Menos ataques, um pouco menos de fome. Gaza em busca do seu Ramadã. Artigo de Eman Abu Zayed

Foto: Anodolu Agency

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20 Fevereiro 2026

"Este Ramadã é uma prova de nossa resiliência e da capacidade de Gaza de preservar tradições e valores", escreve Eman Abu Zayed, escritor palestino, em artigo publicado por publicado por Il Manifesto, 19-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Ramadã chegou à Gaza sitiada. O resto do mundo o acolhe com alegria e festejos, mas nós o saudamos com uma dor e um sofrimento indescritíveis. A cada novo amanhecer, o chamado à oração se mistura com as lembranças dos bombardeios, e nossos corações são esmagados pelo medo de perder nossos entes queridos e pela saudade de dias mais tranquilos. O Ramadã, que deveria ser um mês de misericórdia e paz, tornou-se um lembrete cruel do desespero vivido pelos moradores da Faixa. Periodicamente, os ataques aéreos retornam para semear a morte, transformando as casas em palcos de dor. Em cada família, o eco da perda persiste, e os rostos e nomes daqueles que já se foram permanecem gravados na memória coletiva. Este é o terceiro Ramadã para os habitantes de Gaza desde 7 de outubro, meses sagrados marcados por bombardeios, assassinatos e fome, que forçaram muitas famílias a buscar sustento em meio ao colapso dos serviços essenciais.

O Ramadã de março de 2024 foi diferente de qualquer outro. Naquela época, vivíamos em tendas em Rafah, depois que nossa casa foi destruída e havíamos sido deslocados para os campos de refugiados. Todos os meus vizinhos haviam se dispersado, e até mesmo a mesquita local onde rezávamos havia sido destruída.

Eu não ouvia mais as saudações dos meus amigos pela chegada do Ramadã como no passado. Entre 2024 e 2025, aquele mês se tornou um teste diário de sobrevivência. Jejuávamos e quebrávamos o jejum ao som das bombas, em vez do chamado para a oração. Estávamos separados da maior parte da nossa família alargada: minha avó, minhas tias e meus primos, com quem eu sempre passava o Ramadã, estavam espalhados por diferentes zonas, alguns deslocados para outros campos, outros trancados no norte. O mês da união e do amor se transformou em um mês de separação e isolamento.

Ansiávamos por ouvir o chamado para a oração ao pôr do sol ou ao amanhecer, mas as mesquitas haviam sido destruídas, e qualquer um que tentasse fazer o adhan temia chamar a atenção e se tornar um alvo.

O Ramadã de 2025 foi ainda mais difícil: passamos fome, jejuando por 13 horas e quebrando o jejum com uma simples sopa. Os preços das lentilhas e do arroz estavam tão altos que não conseguiam saciar a fome. Não havia outras opções; suportamos dias miseráveis. Muitos não conseguiam fazer o suhoor, e algumas pessoas morreram de fome. Antes da guerra, o Ramadã em Gaza era cheio de vida e calor humano. Eu ia com minha família à mesquita depois do iftar para orar e encontrar meus entes queridos, depois passeávamos pelas ruas da cidade, desfrutando a atmosfera animada antes de voltar para casa e saborear um qatayef fresco. Mas, no ano passado, não havia onde participar das orações de Taraweeh, em meio ao genocídio.

Nem mesmo a Grande Mesquita Omari, uma das mesquitas mais belas e históricas de Gaza, foi poupada da destruição, tornando o culto comunitário impossível e nos privando do espírito do Ramadã.

Este ano, o mês sagrado começa sob um cessar-fogo. Há menos medo em decorar as casas ou pendurar luzes coloridas que poderiam nos tornar alvos. A vida, suspensa por tanto tempo, está gradualmente retornando às ruas. As lojas e os mercados que não foram destruídos reabriram e os vendedores ambulantes voltaram ao trabalho. O grande mercado de Nuseirat também reabriu e, antes do Ramadã, meu pai nos levou, a mim, minha irmã e meu irmãozinho.

Não conseguíamos conter a nossa empolgação ao entrar no centro comercial iluminado e, por um instante, sentimos como se tivéssemos viajado de volta no tempo. As prateleiras estavam novamente repletas de tudo o que desejávamos: diversos tipos de chocolate, biscoitos, batatinhas, decorações de Ramadã, lanternas de vários formatos e tamanhos, caixas de tâmaras, frutas secas e chocolate qamar al-din.

Mas essa abundância é enganosa. A maior parte do que enche as prateleiras chega por caminhões comerciais, a maioria das mercadorias é admitidas em Gaza às custas da ajuda humanitária.

Ao mesmo tempo, esses produtos são proibitivamente caros para a grande maioria da população, que perdeu todos os meios de subsistência e suas casas. Com o que a maioria das famílias quebrará o jejum este ano? Provavelmente será muito mais simples do que no passado: uma pequena refeição de arroz, enlatados ou qualquer verdura que possam comprar, em uma realidade econômica da qual Gaza ainda não se recuperou.

No primeiro dia do Ramadã, nosso primeiro prato será o maqluba palestino, a refeição tradicional que reúne a família em volta da mesa: arroz com berinjela ou batata e pedaços de frango ou carne, temperados com especiarias típicas palestinas.

Segundo o Ministério da Saúde local, mais de 72.000 palestinos foram mortos em Gaza desde o início dos combates em 7 de outubro de 2023, mas acredita-se que o número real seja maior devido às vítimas ainda presas sob os escombros. Esses números refletem a profunda dor e perdas sofridas pela população. Haverá lugares vazios nas mesas do iftar: um pai não chamará mais seus filhos para a mesa, um filho não desfrutará mais de uma refeição com sua família e uma mãe não preparará mais os pratos do Ramadã com suas mãos habilidosas como fazia no passado. Cada um daqueles números carrega histórias de perda e dor, lembrando-nos de que as guerras não apenas destroem as casas, mas também dilaceram o tecido familiar e comunitário, deixando cicatrizes psicológicas e sociais duradouras.

Os dias de destruição e luto terminaram, mas o espírito do Ramadã permanece vivo entre as pessoas.

Este mês nos lembra que, apesar de todas as perdas e os sofrimentos, há espaço para fé, para a esperança e a serenidade. As mesquitas podem ter sido destruídas e as casas devastadas, mas os corações não perderam a fé. Continuaremos a rezar as orações de Taraweeh em nossas casas e tendas, recitando nossas preces e lendo o Alcorão, buscando força na paciência e na certeza de que Deus nos recompensará por tudo o que suportamos.

Este Ramadã é uma prova de nossa resiliência e da capacidade de Gaza de preservar tradições e valores.

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