15 Janeiro 2026
A utopia é necessária para nos orientar? E, se for, como continuar imaginando um futuro que melhore o presente quando o presente parece à deriva?
O artigo é de Carlos Buj, educador ambiental e ativista da organização Ecologists in Action, fundador da Casa Algaia, publicado por El Salto, 07-01-2025.
Eis o artigo.
Entre aqueles de nós que estão conscientes das dinâmicas destrutivas que atuam no planeta — ecológica, cultural, política, militar — compartilha-se uma sensação: a de que uma corrente poderosa nos arrasta em direção ao abismo. Enquanto nos agarramos às plantas da margem, imaginar como a humanidade poderia se organizar melhor não é tarefa fácil.
Aqueles que, há alguns anos, gritávamos com entusiasmo "outro mundo é possível!", agora tememos que, efetivamente, outro mundo — muito pior — seja possível. Adotamos uma atitude conservadora, tentando proteger algumas noções que acreditávamos consolidadas: que ninguém vale mais do que ninguém, que a justiça social é desejável, que ninguém está acima da lei. Que os países deveriam cooperar para enfrentar os problemas globais, porque, se cada um puxar para o seu lado, todos acabam pior. Estamos jogando mal o "dilema do prisioneiro" e, previsivelmente, nos deparamos com a "tragédia dos comuns".
No entanto, o desânimo não deve prevalecer. Apesar de muitas coisas já estarem perdidas, e outras virtualmente perdidas pela inércia que carregamos, o futuro não está escrito: a história é generosa em surpresas e reviravoltas.
Por mais tentador que seja fazer o scroll infinito até a náusea ou nos entregarmos ao hedonismo efêmero que o presente nos propõe sem cessar, podemos nos propor a olhar a realidade em toda a sua crueza e, ao mesmo tempo, nos permitir entusiasmar com tudo o que ainda é possível.
Talvez o mais necessário hoje não seja estender uma faixa em uma usina nuclear, pichar um jato ou empunhar um fuzil, mas simplesmente acreditar que outro mundo melhor poderia estar próximo. Acreditar no que escreveu a escritora indiana Arundhati Roy não é tolice: "Outro mundo não apenas é possível, mas está a caminho. Em um dia tranquilo, posso ouvi-lo respirar". E, nisso, não devemos nos conformar com o tecnossolucionismo, nem com um duvidoso "Green New Deal". Isso seria entrar em campo para empatar. Não aspirar a mais do que remendar um sistema em decomposição.
Para passar à ofensiva — se me permitem a metáfora — quando nos situamos contra a corrente, não é preciso nadar mais rápido. Na verdade, perderíamos o fôlego logo em seguida. Talvez o mais sensato seja parar por um instante, sacudir a ansiedade de deixar de "fazer, fazer, fazer", ainda que seja por um momento...
Com esse tempo valioso, podemos imaginar como as coisas poderiam ser de outra maneira. Porque, se não formos capazes de imaginá-las, não poderemos evocá-las, nem carregá-las de emoção, nem, portanto, fazê-las realidade. Com pressa e de modo alucinado não vamos mudar o mundo; além disso, certamente reproduziremos inconscientemente os padrões do próprio sistema que queremos mudar.
Imaginá-las, no entanto, embora necessário, não é suficiente. Para que esses horizontes funcionem, eles devem parecer alcançáveis. Nosso trabalho coletivo consiste em fazer com que o desejável deixe de parecer absurdo, passe a ser possível, depois plausível e, finalmente, provável. É o que mostra o conhecido "cone de futuros".
Como na física quântica, no mundo social a observação modifica o observado. Se percebermos a Renda Básica Universal, o transporte público gratuito ou as assembleias cidadãs como algo ao nosso alcance, nos levantaremos do sofá para buscá-las. Se as virmos como distantes ou impossíveis, uma rápida análise de custo-benefício nos levará à resignação. Raciocínios como "pelo pouco tempo que me resta" ou "no fim, nada do que fizermos servirá para nada além de nos sentirmos pior" servem como álibis para validar essa resignação. Sentir que podemos e devemos nos envolver em mudar as coisas pode ser difícil, mas também pode dar sentido às nossas vidas e nutri-las de cor.
Já é visível ao nosso redor a paulatina decomposição da narrativa que sustentou as "democracias ocidentais", segundo a qual existem regras de jogo razoáveis e que o sistema é capaz de resolver os problemas que enfrentamos. Esse vazio é um rio revolto onde pescam caçadores de incautos, que exploram o medo para obter poder ou que, como novos senhores feudais, se amparam na fé tecnológica, nossa religião moderna. Narrativas conspiratórias, que sempre existiram, crescem neste contexto.
Um ordenamento (ou desordenamento, dependendo do ponto de vista) radicalmente novo está em gestação. E pode ser uma boa notícia ou não, dependendo do futuro que construirmos ou permitirmos emergir.
Esse espaço, esse horizonte de possibilidade, pode e deve ser aproveitado por aqueles que compartilham ao menos uma ideia em comum: atender às necessidades humanas dentro dos limites do planeta e dispor de abundância de tempo para cultivar nossos vínculos mais preciosos e nosso próprio ser.
Algumas pessoas já se empenham nessa tarefa, mas não no sentido desejável. Cenários que antes pareciam absurdos — como a perda do voto feminino — tornam-se hoje plausíveis graças a figuras como Peter Thiel. Outros, como a colonização de Marte, continuam tão delirantes como sempre, mas ganham verossimilhança midiática.
A lanterna do imaginário coletivo deslocou-se com força para a direita na última década, embora suas raízes ainda sejam frágeis. As promessas com que conquistaram novas adesões não parecem se cumprir, e o poder da extrema direita é mais frágil do que aparenta. Steve Bannon, guru do trumpismo, dizia isso sem rodeios: "É necessário tomar as instituições antes de perder as eleições; poderia ser nossa última oportunidade de nos mantermos no poder".
Resumindo: estamos perdendo, mas o jogo continua. O futuro, como a chuva, sempre volta. Convém plantar boas sementes que, embora não brotem imediatamente, poderão fazê-lo após um aguaceiro. E tempestades, temos tremendas no horizonte.
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