele defende que os recursos investidos nas infraestruturas, especialmente no Marrocos, país em desenvolvimento, sejam direcionados à sustentabilidade, e que os critérios ambientais sejam uma condição para as licitações de obras.
"Estão previstos grandes investimentos, então por que não imaginar, como fez Paris, um Plano Marshall para investimento em infraestrutura de baixo carbono?", sugere o especialista francês. "Você pode aproveitar para renovar a rede ferroviária, modernizar as instalações esportivas e fazê-las consumir menos energia, conectá-las a fontes de energia renováveis e assim por diante. Dessa forma, minimiza-se o impacto de carbono do transporte e se constrói edifícios que serão menos poluentes."
Leia mais
- A Copa do Mundo que temos e a Copa do Mundo que deveríamos ter
- Copa do Mundo 2026: custo climático do torneio dobra em quatro anos
- Uma Copa do Mundo feita sob medida para o trumpismo. Artigo de Ricardo Uribarri
- Jornalista da BBC demolindo o presidente da FIFA: “Você está envergonhado com o que está acontecendo nesta Copa do Mundo?”- X-Tuitadas
- Copa 2026: FIFA poderia ter evitado deportação e constrangimento de seleções, diz advogada
- EUA alertam influenciadores estrangeiros antes da Copa do Mundo: é ilegal criar conteúdo com visto de turista
- Copa do Mundo começa com EUA tendo 2ª primavera mais quente em 132 anos
- A Copa do Mundo da contradição climática: a primeira com pausas obrigatórias para se proteger do calor, patrocinada pela maior empresa petrolífera do mundo
- Teólogo sobre o início da Copa do Mundo: o futebol está vendendo a sua alma
- Líderes religiosos alertam para o impacto da Copa do Mundo sobre migrantes e pessoas em situação de pobreza
- A Copa do Mundo de Trump já foi um fracasso: preços altos, torcedores preferem Canadá e México aos EUA
- Começa a Copa do Mundo mais quente de todos os tempos, encobrindo os petrodólares por trás das mudanças climáticas
- Multiculturalismo, nacionalidade e Copa do Mundo: uma reflexão a partir do racismo contra a Seleção Francesa de Futebol. Artigo de Christian Stähler Padilha
- Copa do Mundo. É necessário lembrar que “Somos membros uns dos outros” (Ef 4,25). Artigo de Amanda Oliveira
- Copa 2030: Marrocos é alvo de denúncia por suspeita de abate de 3 milhões de cães