21 Março 2026
"Uma cultura que promove o silêncio e a falta de transparência muitas vezes o faz por lealdade e pelo desejo de proteger a reputação da instituição", escreve J.D. Long García, editor da revista America, em artigo publicado por America, 19-03-2026.
Eis o artigo.
Quando criança, no Arizona, cresci ouvindo o nome de Cesar Chavez. Escolas, ruas, praças e parques levam seu nome neste estado, e aprendíamos sobre seu movimento na escola. Chavez nasceu em Yuma, Arizona, e morreu não muito longe dali, em San Luis.
Anos depois, visitei a antiga sede da United Farm Workers enquanto fazia uma reportagem sobre as medidas repressivas contra a imigração implementadas pelo primeiro governo Trump. De certa forma, senti como se estivesse visitando um local de peregrinação. Chávez era católico e, a partir da década de 1960, líderes católicos caminharam lado a lado com ele na defesa dos direitos dos trabalhadores. Em 1988, ele jejuou por 36 dias para chamar a atenção para as toxinas mortais usadas nos campos da Califórnia.
"Você acha que a Igreja algum dia reconhecerá César como santo?", perguntei a um amigo que trabalhou com o líder dos direitos civis por uma década.
Ele fez uma careta. Não, disse ele, não achava que fosse assim. Mas foi vago na explicação. Falou sobre o mau humor de Chávez, mas senti que algo ficou subentendido.
Talvez isso esteja relacionado ao que o The New York Times noticiou esta semana. Segundo a investigação, Chávez abusou sexualmente de duas meninas menores de idade, bem como de Dolores Huerta, cofundadora do movimento United Farm Workers.
“Muitas mulheres permaneceram em silêncio por décadas, tanto por vergonha quanto por medo de manchar a imagem de um homem que se tornou o rosto do movimento pelos direitos civis dos latinos, com sua imagem em murais escolares e seu aniversário um feriado estadual na Califórnia”, segundo a reportagem do Times de Manny Fernandez e Sarah Hurtes. A Sra. Hurtes disse que não denunciou Chávez, em parte, porque temia que ninguém acreditasse nela.
Diversos padrões revelados pelo extenso relatório refletem mecanismos institucionais problemáticos que permitiram uma cultura de abuso dentro da Igreja Católica. Colt Anderson e eu utilizamos uma abordagem multidisciplinar para explorar esses problemas e sugerir soluções em nosso livro, ainda inédito, intitulado "Clericalismo: A Dimensão Institucional da Crise de Abuso Sexual na Igreja Católica".
Baseamo-nos em parte nas ideias de Douglass North, economista laureado com o Prêmio Nobel. Sua análise reconhece como as regras formais e informais moldam o comportamento social, político e econômico. As regras formais podem estar escritas em textos religiosos ou manuais de recursos humanos. Mas as regras informais, como tradições não escritas, costumes e relações patrimoniais, são tão influentes quanto, senão mais.
Essas “regras do jogo”, como North as descreve, criam incentivos e desincentivos para certos comportamentos entre os membros das organizações. Em nosso estudo, que incluiu entrevistas individuais e em grupo, identificamos muitos dos mesmos desincentivos que foram delineados pela Comissão Real Australiana sobre Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil. Esses desincentivos incluíam o medo de consequências pessoais negativas, diferenças de poder e outros fatores institucionais que desencorajam a denúncia de casos de abuso.
Descobrimos também que, apesar das tentativas bem-intencionadas de reforma, a Igreja ainda mantém muitos fatores que desestimulam a denúncia de abusos sexuais e outros comportamentos inadequados. Conversamos com pessoas que trabalham em paróquias, escolas, universidades e organizações nacionais. Em todos os níveis, os participantes confirmaram uma pressão tácita para se manterem em silêncio sobre a má conduta ou para fazerem declarações públicas que projetassem uma imagem positiva da Igreja.
Uma cultura que promove o silêncio e a falta de transparência muitas vezes o faz por lealdade e pelo desejo de proteger a reputação da instituição. As pessoas que entrevistamos, de escolas secundárias e universidades católicas, confirmaram a prioridade dada à reputação. Elas disseram que uma boa reputação é essencial, entre outras coisas, para manter uma base sólida de doadores.
Nossos entrevistados disseram que padres desaparecem de seus cargos em paróquias e outras instituições católicas sem explicação, em parte para evitar constrangimentos. Mas os participantes afirmaram que os líderes da igreja demonstram menos preocupação em constranger funcionários leigos, uma atitude que revela uma enorme disparidade de poder.
“Pelo que tenho observado, a nível diocesano, as pessoas tendem a denunciar mais o mau comportamento de outros leigos do que o do clero, a menos que o mau comportamento do clero tenha atingido um certo nível”, disse-nos um participante.
Da mesma forma, fatores de desincentivo desencorajaram as pessoas a denunciarem Chávez. A Sra. Huerta afirmou esta semana que temia que ninguém acreditasse nela e que denunciar Chávez prejudicaria um movimento ao qual dedicou sua vida. Ana Murguia e Debra Rojas, as duas mulheres que afirmam ter sido abusadas sexualmente por Chávez quando eram menores de idade, também tiveram dificuldade em se manifestar publicamente. Segundo o Times, amigos próximos e familiares “imploraram para que não o fizessem, argumentando que não poderia haver momento pior para atacar um herói latino”.
Mas as organizações simplesmente não podem alegar defender a dignidade humana quando não reconhecem a dignidade de seus membros. A reputação institucional não deve ser mantida à custa da dignidade humana individual.
Indivíduos que se manifestam, apesar dos desincentivos sistêmicos, devem ser celebrados. É por meio de sua coragem que conhecemos a verdade. Para prosperar, as instituições devem atentar para as regras formais e informais e criar uma cultura que incentive a responsabilidade e a transparência, inclusive para líderes respeitados. Se permanecermos em silêncio, permitimos que comportamentos destrutivos se perpetuem e que as vítimas se multipliquem.
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