20 Mai 2026
"Talvez devêssemos dedicar um pequeno pensamento às dezenas de gerações de lobos que choraram seus irmãos, seus pais, suas mães, seus filhos, mortos por nossas mãos na conquista de seu território. Falamos para nós mesmos: tudo bem, mas agora são demais, e é verdade, mas nós também somos demais, estamos em todos os lugares, os lobos ainda não", escreve Maurizio Maggiani, romancista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 18-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Um navio contaminado pela peste vagueia no oceano, nenhum porto quer vê-lo atracar em seus cais, e assim vagueia e vagueia, fica preso em calmarias mefíticas, é sacudido por ondas agitadas por tempestades violentas; ninguém já é mais capaz de governá-lo, uma a uma as vítimas morrem pela doença, aqueles que sobrevivem acabam morrendo de fome e sede. Até que tudo o que resta a bordo são enxames de ratos que se alimentam de seus cadáveres antes de se atirarem em massa ao mar. Depois, tudo o que resta é um destroço povoado por fantasmas, à deriva pela eternidade.
É uma lenda marítima aterradora que, há alguns séculos, acompanha o sempre incômodo sono de marinheiros de longa distância de todos os oceanos. E, de uma forma inverossímil, está sendo agora replicada nos noticiários com "o navio do hantavírus", o elegante e amaldiçoado navio de cruzeiro Hondius.
Naturalmente, o belo Hondius acabou por fim encontrando um porto e, naturalmente, os mortos foram apenas três, e os sobreviventes foram acolhidos em instalações adequadas e receberam tratamento cuidadoso; os ratos, que são abundantes mesmo em navios de luxo, desfrutam pacificamente da cozinha do navio, nenhum fantasma à vista. Mas, mesmo assim, a imagem daquele navio infestado pela peste está ali, peremptória, a epidemia que espreita em seu interior, temida como uma maldição à espera de se cumprir.
Os homens de ciência fazem seu sacrossanto trabalho, a mídia também, e, na maior parte das vezes, não é bem a mesma coisa, nem no estilo nem nos conteúdos; o público, nós, afinal, preferimos nos entregar às lendas em vez de confiar nas positivas inquietudes da ciência. Tentar colocar um pé no amanhã, corrompidos pela angústia, nos parece como uma obviedade com a qual contar; o tormento do medo é uma cura mais eficaz do que a vacina.
O medo, nosso companheiro mais fiel, o amante apaixonado que no abraço sabe trabalhar tão bem a porto de se exaltar em terror. História antiga, rosário de lendas: ratos, lobos, javalis, víboras, ursos. E os outros, todos os outros do outro lado da rua, do outro lado dos muros, da fronteira, do mar; os outros, que por sumo engano pareceriam humanos, mas na verdade não são nada mais do que animais pestilentos, iguaizinhos aos ratos, com um único objetivo: a invasão. Na minha experiência pessoal, gostaria de atualizar o bestiário dos invasores para incluir tordos e besouros dourados.
Vocês deveriam vir ver o espetáculo espectral da minha cerejeira; de seus ramos, não pende mais uma única cereja, mas milhares e milhares de talos, firmemente presos a um caroço, magistralmente limpo de sua polpa. Os tordos. Tentei de tudo para chegar a um acordo, até o ponto da magnanimidade, vamos fazer meio a meio: vocês ficam com os galhos mais altos, já que podem voar e bicar, e os mais baixos ficam para mim, que só tenho minhas mãos e uma escadinha de três degraus. Não há conversa, não querem acordos, apenas levar tudo; tentei em vão fazê-los entender colocando nos galhos assustadoras corujas fajutas, porém muito realistas, e pendurei tiras de espelhinhos e bugigangas afins.
Ainda há uma árvore de cerejas de maturação tardia, agora tão verdes que são intragáveis até para os tordos. Quando amadurecerem, me aconselharam a ficar de vigia, armado com uma espingarda; meu vizinho a emprestaria de bom grado, estou pensando nisso, e não descarto a possibilidade.
E minhas rosas? Este é o terceiro ano que as vejo brotar esperançosas e depois morrer diante dos meus olhos; sua vida está sendo sugada por um besouro que jamais havia visto antes, que veio sabe-se lá de onde, e eu não me surpreenderia se fosse da China. Um besouro grande, com asas suficientes para subir da terra onde se infiltrou e, de alguma forma, chegar sem ser percebido ao centro do botão, sua carapaça tingida de uma magnífica cor verde-dourada. Não existe arma química que possa aniquilá-lo, os agrônomos batem no peito e admitem que a única solução, ainda que parcialmente eficaz, é a erradicação mecânica, ou seja, tirá-los um a um, agarrá-los firmemente e esmagá-los sem piedade.
Uma batalha cruenta, e de qualquer forma perdida, porque eles brotam em ondas das entranhas da terra, porque meu jardim agora virou um filme de terror. E o horror é coisa nossa porque não sabemos olhar para o mundo exceto através de olhos forrados por um supremacismo do humano que sabemos bem, pelo menos no fundo do nosso ser, ser a mais inepta das suposições, a mais falaciosa das usurpações.
Gostamos de pensar na nossa história como uma história de conquistas sem fim, sem nada nem ninguém para nos deter, e assim, enquanto avançamos na nossa marcha triunfal, um olhar para trás bastaria para nos lembrar que, na realidade, somos seguidos pelos fantasmas dos derrotados, dos aniquilados, dos extintos. Fantasmas que, a cada oportunidade, descobrimos estarem vivos; sim, às vezes retornam, e quando retornam, é por nossa própria ação.
Os imprudentes ornitólogos que rondavam os aterros sanitários mais repugnantes em busca de aves raras não foram infectados pela desgraça, mas pela tragédia, e a tragédia não são os ratos, que não conhecem o bem e o mal, têm vidas bastante curtas e precárias e, para manter a sua espécie, proliferam sem parar: a tragédia, o horror, são os aterros sanitários.
Falando em horrores e ratos, uma mudança drástica no comportamento deles em relação aos humanos foi observada na Faixa de Gaza; não fogem mais, mas atacam. Naturalmente, os alvos naturais são as crianças, criaturas desprovidas de qualquer atitude defensiva. Essas crianças não são as infelizes vítimas de uma natureza hostil, mas do horror humano; esses ratos vêm se alimentando há anos dos cadáveres enterrados sob os escombros de Gaza, achando essa comida muito mais apetitosa do que o costumeiro lixo, e não se preocupam muito em distinguir entre vivos e mortos, não possuem as ferramentas intelectuais para isso, ferramentas que abundam nos humanos que geraram esse horror indizível e que pretendem distinguir, da melhor maneira possível, os vivos com o propósito de transformá-los em mortos.
Temos os lobos à nossa porta; na semana passada, vimos alguns filhotes vagando pela nossa horta. Enquanto em outros lugares se choram os filhos queimados pelas bombas de fósforo, nós choramos os nossos cachorros despedaçados pelos lobos, até o desespero. Parece-me que, neste país, há tempo se publicam mais livros sobre a afeição pelos cachorros do que pelos humanos. Talvez seja certo, e também tenho certeza de que, se meu vizinho Tito soubesse segurar uma caneta ou digitar em um teclado, estaria escrevendo um livro sobre seu amado bode Ciro, impiedosamente devorado, muito provavelmente por aqueles dois lobinhos.
Talvez devêssemos dedicar um pequeno pensamento às dezenas de gerações de lobos que choraram seus irmãos, seus pais, suas mães, seus filhos, mortos por nossas mãos na conquista de seu território. Falamos para nós mesmos: tudo bem, mas agora são demais, e é verdade, mas nós também somos demais, estamos em todos os lugares, os lobos ainda não. Eles não são nada além de fantasmas voltando à vida; nós estamos trabalhando na imortalidade, não há batalha; se ao menos parássemos de massacrar nossa própria espécie por alguns meses, poderíamos nos dedicar com sucesso ao extermínio dos lobos, e também dos ursos, dos javalis, dos ratos, dos tordos, dos besouros e de todo outro ser que se interpõe entre nós e o nosso domínio.
No entanto, seria apenas um sucesso aparente; os fantasmas não podem ser exterminados até a extinção, The Walking Dead chegou à sua décima sétima temporada, e ainda estamos esperando por continuações e prequels. Precisamos demais do medo, do terror, da raiva e do rancor para seguir em frente sem ter que enfrentar os devastadores acertos de contas com quem nós somos.
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