Francisco, Leão e a Igreja em transformação. Entrevista com Marco Politi

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16 Janeiro 2026

Para melhor compreender o pontificado do Papa Francisco e o início do pontificado do Papa Leão XIV, conversamos com um dos maiores especialistas em questões do Vaticano e dinâmicas internas da Igreja, o vaticanista Marco Politi, que já foi colaborador do La Repubblica e Il Fatto Quotidiano, e é autor de ensaios sobre a Igreja e os últimos papas.

A entrevista é de Stefano Zecchi, publicada por Rocca, 01-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Bom dia, Marco, como vai?

Obrigado, tudo bem.

Agradeço por aceitar esta entrevista para nossa revista quinzenal, que há mais de 84 anos é referência para todos aqueles – crentes, não crentes ou pessoas de diferentes crenças – que desejam compreender o mundo de hoje sem condicionamentos. Qual a sua opinião sobre a "Rocca"?

Conheço a Rocca há muitas décadas e sempre a achei extremamente estimulante, assim como os eventos que ela organiza na "Cittadella". Acredito que ainda hoje seja uma das forças motrizes do mundo católico, mesmo que o mundo católico tenha perdido sua relevância política e social, mas esse é um problema que também afeta toda a Europa: a relação entre católicos e sociedade. A Rocca em si é sempre uma força que impele para frente.

Recentemente escreveu um livro sobre o Papa Francisco, "A revolução inacabada", mas essa revolução realmente começou? E se começou, por que é inacabada?

Olhando para os últimos quinze anos, percebemos que o panorama eclesial mudou bastante. Basta pensar que, nos tempos de Ratzinger e João Paulo II, o Vaticano recusava sistematicamente até mesmo os pedidos de alguns bispos da Alemanha e de outros países que levantavam a questão da comunhão para divorciados e recasados. Hoje, ninguém mais se surpreende que divorciados e recasados possam receber a comunhão. Por outro lado, Francisco enfatizou que os sacramentos servem justamente para quem sofre, para quem é fraco, para quem necessita deles, para ser fortalecido; não servem para os perfeitos, disse ele. Vejamos a questão dos homossexuais. Ainda no pontificado de João Paulo II, Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, havia publicado um documento que afirmava, por um lado, que os homossexuais devem ser absolutamente respeitados na vida civil, não devem ser perseguidos e nenhuma atitude agressiva deve ser tomada em relação a eles.

Contudo, do ponto de vista da Igreja, o que eles faziam, sua vida de relações, era algo contra a natureza, algo imoral. Tudo isso foi arquivado pelo Papa Francisco, e não foi arquivado com novos documentos, porque Francisco em geral trabalhou com gestos, com palavras proferidas de improviso que, no entanto, respondiam a uma precisa arquitetura de pensamento. No caso dos divorciados e recasados, houve dois Sínodos que abordaram a questão da família, mas, no fim, não conseguiram, no documento final, explicitar se é possível a comunhão para divorciados e recasados após um processo de arrependimento. Foi Francisco quem, em seu documento pós-sinodal, se manifestou em uma pequena nota de rodapé sobre a possibilidade de acompanhá-los com os sacramentos. Em última análise, esse foi um pequeno truque para abrir uma brecha.

Será que essa revolução inacabada será implementada pelo Papa Prevost? Com esse papa, que, ao contrário do Papa Francisco, se mantém ausente das mídias de massa, da imprensa tradicional, apesar das suas intervenções muito incisivas e significativas, conseguiremos ter o diaconato para as mulheres, uma das questões mais espinhosas?

Gostaria de acrescentar que, entre os elementos de grande mudança que Francisco trouxe, como grande mudança inicial houve precisamente aquela de permitir a abertura de uma discussão sobre o diaconato para as mulheres. Ele criou uma comissão que resultou dividida, assim como dividido é o mundo católico, assim como divididos são os bispos... mas, ao mesmo tempo, Francisco é aquele que politicamente decidiu nomear mulheres para cargos-chave e de topo na Cúria Romana, algo sem precedentes. Ao mesmo tempo, nos dois últimos Sínodos, em 2023 e 2024, concedeu às mulheres o direito de voto e incluiu leigos e leigas como participantes no Sínodo. Havia mais de cinquenta mulheres como membros sinodais com direito a voto, e justamente nestes dias se celebram os 1700 anos do Concílio de Niceia, o primeiro concílio do cristianismo, e pela primeira vez após 1700 anos, as mulheres tiveram o direito de votar em um Sínodo.

Tudo isso é um primeiro passo para o reconhecimento do diaconato feminino e provavelmente no futuro um primeiro passo para o sacerdócio feminino, problemas que estão agora nas mãos de Leão. O Papa Prevost foi eleito em um conclave rápido, no qual foram derrotados os ultraconservadores que queriam retroceder. Mesmo após sua eleição, houve grupos conservadores que pediram explicitamente ao Papa para retornar sobre a questão dos divorciados e recasados ou sobre a bênção de casais do mesmo sexo, o Papa Leão XIV recusou-se a voltar atrás, e, dessa forma, a comunhão para divorciados e recasados permanece, assim como a bênção para os homossexuais. Sobre a questão do diaconato feminino, Prevost mantém no momento uma postura cautelosa. No entanto, no Vaticano, aprende-se sempre a ler com atenção as palavras que são proferidas e em seu primeiro livro-entrevista Leão XIV disse: "Por enquanto, não tenho intenção de mudar o ensinamento da Igreja". Há duas palavras importantes na frase: "por enquanto", que significa hoje, o que não significa que ele não o fará amanhã, e "não tenho intenção de mudar", o que significa que ele pode ter essa intenção se, é claro, tiver o apoio de uma maioria de bispos, fiéis e teólogos pressionando nessa direção.

As igrejas estão cada vez mais vazias, os jovens não as frequentam mais, a mensagem cristã não entusiasma mais... como vê o futuro da Igreja?

Aqui é preciso sermos bastante claros: os três últimos papas adotaram posições diferentes, seguiram linhas teológicas distintas e tiveram temperamentos diferentes, mas nenhum deles conseguiu estancar a grande crise da secularização que hoje assume um novo aspecto. Não se trata apenas de laicidade e pluralismo que estão se impondo na história das sociedades, mas também de uma tendência de saída das instituições, desde os sindicatos e os partidos políticos, da autoridade das escolas, da universidade e até mesmo das comunidades eclesiais tradicionais. Isso afeta todo o mundo protestante e ortodoxo. Hoje, os jovens podem ter um relacionamento com o papa se o papa for suficientemente forte do ponto de vista carismático e midiático, porém têm um relacionamento muito pequeno com a paróquia e ainda menor com a diocese ou o bispo. Precisamos considerar que as estatísticas mais recentes indicam que apenas 10% dos jovens entre 16 e 34 anos frequentam a missa, e a porcentagem acima dos 34 anos é só um pouco maior. Na França, apenas 3-4% dos católicos frequentam a missa, enquanto na Alemanha o número chega a 5-6%. Não é por acaso que Andrea Riccardi escreveu em um de seus livros: "A Igreja está em chamas". Essa é a realidade com a qual precisamos nos mensurar.

Em seu livro escreve: "O governo, formado por uma coalizão entre os Fratelli d’Itália de Giorgia Meloni, a Liga de Matteo Salvini e Forza Italia do falecido Silvio Berlusconi, sonha em barrar os barcos cheios de imigrantes, acena a bandeira da expulsão rápida de imigrantes ilegais e até evoca o espectro da substituição étnica". Mas, apesar das posições claras do Papa Francisco e do presidente da CEI, Zuppi, sobre o assunto, a maioria dos católicos vota nesse governo. Como explica?

Esse é um grande questionamento. Eu diria que um dos problemas da Igreja hoje é o fato de que sua doutrina social não encontra realização numa parcela significativa do laicato católico, precisamente de acordo com os números acima mencionados. Há uma divergência com a doutrina social da Igreja, que é uma doutrina muito avançada, uma doutrina que trata dos problemas contemporâneos, da imigração, da emigração até a inteligência artificial, um tema sobre o qual Francisco já havia se manifestado e sobre o qual o Papa Leão XIV pretende publicar um documento para garantir que essa grande revolução tecnológica tenha um sentido ético e respeite a dignidade humana. No entanto, também é verdade que muitos daqueles que se dizem crentes, que se dizem católicos, em seu cotidiano e em suas escolhas partidárias, parecem desconhecer ou não querer conhecer a doutrina social da Igreja. A eleição de Leão XIV demonstrou uma grande linha de continuidade entre Francisco e o Papa Prevost em relação aos temas sociais. Em sua primeira exortação apostólica, "Dilexi te", fala do amor a Deus e do amor aos pobres. Em suas declarações, o Papa Leão XIV, que é estadunidense, usou palavras claras contra a política repressiva de Trump em relação aos imigrantes ilegais que chegam aos Estados Unidos. Gostaria de citar apenas um exmplo. O Papa Leão disse que medidas cada vez mais desumanas estão sendo tomadas, até mesmo politicamente celebradas, e que estão sendo tratados como lixo. Portanto, temos um Papa que é muito claro sobre isso.

Mencionou o laicato católico, um laicato que atualmente está calado, ausentes e não faz sua voz ser ouvida dentro da Igreja e no debate político-cultural. Não acha que a "responsabilidade" por essa ausência seja do pontificado de João Paulo II e da presidência da CEI liderada pelo Cardeal Ruini?

Sem dúvida, a presidência da CEI do Cardeal Ruini foi uma presidência que silenciou o catolicismo democrático e também o catolicismo social progressista, mas também houve quinze anos de forte presença midiática do Papa Francisco que poderiam ter servido para revitalizar o laicato católico. A responsabilidade neste momento cabe apenas aos indivíduos, aos grupos, que evidentemente se deixam atrair pela grande onda populista. Também vimos populismo na França e na Inglaterra, onde segmentos da sociedade que antes eram orientados para esquerda ou extrema-esquerda agora se voltaram de repente para um soberanismo agressivo de direita. Até mesmo Trump, nos Estados Unidos, foi auxiliado em sua vitória pelo fato de que segmentos de sindicato tradicionalmente democrata se tornaram eleitores republicanos.

Uma última pergunta antes de nos despedirmos: quem é Jesus de Nazaré para você?

Um grande ponto de interrogação e um grande estímulo tanto para crentes quanto para não crentes.

Obrigado, Marco.

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