O destino malogrado das "jesuítas". Artigo de Paolo Mieli

Foto: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Às leitoras e aos leitores

    LER MAIS
  • Cosmovisão, cultura e território são peculiares a cada povo e não devem ser generalizados. Se algumas etnias foram colonizadas, outras resistem e lutam por sua autonomia, cultivando seus próprios sistemas jurídicos

    Os 115 povos originários colombianos: cosmologias diversas e pilares de vida para reconstruir o tecido social. Entrevista especial com Marcela Gutiérrez Quevedo

    LER MAIS
  • O país suspenso. Poder, desgaste e expectativa no Brasil que caminha em 2026. Artigo de Paulo Baía

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Janeiro 2026

Em um ensaio a ser publicado pela Laterza na sexta-feira, dia 16, Flaminia Morandi investiga as razões que levaram o fundador a excluir a componente feminina das fileiras da Companhia de Jesus.

O artigo é de Paolo Mieli, escritor italiano, publicado por Corriere della Sera,13-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Uma escolha, suas origens, suas consequências

Nas histórias da Companhia fundada por Inácio de Loyola em 1534 (e reconhecida pela Igreja em 1540), só sobrou o vestígio de uma mulher em suas fileiras. Uma única "jesuíta", como Flaminia Morandi a define em Ignazio di Loyola: La storia mai raccontata (Inácio de Loyola: a história nunca contada, disponível a partir de 16 de janeiro pela Laterza.) Ela é Joana, Juana (1535-1573), Infanta da Espanha e Arquiduquesa da Áustria, filha de Carlos V de Habsburgo e Isabel de Avis.

Sua mãe havia falecido quando ela tinha quatro anos. Seu pai a havia confiado, juntamente com seus irmãos, aos cuidados de Leonor Mascarenhas, "uma das amigas mais fiéis de Inácio", que a educou no culto da Companhia de Jesus. Ainda muito jovem, casou-se, por decisão de seu pai, com João Manuel de Portugal, filho do rei João III e Catarina de Habsburgo. João Manuel era dois anos mais novo que ela e tinha sérios problemas de saúde. Para compreender plenamente tais "estratégias matrimoniais" do imperador Habsburgo, bem como para aprofundar muitos aspectos dessa história, é interessante consultar dois livros: Carlo V, de Karl Brandi (Einaudi), e Il secolo d’oro spagnolo, de Bartolomé Bennassar (Rizzoli). O casamento de Joana foi breve, durando apenas o suficiente para dar à luz um filho. Um filho que João Manuel — que morreu antes de completar dezoito anos — nunca chegou a conhecer. Sebastião, o filho de Joana, estava destinado a se tornar rei de Portugal. Mas sua mãe, após a morte do marido, o tinha abandonado, confiando-o, aos três meses, aos cuidados de sua sogra, a rainha Catarina. Para nunca mais e rever. Joana tomou aquela decisão porque foi chamada pelo pai para ser regente do país onde nascera.

Foi, escreve Morandi, uma regente "determinada, madura e autoritária". Uma "personagem complexa e intimidadora, por vezes instável". Encontrou "equilíbrio e uma oportunidade de crescimento na companhia de seu diretor de consciência, Francisco Borgia, um jesuíta in pectore". Após esse encontro — mas talvez até antes, como resultado da educação que recebeu de Leonor Mascarenhas — sua maior aspiração se tornara a de ingressar na ordem jesuíta. Isso também para evitar outros possíveis casamentos, decididos — como o anterior — por seu pai.

Inácio de Loyola, que já havia recusado outras mulheres atraídas pela perspectiva de serem admitidas na Companhia de Jesus, também pretendia dizer não a Joana. Mas, ao mesmo tempo, não podia contrariar um desejo da família imperial. E cedeu. Mas com a condição de que ninguém, exceto pouquíssimas pessoas, jamais soubessem de sua rendição.

Joana foi admitida na Companhia de Jesus, escreve Morandi, "em caráter experimental, sob sigilo e com o pseudônimo masculino de Mateus Sanchez". O mesmo "pelo qual seria referida nas cartas entre os jesuítas". Ela também será chamada, às vezes, de "Montoya". Abraçou as causas dos jesuítas sem que jamais fosse revelada sua filiação à ordem. Em diversas ocasiões, foi "muito útil" à Companhia. Em 1557, fundou um mosteiro de Clarissas Descalças, batizadas pelo povo como "las descalzas reales".

Mas essa não é a "história jamais contada" mencionada no subtítulo do livro de Flaminia Morandi. O verdadeiro tema do ensaio é tentar compreender por que Inácio, apesar da importância que as mulheres (a começar pela esposa de seu irmão, Madalena de Araoz, já dama de companhia da rainha Isabel e Maria de Santo Domingo, com quem tivera conversas espirituais muito "esclarecedoras"), tiveram em sua formação humana e religiosa. As mulheres — como dizíamos — foram depois excluídas, com grande obstinação, pela Companhia de Jesus. Por que, pergunta Morandi, justamente ele, que demonstrara na prática sua profunda estima pelas mulheres, depois não as quis na instituição que fundara? Por que foi tão firme nessa decisão, apesar de "Inácio ter testado seus Exercícios Espirituais precisamente com as mulheres"? E apesar da opinião mais flexível de seu braço direito, Antonio Araoz?

Nem mesmo o jesuíta Hugo Rahner — em Ignazio di Loyola e le donne del suo tempo (Edizioni Paoline) — que estudou as cento e trinta e nove cartas (oitenta e nove escritas por ele e cinquenta recebidas) trocadas pelo fundador da Companhia de Jesus com princesas, damas, benfeitoras, filhas espirituais, amigas e mães de jesuítas — nem mesmo Rahner, como dizíamos, ofereceu uma resposta a essas perguntas. Aliás, ele nem sequer levantou a questão. O mesmo se aplica a Guido Sommavilla, que há algumas décadas escreveu — com prefácio de Carlo Maria MartiniLa compagnia di Gesù. Da sant’Ignazio a oggi (Rizzoli). E Ricardo García-Villoslada apenas mencionou a questão em Sant’Ignazio di Loyola. Una nuova biografia (Edizioni San Paolo).

Talvez porque, como a própria Morandi admite em certo sentido, é impossível fornecer uma resposta unívoca e definitiva. O que é certo é que Inácio chegou a convencer até mesmo o hesitante Papa Paulo III, aliás favorável, a incluir uma proibição explícita à admissão de mulheres na Constituição da Companhia. A única pessoa a ter abordado a questão até o momento — antes de Morandi — foi Claudio Ferlan em I gesuiti (Il Mulino). Segundo Ferlan, Inácio sempre se opôs à ideia de acolher mulheres na Companhia. Mas essa convicção foi reforçada pela iniciativa de Isabel Roser, que, tendo ficado viúva em 1542, renunciou aos seus bens e, com a permissão de Paulo III, fez solene profissão de existência monástica juntamente com sua criada, Francisca Cruyelles, e uma amiga, Lucrécia Bradine (ou de Biadene). Inácio, reconstrói Ferlan, naquela ocasião "obedeceu à vontade pontifícia". E enviou as mulheres para a Casa de Santa Marta, um abrigo para prostitutas que haviam decidido mudar de vida, fundado pelo próprio Inácio. No Natal de 1545, Roser, Cruyelles e Bradine professaram seus votos.

Em maio do ano seguinte, porém, Isabel Roser, que podia contar com o apoio de Margarida da Áustria, manifestou sua intenção de retornar à Espanha como “jesuíta”. Pouco depois, chegou a solicitação de Sebastiana Exarch para ser admitida à comunidade. Em seguida, veio a da duquesa Juana de Cardona. Depois foi a vez de Juana de Meneses, irmã da vice-rainha da Catalunha, Leonor Borgia, esposa do duque Francisco, vice-rei. De Portugal, a nobre Guiomar Coutinho seguiu na mesma direção (talvez encorajada pelo padre Araoz). E muitas outras também. Em 1547, parecia que o movimento de aspirantes a jesuítas havia rompido as eclusas. Naquele verão, Inácio, muito alarmado, falou disso com o cardeal Niccolò Ardinghelli, que relatou o ocorrido ao Papa, que então mudou de ideia sobre a situação. E concordou com Loyola sobre a inapropriedade para a Companhia de manter mulheres sob obediência. Mais ainda — o Pontífice sentenciou de uma vez por todas — que essa questão nunca mais deveria ser reproposta.

A mudança de opinião do Papa foi influenciada por um passo em falso de Isabel Roser, que, sentindo-se segura, começou a questionar o destino do dinheiro que ela mesma havia destinado à Igreja. Ao mesmo tempo, manifestou intenções de comando que contradiziam as anteriores declarações de submissão. Inácio, com delicadeza (mas com firmeza), obteve autorização pontifícia para "liberar dos votos" Roses, Cruyelles e Bradine. Em 1549, Isabel Roser retornou a Barcelona, onde ingressou no convento franciscano de Santa Maria de Jerusalém e manteve uma correspondência com Inácio da qual não transpareceu nenhum tipo de ressentimento.

Loyola foi tão habilidoso que fez o desfecho daquela situação parecer completamente natural. A partir daquele momento, as portas da Companhia de Jesus permaneceram definitivamente fechadas para as mulheres. Também no século seguinte, porém, houve mulheres que aspiraram a se tornar jesuítas. Em 1609-1610, cinquenta e três anos após a morte de Inácio, conta Morandi, uma inglesa de origem nobre, Mary Ward, fundou em Saint-Omer, na época nos Países Baixos espanhóis (atual Pas-de-Calais, na França) - inspirando-se nas Constituições da Companhia de Jesus -, o Instituto da Beata Virgem Maria. Também conhecido como o Instituto das "Damas Inglesas".

Claudio Ferlan tratou desse caso em I Gesuiti, destacando como a proximidade com a Inglaterra fazia de Saint-Omer um local de refúgio ideal para os católicos que chegavam do outro lado do Canal da Mancha. Em Saint-Omer, Ward conheceu Roger Lee (1568-1615), um jesuíta que ensinava no colégio local da Companhia, "esse também organizado”, escreve Ferlan, “para oferecer abrigo aos católicos ingleses exilados no continente”. As escolas jesuítas, contudo, ofereciam educação apenas para meninos. Mary fez um voto de obediência ao Padre Lee, seu futuro diretor espiritual, e decidiu fundar, como já foi dito, “um instituto inspirado nas regras e na espiritualidade inacianas, destinado à educação de meninas católicas”. Para a fundação de novas famílias religiosas, recorda Ferlan, três requisitos eram necessários: o apoio de clérigos do sexo masculino; o exercício “da piedade sem pretensões de poder”; e a posição social. Quanto ao primeiro, nada podia ser feito. Tendo buscado o apoio da Companhia de Jesus, Ward recebeu uma dura recusa de Claudio Acquaviva (1543-1615, geral dos jesuítas a partir de 1581). Lee, que muito provavelmente havia incentivado a iniciativa, foi expulso da França e morreu enquanto aguardava o embarque para a Inglaterra.

Mary Ward buscou a aprovação de seu instituto junto a três papas. Em 1616, Paulo V concedeu um "decreto de louvor", deixando aberta, escreve Morandi, "a esperança de uma aprovação". Mas os pedidos de Mary Ward a Gregório XV e Urbano VIII ficaram sem resposta por muito tempo. Até que Urbano VIII quebrou o silêncio em 1631 e emitiu uma duríssima bula papal decretando a supressão das "Damas Inglesas". Mary Ward, suspeita de heresia, foi presa e teve sua libertação oferecida somente mediante a assinatura de um documento reconhecendo os "pecados cometidos contra a Igreja". Coisa que ela recusou. Para evitar demasiada repercussão ao caso, foi posteriormente libertada, mas com a obrigação de permanecer em Roma até o processo. Em 1637, obteve permissão para retornar à Inglaterra, onde morreu em 1645 durante a guerra civil. Enquanto isso, grupos de Damas Inglesas haviam se formado nas Flandres, Áustria, Baviera e Itália (em Nápoles e Perugia).

As Damas Inglesas receberam uma aprovação parcial de Clemente XI em 1703: na realidade, foram aceitas as regras, mas não a instituição. Apenas três séculos depois, em 2003, a Santa Sé emitiu um decreto permitindo ao instituto fundado por Mary Ward a adoção e uso oficial do nome Congregatio Iesu e "a aprovação das Constituições de acordo com a espiritualidade e o modo de vida propostos por Inácio de Loyola". Mas por que aquela obstinada recusa no século XVII?

Segundo Ferlan, a razão para essa aversão devia-se principalmente à necessidade dos jesuítas de não arriscarem sua reputação em relação à promessa de castidade. De fato, a proclamada abstinência sexual distinguia o clero católico do protestante e "contribuía em grande medida a definir sua autoridade perante os fiéis". Era preciso, portanto, ter cuidado — dadas as frequentes violações que haviam levado o Concílio de Trento a intervir detalhadamente sobre o assunto, e a persistência do crime de "sollicitatio ad turpia" (a situação de direito canônico que se refere ao caso em que um clérigo se aproveita da confissão para induzir o/a penitente a algum tipo de prática sexual) — para evitar abrir brechas, quando não uma porta, que pudessem macular a imagem dos jesuítas. Não por acaso, acrescenta Ferlan, que as vozes mais severas em relação as companheiras de Mary Ward as definiam como "moças levianas" e "freiras vagabundas". E tudo terminou aí.

Flaminia Morandi, no entanto, está convencida de que a história das "jesuítas" não terminou com aquelas tentativas e algumas outras que ocorreram posteriormente. A flexibilidade das Constituições inacianas, a "inculturação" da qual a Companhia foi e é mestra, "sua sabedoria em se adaptar a toda cultura, época e situação" poderiam reservar "algumas surpresas". Uma hipótese convincente.

Leia mais