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Por: André | 20 Dezembro 2013

Após 2000 anos do acontecimento Pascal, será preciso que este nascimento de Cristo, para que seja autêntico, transpareça em nossas vidas. Caso contrário, o Cristo ainda não pode nascer: “Com efeito, mesmo se nós cantamos: Glória a Deus no céu e paz na terra, hoje não há nem glória de Deus nem paz sobre a terra. Contanto que reste fome ainda insatisfeita, e que não tenhamos erradicado a violência da nossa civilização, Cristo ainda não nasceu” (Gandhi).

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 4º Domingo do Advento – Ciclo A do Ano Litúrgico (22 de dezembro de 2013). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: Is 7,10-16
Segunda Leitura: Rm 1,1-7
Evangelho: Mt 1,18-24

Eis o texto.

Na época do ano em que o sol está no seu ponto mais baixo no Hemisfério Norte da Terra, decoramos as nossas casas, ruas, bairros, com luzes, para acolher qualquer um ou qualquer coisa, para esperar: o sol nascente, o Solis Invecti, para uns, ou seja, a luz do dia que prevalece sobre a noite a partir do solstício do inverno, ou o nascimento do novo sol, o Natalis Dies, para outros, que se ilumina na Páscoa e que transforma com seu resplendor não apenas o que vem depois, a Igreja que somos, mas também o que vem antes, a vida de Jesus de Nazaré, da sua concepção à sua morte. O Natal é tudo isso ao mesmo tempo: novo dia, novo sol, nascimento do Cristo Pascal. Foi somente no século IV que a festa pagã tornou-se cristã: Natal.

Nesse 4º Domingo do Advento, quando estamos a poucas horas do Natal, os textos bíblicos que nos são propostos já nos falam da festa cristã do Natal, do nascimento do Cristo Pascal. O que dizem?

1. Jesus Cristo nasceu na Páscoa

Se no Natal celebrarmos o nascimento de Jesus de Nazaré sem referência à sua transformação pascal, passamos ao largo do sentido e do alcance da festa. Com outras palavras, não podemos saber e não é o interesse dos evangelhos, dizer com precisão onde, quando e como nasceu Jesus de Nazaré. O que os textos evangélicos nos relatam é o acontecimento Jesus contado à luz da Páscoa. Na sua Carta aos Romanos, na segunda leitura de hoje, São Paulo nos diz claramente que Jesus era o Filho de Deus na Páscoa, portanto, na sua morte-ressurreição: “E segundo o Espírito Santo, foi constituído Filho de Deus com poder, através da ressurreição dos mortos: Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 1,4); não que não tenha sido o Filho de Deus antes, mas tornou-se de outro modo, mais claramente, de sorte que o apóstolo Paulo dirá dele: “Segundo a carne foi descendente de Davi” (Rm 1,3), e os primeiros cristãos irão inclusive dizer que a profecia de Isaías ao rei Acaz, que temos na primeira leitura de hoje: “A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel, Deus conosco” (Is 7,14), realiza-se nele. Não é por acaso que Mateus comporá um relato do nascimento para expressar esta dupla identidade: Filho de Davi por José (Mt 1,20b), que simboliza o Antigo Testamento, e Filho de Deus por Maria, que simboliza o Novo Testamento, a Igreja em que é engendrado o Cristo pelo Espírito Santo (Mt 1,20c).

2. Jesus, Filho de Davi por José

Na sua genealogia (Mt 1,1-17), Mateus situa Jesus na linha davídica por “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo” (Mt 1,16). Ao chamar Jesus de Cristo, como o faz Mateus, José não pode engendrar Jesus, porque o Cristo é engendrado pelo Espírito Santo na Páscoa. Mas por que José? José é um personagem bíblico importante. Segundo Mateus, esse José, esposo de Maria, é filho de Jacó (Mt 1,16), assim como o José do Antigo Testamento, que era chamado de homem dos sonhos (Gn 37,5), também era filho de Jacó. Podemos pensar que Mateus copiou do patriarca ancestral seu personagem José a quem é anunciado três vezes em sonho: o nascimento de Jesus (Mt 1,20), a fuga para o Egito (Mt 2,13) e o retorno do Egito (Mt 2,19.22), tanto mais que o José do Antigo Testamento viveu e desempenhou um papel importante junto ao Faraó do Egito.

Para Mateus, que é judeu mas também cristão, é pelo pai que se transmite a geração. É, portanto, José quem dará o nome de Jesus, isto é, o Senhor salva (Mt 1,21), àquele que se tornou Cristo e Senhor na Páscoa. É, pois, à luz da Páscoa que o personagem José aparece e é reconhecido por Mateus como o pai de Jesus. Isto é de tal maneira verdade que após o relato da infância de Mateus (Mt 1-2), José desaparecerá completamente do evangelho. Seu único papel terá sido assegurar a filiação davídica de Jesus em relação com o José ancestral e terá permitido a Mateus reatar a profecia de Isaías (Is 7,14) com o anúncio do nascimento de Cristo, Filho de Deus, em Maria, a Igreja (Mt 1,23).

3. Jesus, Filho de Deus por Maria

No Antigo Testamento, sabemos que o rei é Filho de Deus. No tempo de Acaz, rei de Judá (736-716), que não teve nenhuma descendência, o contexto histórico é o da guerra siro-efraimita. O profeta Isaías refere-se a ela, ao falar de dois reis que lhe causam medo (Is 7,16): trata-se, certamente, do rei Aram de Damasco, na Síria, e daquele de Israel, no Reino do Norte, cuja capital é Samaria. Esse dois reis queriam forçar Acaz a participar de uma coalizão contra a Assíria. Acaz recusa, mas tem medo. O profeta Isaías lhe diz: “Que teu coração não vacile por causa desses dois tições fumegantes” (Is 7,4). Mas contra o aviso do profeta que o convida a confiar em Deus, em vez de nas alianças políticas duvidosas, Acaz pedirá a ajuda dos assírios; estes atacarão Damasco e Samaria e transformarão Judá em vassalo. Acaz torna-se prisioneiro do seu próprio jogo. Acaz não terá filho e não confia em Deus. Ao profeta que lhe diz para pedir um sinal a Deus (Is 7,11), Acaz recusa: “Não vou pedir! Não vou tentar a Javé!” (Is 7,12). Então, é o Senhor mesmo quem vai lhe dar um sinal pela boca do profeta Isaías: “A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel, Deus conosco” (Is 7,14).

É evidente que se trata aqui de Ezequias, que foi mais do que um rei decepcionante, mas não fará falta para Mateus, pois ele irá interpretar esta profecia de Isaías à luz da Páscoa, como o anúncio de um novo rei, filho de Davi e Filho de Deus através de Maria, a Igreja. E como a versão grega da Bíblica a Septuaginta (LXX), que Mateus utiliza para ler Isaías, a profecia se lê como segue: “Vejam: a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco”. Por outro lado, Mateus escreve: “Vejam: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. E eles o chamarão pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco” (Mt 1,23).

Para Mateus, a palavra virgem (parthenos) significa jovem mulher (neanis), porque a palavra não é dele, mas da versão grega da Bíblia que ele utiliza. Por outro lado, o evangelista substitui a palavra conceberá por ficará grávida, porque, para ele, Maria, a Igreja, não pode conceber o Cristo; ela só pode trazê-lo nela para dá-lo ao mundo. E se Mateus passa da terceira pessoa do singular para o plural, eles, para o nome de Emanuel, é porque são todos os cristãos que reconhecem no Cristo o Deus conosco.

Para terminar, o que Mateus fez no seu relato do anúncio do nascimento (Mt 1,18-24) foi reconstituir o nascimento de Jesus, que ele não conheceu. Ele o faz projetando para trás, para o momento do nascimento e inclusive da concepção, o que ele conhece do Cristo Pascal, do Cristo ressuscitado. É o Espírito de Deus que intervém em Maria, a Igreja, para dar o Cristo ao mundo; esse Jesus é Filho de Davi por José que dá o nome a Jesus e são os próprios cristãos que o reconhecem como o Emanuel, o Deus conosco. O que significa que cada ano, quando os cristãos se reúnem para celebrar o Natal, atualizam o nascimento de Cristo na Igreja, a fim de que possamos reconhecer o Emanuel, o Deus conosco.

Após 2000 anos do acontecimento Pascal, será preciso que este nascimento de Cristo, para que seja autêntico, transpareça em nossas vidas. Caso contrário, o Cristo ainda não pode nascer: “Com efeito, mesmo se nós cantamos: Glória a Deus no céu e paz na terra, hoje não há nem glória de Deus nem paz sobre a terra. Contanto que reste fome ainda insatisfeita, e que não tenhamos erradicado a violência da nossa civilização, Cristo ainda não nasceu” (Gandhi).

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