27 Março 2026
"Talvez seja precisamente aí que resida a razão estrutural mais importante da viagem. Mônaco é mais do que apenas um cenário luxuoso. É também, para Roma, um parceiro antigo e confiável, inserido em instituições internacionais. Dessa perspectiva, a visita de Leão XIV ao Principado surge como uma forma de o Vaticano cultivar uma de suas "periferias" diplomáticas mais úteis", escreve Mikael Corre, jornalista, em artigo publicado por La Croix e reproduzido por Settimana News, 26-03-2026.
Eis o artigo.
A escolha foi surpreendente para uma primeira viagem à Europa. No dia 28 de março, Leão XIV passará menos de nove horas no Principado, onde presidirá uma missa no Estádio Luís II.
Segundo relatos, o anúncio da viagem provocou reações diversas nos mais altos escalões do Vaticano, complicando sua organização. Alguns prelados de alto escalão viram a viagem como uma ruptura com a abordagem diplomática de Francisco, não se convencendo com uma visita a um dos países mais ricos da Europa, símbolo do luxo mediterrâneo. Outros se mostraram ainda mais reservados quanto à ideia de viajar para um Estado religioso — o catolicismo é a religião oficial de Mônaco — em um momento em que a religião vem sendo cada vez mais explorada politicamente.
Uma explicação mais pessoal?
A maioria dos clérigos entrevistados, no entanto, tende a relativizar a situação. "É uma visita pastoral, como se ele estivesse indo a Milão", sorri um prelado. "Além disso, ele não tem contas bancárias em Mônaco." Em um Vaticano financeiramente frágil, o Principado — que não tem dívida pública — poderia, ainda assim, atrair a atenção de grandes doadores. "É uma rede de contatos", observa um analista romano.
Outras fontes sugerem uma explicação mais pessoal, insinuando "um acordo entre americanos". Leão XIV, nascido em Chicago, e o Príncipe Alberto II, filho da atriz americana Grace Kelly e formado pela Universidade de Amherst, perto de Boston, compartilham um estilo "direto e pragmático" e estavam particularmente em sintonia durante seu encontro no Vaticano em 17 de janeiro.
Em Roma, essas interpretações revelam, acima de tudo, uma coisa: ninguém parece saber ao certo por que o Papa escolheu Mônaco.
"Cultura da vida"
Os temas da jornada talvez ofereçam um primeiro elemento de resposta.
Leão XIV chega ao Principado sem pontos de concordância com o Príncipe. Durante anos, Alberto II fez do meio ambiente — e particularmente da proteção dos oceanos — um elemento distintivo de seu compromisso internacional. Por sua vez, o Papa fez eco à posição social e ecológica de Francisco, mas adotou uma linguagem mais explicitamente ancorada na "cultura da vida".
Nesse contexto, a dimensão bioética é relevante, ainda que provavelmente não seja suficiente para explicar a viagem. Na mensagem transmitida em 19 de novembro de 2025, por ocasião do feriado nacional de Mônaco, Leão XIV encorajou os habitantes do Principado a permanecerem fiéis aos seus "valores ancestrais (...) fundados no Evangelho e no respeito pela cultura da vida". Essa mensagem foi lida na catedral pelo núncio, D. Martin Krebs.
Uma mensagem para a França
Alguns meses depois, a diocese, em comunicado anunciando a visita, explicou que o Papa e Alberto II compartilhavam "uma preocupação com uma ecologia integral", bem como "uma atenção especial ao respeito pela vida humana desde o seu início até o seu fim".
Questões bioéticas têm suscitado diversos debates no Parlamento de Mônaco. Uma tentativa de flexibilizar a lei que proíbe a interrupção voluntária da gravidez, aprovada em 2025, foi rejeitada pelo governo principesco. A eutanásia e o suicídio assistido também não são autorizados no Principado, que optou por fortalecer o quadro de cuidados paliativos com uma lei aprovada em junho de 2025.
Para vários observadores, a coerência é demasiado evidente para ser uma coincidência. "A visita do Papa a Mônaco será uma mensagem para a França, em meio ao debate parlamentar sobre a eutanásia", comentou uma fonte romana envolvida nessas questões. Outros no Vaticano, no entanto, alertam para que a visita não seja reduzida a uma única mensagem contra a eutanásia, observando que as declarações oficiais enfatizam os laços históricos entre o Principado e a Santa Sé.
Esta viagem, aliás, está longe de ser improvisada. Durante anos, diplomatas de Mônaco em Roma tentaram atrair o Papa, chegando mesmo, sob o pontificado de Francisco, a apresentar o Principado como uma "periferia" por direito próprio — sem sucesso. Leão XIV será, portanto, o primeiro Papa reinante a visitar o Principado, uma visita vista localmente como histórica, fruto de intenso trabalho diplomático.
Mônaco como intermediário diplomático
E aqui surge uma explicação adicional. Como esta viagem demonstra, Mônaco cultiva há muito tempo sua relação com a Santa Sé. A declaração do Palácio Principesco anunciando a visita do Papa evoca "os laços seculares" entre os Grimaldi — a família de origem genovesa que governa Mônaco há mais de sete séculos — e os sucessores de Pedro, bem como "relações diplomáticas antigas e de confiança". A declaração diocesana também enfatiza "o vínculo secular da Família Principesca" com os Papas.
Mas, além dessa memória compartilhada, a relação também é muito concreta e oportuna. Mônaco oferece à Santa Sé algo importante que lhe falta: uma voz deliberativa nas Nações Unidas. O Principado é membro pleno da ONU desde 1993. A Santa Sé, no entanto, é apenas observadora permanente, sem direito a voto.
Para Roma, Mônaco é um parceiro antigo e confiável, bem estabelecido em instituições internacionais.
Dessa perspectiva, o vínculo entre Mônaco e a Santa Sé vai além da simples cortesia entre dois microestados católicos. "Há uma espécie de continuidade de interesses entre a Santa Sé e Mônaco", observa um diplomata romano. Em certas questões, particularmente as bioéticas, o Principado — embora busque suas próprias prioridades — pode, em fóruns multilaterais, defender posições próximas às expressas pela Santa Sé.
"Não se trata de uma delegação mecânica, mas sim de uma proximidade que pode contar num universo da ONU onde o estatuto institucional pesa muito nas negociações", continua ele. Este intermediário é ainda mais valioso num momento em que o multilateralismo atravessa um período de incerteza, que Leão XIV defende regularmente.
Talvez seja precisamente aí que resida a razão estrutural mais importante da viagem. Mônaco é mais do que apenas um cenário luxuoso. É também, para Roma, um parceiro antigo e confiável, inserido em instituições internacionais. Dessa perspectiva, a visita de Leão XIV ao Principado surge como uma forma de o Vaticano cultivar uma de suas "periferias" diplomáticas mais úteis.
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