"Prevost desmascara a guerra ao removê-la da geopolítica". Entrevista com Antonio Spadaro

Foto: Vatican Media

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06 Abril 2026

"O Papa Leão XIV usa palavras que visam atingir o princípio espiritual e político que torna a guerra possível." É assim que o jesuíta Antonio Spadaro, ex-diretor da Civilità Cattolica e agora subsecretário do Dicastério para a Cultura do Vaticano, responde ao manifesto. Trata-se de um cargo institucional que não impede, contudo, sua liberdade de análise.

A entrevista é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 05-04-2026.

Eis a entrevista.

Será que Prevost é cauteloso demais?

Não, se você ouvir com atenção, perceberá uma grande clareza: ele afirma que a emergência humanitária em Gaza é cada vez mais opressiva, que "todo membro da comunidade internacional tem uma responsabilidade moral: deter a tragédia da guerra, antes que ela se torne um abismo irreparável" e que "não existem conflitos distantes quando a dignidade humana está em jogo". É uma forma de remover a guerra da geopolítica e restaurá-la ao seu verdadeiro nome, isto é, uma ferida infligida à humanidade. No Domingo de Ramos, ele disse que ninguém pode usar Deus para justificar a guerra. Na Quinta-feira Santa, falou de "uma humanidade de joelhos devido a muitos exemplos de brutalidade": são expressões teológicas, mas com uma clara intensidade política.

Ele usa as palavras como ferramenta de discernimento e desmascaramento. Para alguns, parece menos incisivo; para mim, parece uma forma diferente de radicalismo.

A comparação com Bergoglio é inevitável...

Francisco tinha um estilo de comunicação disruptivo, capaz de produzir imagens inesquecíveis: Lampedusa, o beijo nos pés dos líderes do Sudão do Sul, os telefonemas noturnos para o pároco de Gaza, o ​​hospital de campanha, a Terceira Guerra Mundial fragmentada. Bergoglio agia por meio de choques simbólicos capazes de criar novas narrativas. Leão é menos explosivo, mas não menos decisivo; seu dilema é entre diplomacia e profecia. Francisco havia encontrado um equilíbrio: conversamos sobre isso durante uma viagem; ele se rendeu à ideia de que era a última voz moral de relevância global. Acredito que Leão tem o mesmo sentimento e está buscando sua posição, agora que o caos se intensificou.

Será que Prevost é indulgente com seu compatriota Trump por razões de conveniência?

Não me parece que ele seja indulgente; pelo contrário, é mais difícil descartá-lo. Justamente por ser americano, quando ele fala de liberdade religiosa, da relação entre fé e poder, de um catolicismo funcional a um projeto político nacional, suas palavras têm peso. Ele respeita as instituições, mas não se acomoda ao catolicismo nacional. Suas origens americanas lhe conferem mais credibilidade, tornando-o mais exposto, mas potencialmente mais incisivo, porque suas críticas, quando surgem, não podem ser interpretadas precipitadamente como antiamericanas.

Qual é o impacto de Leão nos EUA?

É cedo demais para tirar conclusões definitivas, mas algumas tendências podem ser observadas. Ele pode ajudar a desarmar a redução do catolicismo americano a uma gramática puramente política. Sua figura quebra o molde: ele é americano, mas não pode ser confinado aos EUA; ele carrega em si o Peru, sua experiência missionária, uma sensibilidade eclesial internacional.

E o efeito sobre os bispos?

Ele pode reduzir o foco nas guerras culturais e aumentar a atenção à dignidade humana, à paz, à consciência e aos pobres. O episcopado americano está vivenciando uma tensão clara. O conservador Broglio, ex-ordinário militar e presidente dos bispos, chamou o conflito com o Irã de injustificado. Os cardeais Cupich, McElroy e Tobin escreveram que os EUA estão vivenciando "o debate mais profundo" desde o fim da Guerra Fria sobre a base moral de suas ações no mundo. Ao contrário, o bispo Barron, na mídia conservadora, busca minimizar o significado político das palavras papais.

Prevost frequentemente fala de unidade...

Para Leão XIV, as diferenças não devem se traduzir em polarização. É uma mensagem poderosa: num país onde a religião é frequentemente usada como cola nacional, ela pode reabrir o espaço para uma linguagem pública menos ideológica.

Bergoglio morreu na segunda-feira de Páscoa do ano passado: o que resta?

Quando um pontificado termina, o risco é reduzi-lo a uma galeria de imagens. No caso de Francisco, isso seria um erro. Eu mesmo, que o acompanhei de perto, preciso de tempo para entender. Seu pontificado foi um trauma, e traumas tendem a ser reprimidos, mas afetam profundamente. Seu diagnóstico do mundo permanece: a "Terceira Guerra Mundial fragmentada" não era um slogan impressionista, mas uma leitura profética. O que resta é a consciência de que o mundo está se desintegrando e que a Igreja não pode responder com nostalgia pela ordem, mas com misericórdia, fraternidade, proximidade e paz. O discernimento permanece como uma alternativa à ideologia e à rigidez, a sinodalidade como uma forma de uma Igreja que escuta, e a convicção de que a reforma não é uma reorganização técnica, mas uma conversão. Permanece a saída do regime de cristandade, isto é, a rejeição de um cristianismo aliado ao poder e a escolha de uma Igreja a serviço de todos. Um ano após sua morte, Francisco se tornou um legado. E um legado, quando está vivo, não se repete, ele é transmitido.

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