06 Mai 2026
"A Maria dos Evangelhos permanece o critério fundamental: uma mulher que vive a fé dentro da história, sem privilégios narrativos que a separem da experiência humana comum. Recuperar essa dimensão não significa empobrecer a figura de Maria, mas restaurar sua profundidade. Significa reconhecer que sua grandeza reside não nos atributos extraordinários acumulados ao longo do tempo, mas na radicalidade de sua escuta e na concretude de sua trajetória", escreve Gianni Urso, em artigo publicado por Facebook, 03-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Todos os anos, no mês de maio, a Igreja volta a propor com intensidade a figura de Maria, mas raramente nos debruçamos para questionar de modo rigoroso a relação entre a Maria dos textos bíblicos e aquela que, ao longo dos séculos, se tornou objeto de definições doutrinais e imensa devoção.
Para abordar seriamente a questão, é necessário analisar todos os níveis: Escritura, tradição, reflexão teológica e a maneira como a figura de Maria foi progressivamente interpretada e transformada.
Nos textos do Novo Testamento, Maria aparece com surpreendente sobriedade. O relato mais detalhado encontra-se no Evangelho de Lucas, onde encontramos a Anunciação (Lucas 1,26-38), o Magnificat (Lucas 1,46-55), a visita a Isabel, o nascimento de Jesus e alguns episódios de sua infância.
Nessas passagens, Maria é apresentada como uma mulher que escuta a palavra, questiona-a (“Como será isso?”), acolhe-a (“Faça-se em mim segundo a tua palavra”) e protege-a (“Ela guardava todas essas coisas, meditando-as no seu coração”: Lucas 2,19, 51). Ela é uma figura de fé profunda, mas nunca descrita como objeto de culto. No Evangelho de Mateus, Maria está presente nas narrativas da infância (Mt 1-2), mas o foco está em José e no cumprimento das profecias.
No Evangelho de Marcos, o mais antigo, Maria aparece apenas indiretamente (Mc 3,31-35; 6,3), e em uma passagem significativa Jesus redefine os laços familiares: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Isso não é uma rejeição, mas uma relativização: a verdadeira grandeza não está no vínculo biológico, mas na escuta da palavra.
No Evangelho de João, Maria aparece em dois momentos-chave: nas bodas de Caná (João 2,1-12) e aos pés da cruz (João 19,25-27). Em ambos os casos, Jesus a chama de "mulher", um termo com valor simbólico e teológico. Em Caná, Maria não é uma mediadora autônoma, mas sim aquela que conduz para Cristo: "Fazei tudo o que ele vos disser". Aos pés da cruz, a cena assume um significado eclesial, mas permanece essencial, desprovida de desenvolvimentos devocionais.
Fora dos Evangelhos, Maria aparece brevemente nos Atos dos Apóstolos (Atos 1,14), junto com a comunidade em oração, enquanto Paulo de Tarso se limita a uma referência básica: "nascido de mulher" (Gal 4,4).
Este é o ponto de partida: uma presença real, significativa, mas não desenvolvida em sentido doutrinal autônomo. E é precisamente essa essencialidade que abriu caminho para a reflexão subsequente. Nos primeiros séculos, autores como Justino Mártir e Irineu de Lyon introduziram o paralelo entre Eva e Maria: onde Eva desobedece, Maria obedece. É uma leitura teológica que amplia o significado da figura evangélica, inserindo-a numa visão mais ampla da história da salvação. A mudança decisiva ocorre com o Concílio de Éfeso, que define Maria como "Theotókos", Mãe de Deus.
Essa afirmação nasce num contexto cristológico, para afirmar a unidade da pessoa de Cristo contra as posições de Nestório, mas marca a entrada permanente de Maria na linguagem dogmática. A partir desse momento, a reflexão sobre ela desenvolve-se progressivamente, entrelaçando-se com a liturgia, a espiritualidade e a devoção.
Na Idade Média, teólogos como Bernardo de Claraval enfatizam o papel de Maria como mediadora, enquanto Tomás de Aquino oferece uma sistematização mais prudente, buscando manter a primazia de Cristo. Contudo, a devoção cresce, muitas vezes mais rapidamente do que a reflexão teológica, e Maria torna-se cada vez mais uma figura central na piedade cristã.
Na idade moderna, essa evolução é sancionada por definições dogmáticas. Em 1854, Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição, segundo o qual Maria é preservada do pecado original desde o primeiro momento de sua existência. Em 1950, Pio XII define o dogma da Assunção, segundo o qual Maria foi assunta ao céu em corpo e alma. Essas afirmações não derivam diretamente dos textos bíblicos, mas são apresentadas como um desenvolvimento coerente da tradição, seguindo uma linha teológica já elaborada por John Henry Newman.
O Concílio Vaticano II buscou restabelecer o equilíbrio, inserindo Maria no mistério de Cristo e da Igreja. A constituição "Lumen Gentium" evita um tratamento separado e insiste que Maria é uma figura da Igreja, um modelo de fé e de escuta.
Paulo VI, com a exortação "Marialis Cultus", convoca a uma devoção fundada nas Escrituras e orientada para Cristo. Paralelamente à reflexão teológica, o pensamento moderno também oferece chaves interpretativas. Carl Gustav Jung viu na figura de Maria a expressão do arquétipo materno, capaz de responder às necessidades profundas da experiência humana. Karl Rahner insistiu que Maria deve ser compreendida dentro da condição humana redimida, não como uma realidade separada. Hans Küng questionou a solidez bíblica de algumas definições dogmáticas, enquanto Leonardo Boff enfatizou com força a dimensão histórica e concreta de Maria, mulher pobre e crente.
À luz dessa trajetória, emerge uma tensão que não pode ser ignorada. De um lado, a Maria dos Evangelhos: uma mulher que escuta, que crê, que caminha na história, que não compreende tudo, mas permanece fiel. Do outro, a Maria da tradição: progressivamente definida, elevada, cercada de títulos e atributos que a colocam em uma dimensão quase à parte. A essa tensão soma-se, especialmente nos últimos dois séculos, um outro fenômeno que merece uma análise rigorosa: o das aparições marianas. Eventos como Lourdes, Fátima e Medjugorje tiveram um enorme impacto na devoção popular e no imaginário religioso contemporâneo.
A Igreja, em sua prudência, distingue entre aparições reconhecidas, não reconhecidas ou ainda em análise, e afirma claramente que nenhuma revelação privada pertence ao depósito da fé. No entanto, na prática, essas experiências muitas vezes acabam moldando a percepção concreta de Maria muito mais do que os textos bíblicos ou os documentos conciliares.
De uma perspectiva teológica, esse fenômeno levanta questões delicadas. Nas aparições, Maria aparece frequentemente como uma figura que fala, adverte, prediz eventos e convida a práticas devocionais específicas.
Trata-se de uma representação que tende a enfatizar o papel de Maria como mediadora ativa e quase autônoma. Em alguns casos, a linguagem e os conteúdos atribuídos a essas aparições introduzem elementos que não têm correspondência direta nas Escrituras, contribuindo para uma imagem de Maria que se distancia ainda mais da sobriedade evangélica.
De uma perspectiva histórica e antropológica, estudiosos influenciados pelo pensamento de Carl Gustav Jung interpretaram as aparições como expressões simbólicas de necessidades profundas: a busca por proteção, a necessidade de mediação, o desejo de uma presença materna em contextos de crise. Isso não nega automaticamente o valor religioso de tais experiências, mas nos convida a interpretá-las com ferramentas críticas adequadas, evitando uma adesão ingênua ou acrítica.
O risco, caso esse discernimento não for mantido, é que a figura de Maria se transforme progressivamente em uma presença onipresente, intervencionista, capaz de agir diretamente na história de maneira quase independente. Nesse processo, Maria corre o risco de perder sua dimensão original de crente, assumindo traços que a tornam semelhante a uma figura extraordinária e distante, difícil de conciliar com o perfil evangélico. Trata-se de uma transformação sutil, mas significativa: de uma mulher que escuta e segue, para uma figura que intervém e dirige.
Diante de tudo isso, a questão mariana revela-se como um dos pontos mais sensíveis da reflexão cristã. Não se trata de negar a tradição ou desvalorizar a devoção, mas de exercer um discernimento sério e informado.
A Maria dos Evangelhos permanece o critério fundamental: uma mulher que vive a fé dentro da história, sem privilégios narrativos que a separem da experiência humana comum. Recuperar essa dimensão não significa empobrecer a figura de Maria, mas restaurar sua profundidade. Significa reconhecer que sua grandeza reside não nos atributos extraordinários acumulados ao longo do tempo, mas na radicalidade de sua escuta e na concretude de sua trajetória. Nesse sentido, uma reflexão teológica madura é chamada a combinar o respeito pela tradição e a fidelidade às Escrituras, evitando tanto a redução quanto o excesso. E talvez seja precisamente aqui que possa se abrir um espaço decisivo para o presente: retornar a Maria não como uma figura distante e sobrecarregada, mas como uma presença essencial, ainda capaz de questionar a fé em sua forma mais autêntica.
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