15 Janeiro 2026
"O caminho para o silêncio passa pelo confronto com nossos próprios lados escuros, nossas próprias emoções e paixões. O propósito do silêncio é descobrir o espaço interior de silêncio dentro de nós, esse espaço sagrado afastado do mundo. Evágrio chama esse espaço de 'lugar de Deus'. Nesse espaço sagrado de silêncio, onde Deus habita em nós, estamos livres das expectativas e julgamentos alheios", escreve Anselm Grün, monge beneditino alemão, em artigo publicado por La Stampa, 14-01-2026.
O texto do monge beneditino bávaro, especialista em meditação e contemplação, faz parte da última edição da revista “Vita e pensiero”.
Eis o artigo.
Ao longo dos últimos cinquenta anos, muitos cristãos voltaram sua atenção para a espiritualidade oriental. Experimentaram a meditação Zen ou outras práticas budistas ou hindus. O motivo era que a espiritualidade cristã lhes parecia, por um lado, moralizadora demais e, por outro, racional demais. E, sobretudo, dominada pela palavra. Muitos cristãos, portanto, encontraram benefícios no silêncio puro, como o praticado, por exemplo, na meditação Zen. Outros, porém, que tinham dificuldade em imaginar Deus como uma pessoa, consideraram promissora a imagem impessoal do divino, típica do budismo.
A espiritualidade cristã certamente pode se beneficiar do diálogo com a espiritualidade oriental. No entanto, é necessário hoje descrever a espiritualidade do cristianismo em sua especificidade, para torná-la atraente até mesmo para aqueles que vivem no mundo atual. Hoje, não basta mais descrever o percurso espiritual de forma puramente racional.
As pessoas anseiam por uma experiência espiritual. Portanto, uma espiritualidade em sintonia com os nossos tempos só pode ser de tipo místico. Karl Rahner expressou esse conceito quando afirmava: "O devoto de amanhã será um místico, isto é, alguém que experimentou algo, ou não será". Com o termo "místico", Rahner se refere a uma pessoa que teve experiência de Deus. Hoje, não é mais suficiente apenas falar de Deus. As pessoas anseiam por experimentá-Lo, senti-Lo, vivê-Lo. E justamente nisso que consiste a essência da espiritualidade cristã, ter uma experiência de Deus.
O caminho para o silêncio
Para os primeiros monges, o silêncio era o principal caminho para Deus. Ainda hoje, muitos anseiam pelo silêncio. Ao mesmo tempo, porém, o temem. No silêncio, de fato, muitas vezes afloram pensamentos e sentimentos desagradáveis. Para os primeiros monges, o silêncio também era um caminho para o verdadeiro autoconhecimento. Evágrio Pôntico (345-399), com uma postura quase de psicólogo entre os primeiros monges, afirmava: "Se você quer conhecer a Deus, primeiro aprenda a conhecer a si mesmo". Sem o conhecimento de si mesmo, corremos o risco de projetar nele apenas nossas necessidades infantis.
O caminho para o silêncio passa pelo confronto com nossos próprios lados escuros, nossas próprias emoções e paixões. O propósito do silêncio é descobrir o espaço interior de silêncio dentro de nós, esse espaço sagrado afastado do mundo. Evágrio chama esse espaço de "lugar de Deus". Nesse espaço sagrado de silêncio, onde Deus habita em nós, estamos livres das expectativas e julgamentos alheios. (...)
O caminho para esse espaço sagrado interior, contudo, passa pelo encontro com nossa própria verdade. Jesus expressou isso na parábola do tesouro escondido no campo (Mt 13,44). O tesouro é o verdadeiro eu, esse espaço sagrado que se encontra nas profundezas de nossa alma. Mas só o alcançamos se cavarmos a terra, se sujarmos as mãos e, penetrando em nossas próprias máculas, atingirmos o fundo de nossa alma. O propósito do silêncio é o mesmo tanto nas religiões orientais quanto no cristianismo: tornar-se um com Deus.
Contudo, o caminho cristão passa por uma leitura meditativa da Bíblia, na qual as palavras são saboreadas sem refletir sobre elas, mas permitindo que penetrem profundamente em nós mesmos, até sermos conduzidos ao nosso próprio espaço interior de silêncio. Os monges chamam esse processo de "contemplação".
A imagem de Deus
Nós, cristãos, cremos em um Deus pessoal. No entanto, em nosso diálogo com a espiritualidade oriental, aprendemos que Deus sempre possui características tanto pessoais quanto suprapessoais. Há fases em nossas vidas nas quais o encontro com o Deus pessoal é fundamental. Mas, a partir da idade adulta, também se apresentam fases em que encontramos Deus como amor, energia e liberdade.
Diferentemente da espiritualidade oriental, porém, nós permanecemos sempre fiéis ao Deus pessoal. E, no entanto, não devemos imaginar Deus como uma pessoa humana. Karl Rahner fala de Deus como um mistério indescritível. Em sua opinião, porém, podemos nos dirigir a esse mistério indescritível com o "tu".
Quando lemos a Bíblia, encontramos nas palavras das Escrituras o próprio Deus, que se dirige a nós em primeira pessoa. Pela psicologia, sabemos que a imagem de Deus está sempre correlacionada com a imagem de nós mesmos. (...) Essa também é uma diferença do caminho da meditação oriental, que visa alcançar o vazio interior. O objetivo da meditação cristã, ao contrário, é perceber o espaço interior do amor. (...)
O diálogo com a psicologia
Hoje percebemos que a espiritualidade nem sempre consegue se transforma em uma bênção. Existe também uma espiritualidade patológica e uma forma de escapismo espiritual que deságua na grandiosidade.
Alguns usam a espiritualidade para se colocarem acima dos outros e se sentirem especiais. Por isso, a espiritualidade requer um bom diálogo com a psicologia. No que me diz respeito, meu encontro com a psicologia de Jung foi de grande ajuda. Mostrou-me que a espiritualidade não é algo distante ou alheio ao mundo, mas um caminho para alcançar uma vida plena. E isso está em consonância com a sabedoria da alma.
Segundo Jung, aqueles que se opõem à sabedoria da alma com argumentos puramente racionais tornam-se inquietos, agitados e neuróticos. Não se trata de reduzir a espiritualidade a psicologia. A espiritualidade, em última análise, trata da transformação do homem para que ele possa encontrar seu verdadeiro eu no encontro com Deus. A psicologia, no entanto, nos ajuda a reconhecer com sinceridade todos os nossos lados escuros.
A espiritualidade é, portanto, o caminho para manter, no encontro com Deus, tudo o que a psicologia nos revela. De fato, apenas aquilo que aceitamos pode ser transformado. Alguns se servem de Deus como um mago que deveria libertá-los do medo e da depressão, de preferência de maneira indolor. Mas a cura acontece sempre no encontro. E o encontro com Deus requer, antes de tudo, o encontro sincero consigo mesmos. (...) Uma espiritualidade cristã para os dias de hoje deve ser nutrida pela sabedoria da tradição cristã. Praticar rituais antigos, contudo, não significa ater-se de modo conservador às tradições antigas.
Pelo contrário, esses rituais devem sempre ser interpretados de modo que cada pessoa possa senti-los como seus e como meios para sua própria transformação, para a descoberta de sua singularidade e dignidade. A espiritualidade cristã se expressa não apenas nos rituais eclesiásticos, mas sobretudo naqueles pessoais. Os rituais criam um tempo sagrado. E esse tempo, retirado do mundo, é sagrado. No tempo sagrado, tenho a sensação de que sou eu quem vive, ao invés de ser vivido. Os gregos afirmavam que praticamos rituais porque nossa vida é uma festa.
Não se trata, portanto, de realizar uma performance. Deus não precisa de nossos rituais. Mas, como afirma Jung, os rituais têm um efeito curativo sobre nós. E, segundo a crença dos antigos gregos, eles nos mostram a dignidade da nossa vida. Nossa vida é uma festa, não primordialmente o cumprimento de um dever, como Kant a via. É por isso que a espiritualidade cristã é permeada por leveza, beleza e liberdade.
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