Leão XIV sozinho contra a guerra: por que os teólogos não se manifestam? Artigo de Fabrizio Mastrofini

Foto do Papa Leão: Vatican Media | Foto de fundo: Levi Meir Clancy/Unsplash | Edição: IHU

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10 Abril 2026

"Será que os teólogos moralistas poderiam pedir ao Magistério que colocasse fora da lei os conflitos? Todos os conflitos, sejam eles combatidos com as armas ou econômicos, sociais, políticos, comerciais, que matam de fome os povos e impedem ou dificultam seu desenvolvimento. Caso contrário, para que serve a Doutrina Social?", escreve Fabrizio Mastrofini, jornalista e ensaísta italiano, em artigo publicado por l’Unità, 08-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Papa Leão XIV fala todos os dias, e especialmente na Páscoa, sobre a ilegitimidade da guerra e condena o uso da religião para justificar a violência. Mas será que ele está sozinho, por demais sozinho” Vamos reler uma passagem do Papa Leão XIV durante a missa na tarde de 28 de março no Principado de Mônaco. Ele disse: “A purificação da idolatria, que torna os homens escravos de outros homens, realiza-se como santificação, dom da graça que torna os homens filhos de Deus, irmãos e irmãs entre si. Esse dom ilumina o nosso presente, porque as guerras que o cobrem de sangue são fruto da idolatria do poder e do dinheiro. Cada vida destruída é uma ferida no corpo de Cristo. Não nos acostumemos ao barulho das armas, às imagens da guerra! A paz não é um mero equilíbrio de forças, é obra de corações purificados, daqueles que veem no outro um irmão a ser protegido, não um inimigo a ser abatido.”

Há alguns dias, Simone Morandini e Gaia De Vecchi ilustravam, em um site católico, algumas das posições assumidas por teólogos moralistas sobre o tema da guerra e da paz, respondendo àqueles (como eu) que pensam que não se está fazendo, denunciando ou falando o suficiente. Lembro novamente que, em agosto de 2024, o teólogo Severino Dianich — o veterano decano da teologia moral na Itália — falava, sem receber atenção, de "traição dos teólogos". Não eram considerações de verão; estavam ligadas à insignificância da teologia quando permanece calada diante das tragédias do presente. E que tragédias!

Entre as várias intervenções realizadas para tentar ressaltar a importância do tema, em novembro passado escrevi, também na revista l'Unità, para reiterar que precisamos de uma nova visão de Ética Teológica.

O que mais dizer? A consideração mais evidente parece estar diante de nossos olhos. Sempre que pode, em todas as ocasiões possíveis, o Papa — primeiro Francisco, agora Leão— se pronuncia e exorta contra as guerras e os conflitos, apontando suas causas como a sede de poder e dinheiro: "idolatria" para um e para o outro.

Bispos e congregações religiosas criam dias de oração e jejum. Ações nobres, mas insuficientes, quando não irrelevantes. Rezar é importante. Mas não basta; é preciso de um espaço público para debater e despertar reações. Para dizer o quê? Para dizer que os conflitos já não são mais sustentáveis. A paz é. Não matar; é o único caminho. A teologia moral, os teólogos e as teólogas morais, devem erguer suas vozes todos os dias, de todas as maneiras e formas possíveis. E em cada paróquia, capelania, convento, basílica, em todos os lugares, todos os domingos e todos os dias, devemos lembrar que "não matar" é "o" Mandamento, baseado na mensagem evangélica da sacralidade da vida e do amor por amigos e inimigos. "Fratelli Tutti" deve ser levada a sério, e não relegada à história dos pontificados e das encíclicas.

Há mais ainda. O Centro de Estudos Inter-religiosos da Pontifícia Universidade Gregoriana está organizando um seminário em 17 de abril sobre o tema "Não-violência em tempos de guerra". É um tema sério e muito importante. Mas, "da esquerda", dizemos que é insuficiente, é anacrônico! A não-violência diante dos sofisticados conflitos de hoje simplesmente não basta mais. Há um tema superior, que a engloba, e esse tema é a Paz. A Paz vem em primeiro lugar e, em alguns casos, pode haver formas não-violentas de expressão. Mas a Paz vem em primeiro lugar. A não-violência simplesmente não tem utilidade alguma quando as bombas chegam lançadas por drones. Diante das atrocidades que testemunhamos, a não-violência já não basta mais. Diante de barcos no mar cheios de pessoas famintas, desidratadas e desesperadas morrendo em meio à indiferença geral dos políticos que, em seguida, fazem fila para ir ao Vaticano, a não-violência já não basta mais. A Paz, no sentido mais radical do termo, é o que precisamos. Será que os teólogos moralistas poderiam pedir ao Magistério que colocasse fora da lei os conflitos? Todos os conflitos, sejam eles combatidos com as armas ou econômicos, sociais, políticos, comerciais, que matam de fome os povos e impedem ou dificultam seu desenvolvimento. Caso contrário, para que serve a Doutrina Social?

Um adendo. Novamente sobre o Papa Leão XIV. Em Mônaco, no encontro com a comunidade católica, convidou à defesa da vida: "Anunciai o Evangelho da vida, da esperança e do amor; levai a todos a luz do Evangelho, para que a vida de cada homem e mulher seja defendida e promovida desde a sua concepção até ao seu fim natural." Os teólogos moralistas, por favor, e as teólogas, deveriam explicar ao Magistério – por exemplo, usando os livros "Ética Teológica da Vida" e "A Alegria da Vida" (traduzidos para o francês e o espanhol), ambos coordenados por D. Vincenzo Paglia e publicados pela Editora Vaticana, que, diante das tecnologias reprodutivas existentes hoje e das técnicas de reanimação e suporte à vida que podem chegar ao ponto da "obstinação irracional", as ideias de "concepção" e "morte natural", expressões clássicas, já não possuem mais aquele significado imediato, concreto, compartilhado que tinham até vinte ou trinta anos atrás. E seria necessária uma reflexão mais atualizada, em sintonia com os tempos, buscando uma "nova aliança" entre os conhecimentos, entre a ciência e a defesa de nossa humanidade comum. Seria uma ajuda valiosa para uma reflexão em sintonia com os tempos.

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