27 Março 2026
Padres que cometeram abusos são enviados para o exterior: durante anos, essa prática foi comum em dioceses alemãs. Um bispo de Serra Leoa exige uma investigação completa e a punição desses crimes.
A reportagem é publicada por Katholisch, 26-03-2026.
O bispo da Diocese de Makeni, em Serra Leoa, Dom Bob John H. Koroma, exige que a Igreja na Alemanha conduza uma investigação abrangente e minuciosa sobre a prática, antes generalizada, de enviar clérigos abusadores para a África. Em um artigo para o Herder Korrespondenz (edição de abril), ele convoca dioceses e ordens religiosas a "abrirem seus arquivos em um espírito de transparência radical", a se desculparem nominalmente pela prática, a fornecerem indenização integral às vítimas e a reformarem o "modelo de envio".
"É necessário introduzir os exames psicológicos mais rigorosos e transparentes, bem como um acompanhamento contínuo de todos os padres enviados para o exterior", afirmou o bispo. O problema do desequilíbrio de poder também deve ser abordado, e os bispos locais devem ser envolvidos nas decisões relativas aos padres e aos recursos enviados do Ocidente.
A percepção generalizada no Sul Global de que as dioceses europeias veem o envio de padres que chamaram sua atenção para o exterior como uma solução conveniente é frequentemente confirmada. "Este é talvez o aspecto mais lamentável de todo esse fenômeno: ver as comunidades de outros fiéis como um 'depósito' para problemas que os responsáveis em seus países não querem ou não conseguem resolver." Isso não é uma parceria, mas uma forma de "colonialismo espiritual", escreve Koroma.
Dinâmicas de poder prejudiciais
Essa prática é particularmente insidiosa porque as comunidades muitas vezes dependem financeiramente da Europa. "Como pode uma comunidade local que depende de apoio financeiro para suas escolas e clínicas se manifestar contra o representante dessa generosidade?" O sistema criou, portanto, uma dinâmica de poder que protege os perpetradores e silencia as vítimas. Pois a história da evangelização na África revela "um clericalismo generalizado, muitas vezes exportado sob o disfarce da fé, e uma obediência inabalável à autoridade", afirmou o bispo. Isso leva a uma tendência de colocar o clero em um pedestal, absolvendo-o, assim, de responsabilidade.
Koroma enfatizou que os abusos cometidos por padres na África, além das consequências devastadoras para as vítimas, também têm repercussões catastróficas para o tecido social. "Estamos falando de um veneno que prejudica o tecido social, a saúde pública, a estabilidade cultural e a missão da Igreja em nosso continente." Quando um padre é exposto como agressor, "os alicerces da confiança social desmoronam". Isso leva a um "cinismo profundo" que impede a coesão e o desenvolvimento da comunidade.
O bispo de Makeni defende um novo começo na relação entre a Igreja na Alemanha e nos países africanos. "Este momento doloroso é uma oportunidade para construir uma nova parceria, não entre doadores e mendigos, mas entre irmãos no ofício episcopal e discípulos com direitos iguais na Igreja una, santa, católica e apostólica." Ele continua: "Tenhamos juntos a coragem de curar as feridas, responsabilizar os culpados e reconstruir uma Igreja em que a missão signifique verdadeiramente serviço altruísta e a parceria seja fundada no amor", escreve Koroma.
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