Hipocrisia, não misericórdia. Artigo de Enzo Bianchi

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21 Novembro 2025

"Os abusos sexuais de menores devem, certamente, ser punidos pela lei canônica e civil, e os culpados por tais crimes devem ser punidos, mas até o pecador mais infernal tem acesso à misericórdia de Deus, que se faz carne e se torna práxis na Igreja", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por Il Blog di Enzo Bianchi, 16-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A misericórdia nunca foi pregada como nos últimos tempos, e não nos esqueçamos de que o Papa Francisco escolheu dedicar um ano inteiro à contemplação do mistério da inexaurível misericórdia de Deus. No entanto, minha leitura atenta da vida eclesial leva-me a dizer que, na verdade, hoje em dia, com muita frequência, domina o exercício de uma justiça farisaica, de atitudes hipócritas que afligem todo o corpo eclesial, bispos, sacerdotes, mas também as comunidades cristãs. A misericórdia do Senhor é frequentemente citada, os ensinamentos dados por Jesus sobre ela por meio de parábolas e encontros com pecadores são relembrados, mas a misericórdia não é aplicada. Não estou dizendo que o perdão não seja facilmente concedido àqueles que nos ofenderam pessoalmente, mas não se aceita que aqueles que pecaram, depois de cumprirem sua pena e demonstrarem sinais de conversão, sejam considerados capazes de uma nova vida e, portanto, não sejam considerados imperdoáveis.

Muitos bispos, especialmente por medo da opinião pública e da mídia, diante de crimes como os abusos sexuais, adotam posições de absoluta rigidez, muitas vezes condenam impiedosamente seus padres, e em vez de pensar em itinerários de cura que ajudem o culpado em direção à redenção, expulsam-no da diocese e se recusam a acompanhá-lo como o pastor acompanharia uma ovelha doente. Sim, infelizmente, há bispos que recusam à plena integração no presbitério mesmo daqueles que cumpriram suas penas de acordo com a justiça canônica e civil. E as comunidades, muitas vezes influenciadas não só pela imprensa leiga, mas também pela imprensa católica ou por sites católicos (que parecem especializados na caça e na publicação de notícias sobre abusos sexuais), protestam sem perceber que se assemelham em tudo àqueles escribas e fariseus que acusavam a adúltera levada perante Jesus e considerada por eles merecedora da morte. Sim, nestes tempos, as comunidades às vezes exibem atitudes que clamam por vingança diante de Deus.

É por sua responsabilidade que foi acusado um homem de Deus como o Cardeal Philippe Barbarin, ex-Arcebispo de Lyon, posteriormente absolvido, mas tarde demais. A própria Roma havia recebido aquele burburinho calunioso que criava obstáculos ao seu ministério episcopal. Comunidades religiosas também forçaram o Arcebispo de Paris, Dom Michel Aupetit, a renunciar por causa de fofocas (que, no entanto, não envolviam nenhuma transgressão moral!), e recentemente são as comunidades, às quais se somou também a Conferência Episcopal Francesa, que criticam o Arcebispo de Toulouse, monsenhor Guy André Marie de Kérimel, por nomear como chanceler um padre julgado e condenado vinte anos atrás por abuso sexual. Não, eu não concordo com esse neofariseísmo que envenena a vida eclesial.

Não nos esqueçamos de que, mesmo na Igreja de hoje, Jesus diz: "Quero misericórdia, não a justiça de fariseus; quero o conhecimento de Deus mais que a rigidez da lei!"

Os abusos sexuais de menores devem, certamente, ser punidos pela lei canônica e civil, e os culpados por tais crimes devem ser punidos, mas até o pecador mais infernal tem acesso à misericórdia de Deus, que se faz carne e se torna práxis na Igreja. Uma Igreja sem misericórdia é uma assembleia sectária, não a Igreja do Senhor Jesus Cristo!

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