12 Janeiro 2026
- “Não seja assim entre vós” (Mt 20,26). Toda autoridade que se legitima a si mesma sem referência ao serviço contradiz diretamente o Nazareno.
O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, teólogo, publicado por Religión Digital, 11-01-2026.
Eis o artigo.
As recentes declarações do cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, evidenciam novamente uma concepção de Igreja centrada no controle, na hierarquia sacralizada e no medo da participação, apresentada retoricamente como defesa da verdade e da Tradição. No entanto, sob esse apelo à “clareza doutrinária”, percebe-se uma deriva autoritária que corre o risco de trair o Evangelho que deseja custodiar.
Müller insiste que a Igreja não é uma democracia, afirmação que, em sentido estrito, está correta: a Igreja não nasce de um contrato social nem se funda na vontade das maiorias. Sua origem é teológica, não política. Mas o problema não reside aí. O problema surge quando esta verdade é utilizada como coartada ideológica para justificar uma Igreja vertical, clericalizada e pouco evangélica, onde a autoridade é exercida como domínio e não como serviço.
Que a Igreja não seja uma democracia liberal não significa que deva funcionar como uma monarquia absolutista sacralizada. Essa identificação entre autoridade e poder vertical não procede do Evangelho, mas de uma assimilação histórica de modelos imperiais que a Igreja herdou e, posteriormente, teologizou. Jesus não fundou uma estrutura de poder, mas uma comunidade fraterna, e foi explícito: “Não seja assim entre vós” (Mt 20,26). Toda autoridade que se legitima a si mesma sem referência ao serviço contradiz diretamente o Nazareno.
A sinodalidade, que Müller observa com receio, não é uma invenção sociológica nem uma ameaça ao depósito da fé. É, na realidade, uma recuperação tardia de uma intuição evangélica e conciliar: a de que o Espírito Santo não fala apenas através de uma elite clerical, mas através de todo o Povo de Deus. Reduzir a sinodalidade a um risco de confusão é confundir unidade com uniformidade e comunhão com obediência cega.
Aqui, o Vaticano II torna-se decisivo, sendo sistematicamente invocado e, ao mesmo tempo, neutralizado. O Concílio definiu a Igreja, antes de hierarquia, como Povo de Deus (Lumen Gentium, cap. II). Isso não é uma fórmula piedosa, mas uma mudança estrutural do sujeito eclesial. A Igreja não é primeiro a hierarquia que ensina e depois os fiéis que obedecem; é uma comunidade de batizados onde todos participam, de modo diverso, da missão de Cristo.
Um dos aspectos mais revolucionários — e mais incômodos — desta eclesiologia é a recuperação do sacerdócio comum dos fiéis. O Concílio afirma com clareza que todos os batizados participam do sacerdócio de Cristo, retomando diretamente a Escritura: “Vós sois linhagem escolhida, sacerdócio real” (1 Pe 2,9). Isso significa algo muito concreto: não existe uma casta sagrada que monopolize a mediação com Deus. Todo batizado é sujeito ativo da fé, da missão e do discernimento eclesial.
No entanto, na prática, este sacerdócio batismal foi esvaziado de conteúdo real, enquanto o poder efetivo segue concentrado no clero. Proclama-se a igualdade fundamental, mas mantém-se uma estrutura profundamente desigual. Assim, o sacerdócio ministerial — que deveria estar a serviço do sacerdócio comum — torna-se um estamento superior, com prerrogativas que pouco têm a ver com o Evangelho.
Quando Müller defende com veemência a distinção hierárquica sem insistir com a mesma força em seu caráter servil, reforça uma eclesiologia clerical que o próprio Vaticano II quis superar. O ministério ordenado não existe para dominar, mas para animar, coordenar e acompanhar. Quando se absolutiza sua diferença ontológica e se silencia sua finalidade pastoral, a Igreja se afasta perigosamente do estilo de Jesus.
Mais preocupante ainda é seu diagnóstico da crise eclesial como um problema quase exclusivamente doutrinário. Esta leitura é profundamente reducionista. A Igreja não perde credibilidade porque alguns questionam formulações dogmáticas, mas porque muitos crentes experimentam uma instituição que não liberta, mas submete; que não escuta, mas impõe. A crise não é apenas de ideias, mas de práticas, de poder e de humanidade.
O fundamentalismo teológico que se esconde sob o discurso da segurança doutrinária gera guetos eclesiais, bunkers ideológicos a partir dos quais se observa o mundo com desconfiança. Dali, alguns se percebem como guardiões exclusivos da verdade, convencidos de que devem salvar a honra de Deus inclusive contra a história e contra as pessoas. Mas um Deus que precisa ser defendido à custa da liberdade humana não é o Deus de Jesus.
Quando a verdade é decretada em vez de proposta, quando a fé exige a renúncia à razão, quando a obediência suplanta o discernimento, o Evangelho converte-se em anti-evangelho: má notícia do medo, da culpa e do controle. Não se pode ordenar a verdade, nem mesmo a religiosa. A verdade cristã só pode ser acolhida livremente, em diálogo com a razão e a experiência vital.
O apelo constante de Müller à Tradição corre, além disso, o risco de convertê-la em um objeto estático. A Tradição não é repetição, mas transmissão viva. Negar sua dimensão histórica é empobrecê-la. Apegar-se a formulações passadas como se fossem intocáveis não é fidelidade, mas medo do Espírito, que continua atuando além dos nossos esquemas.
Neste contexto, não se pode evitar uma questão profundamente simbólica e reveladora: a sacralização da aparência clerical. Jesus advertiu explicitamente contra os fariseus e doutores da lei que “gostavam de circular com longas túnicas” e buscavam reconhecimento público através de sinais externos de prestígio religioso (Mc 12,38). Não era uma observação estética, mas uma denúncia frontal do uso do sagrado como instrumento de vaidade e poder.
Desta perspectiva, o teólogo Eugen Drewermann leva uma questão tão incômoda quanto necessária: que relação real existe entre a proximidade radical de Jesus com as pessoas simples e a persistência de uma indumentária clerical extravagante, convertida em sinal visível de status, autoridade e separação perante o resto dos batizados? Que imagem de Deus se transmite quando a vestimenta religiosa funciona como marca de superioridade simbólica e não como expressão de serviço?
A questão adquire um caráter ainda mais crítico quando se recorda o gesto fundacional de São Francisco de Assis. Como sublinha Drewermann, há cerca de oitocentos anos, Francisco despojou-se publicamente das roupas elegantes que seu pai lhe dera para vestir-se como um camponês, rompendo conscientemente com toda lógica de honra, prestígio e poder religioso. Aquele gesto não foi romantismo espiritual, mas uma acusação profética contra a vaidade sacralizada.
Por isso, adverte Drewermann, converter hoje essa renúncia no seu contrário, transformando o hábito ou a vestimenta clerical em sinal distintivo de dignidade superior, não é uma simples incoerência histórica, mas uma tergiversação monstruosa do Evangelho. O que nasceu como sinal de pobreza e proximidade tornou-se um emblema de autoridade, presunção e separação, revelando até que ponto o ser humano é capaz de perverter até as intuições mais simples e evangélicas dos santos.
Este fenômeno não é anedótico nem superficial. É profundamente teológico. Quando o hábito deixa de ser sinal de humildade e se transforma em insígnia de poder, ocorre uma dessacralização do sagrado: a fé já não remete a Deus, mas ao status de quem a ostenta. A religião deixa de humanizar e começa a oprimir simbolicamente.
Em suma, o discurso do cardeal Müller promete segurança, mas ao preço da liberdade; defende a verdade, mas esquece o amor; protege a instituição, mas negligencia as pessoas. E quando a Igreja esquece que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado, deixa de ser sacramento de salvação para tornar-se um sistema de dominação religiosa.
Talvez, como sugere Drewermann, a crise mais profunda da Igreja não seja doutrinária nem organizativa, mas evangélica. E a pergunta decisiva não seja como preservar a autoridade, mas esta: o que resta hoje do Jesus que denunciou os religiosos amantes das longas túnicas e escolheu o caminho do despojamento, da proximidade e da liberdade?
Enquanto essa pergunta não for levada a sério, todo apelo à “clareza doutrinária” continuará correndo o risco de se tornar uma justificativa religiosa para aquilo que o próprio Jesus denunciou com maior severidade.
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