É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. Artigo de Ignazio Marino

Foto: Markus Spiske/Unplash

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15 Novembro 2025

"É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito, dizia Einstein. Nós quebramos preconceitos. Roma é, sem dúvida, o centro do cristianismo. Tem sido por 2.000 anos. E será para sempre. Mas Roma também é uma cidade que acolhe, uma cidade que respeita a cultura, as religiões, e que deveria aspirar a construir um mundo melhor", escreve Ignazio R. Marino, ex-prefeito de Roma, professor emérito de cirurgia da Universidade Thomas Jefferson e membro do Parlamento Europeu, em artigo publicado por Riforma, 12-11-2025. A tradução é de Luisa RaBolini.

Eis o artigo.

Dez anos se passaram desde a inauguração da nova Piazza Martin Lutero em Roma, no Colle Oppio, em frente ao Coliseu, no coração da cidade histórica. Compareci à cerimônia usando minha faixa de prefeito. Mais de 500 anos antes dessa cerimônia, o pai da Reforma Protestante passou pela Porta di Piazza del Popolo, junto com outros peregrinos que visitavam a Cidade Santa. E foi precisamente ali, na pequena praça entre a Piazza del Popolo e a Porta del Popolo, que eu queria dedicar a rua em homenagem ao teólogo alemão. Não foi possível. O processo administrativo se revelou mais complexo do que o procedimento normal.

As acirradas polêmicas políticas em torno dessa decisão também a tornou mais difícil. Cabe ressaltar que o pedido da Igreja Evangélica Luterana era bem anterior à minha posse na prefeitura. Na verdade, o pedido havia sido protocolado seis anos antes do evento, coincidindo com o quinto centenário da visita de Lutero a Roma. Mas não houve apenas obstáculos políticos. Conversei diversas vezes com o Papa Francisco. Ele se demonstrou contrário à minha ideia de dedicar o espaço adjacente à Piazza del Popolo a Martinho Lutero, devido à existência da entrada da Basílica de Santa Maria del Popolo, que pertence aos Agostinianos, e Martinho Lutero era um agostiniano. Consequentemente, segundo o Papa Francisco, dedicar a ele aquele espaço poderia parecer uma provocação.

Assim, a escolha recaiu sobre o Colle Oppio. Essa decisão quis destacar o forte e intenso vínculo entre o grande reformador e Roma, fundamento de seu ser cristão. Conta-se que Lutero admirava profundamente a Roma cristã, apesar das inegáveis degenerações daquele período.

Dez anos depois, estou cada vez mais convencido de que tomei a decisão certa ao dedicar um espaço em Roma em homenagem a Martinho Lutero. Para sustentar essa convicção, mantenho-me firmemente ancorado ao ensinamento do Cardeal Carlo Maria Martini, que exortava: “pro veritate adversa diligere” (a verdade deve prevalecer contra a adversidade), e sempre acreditei que se deve fazer o que é certo, e não o que é mais conveniente, mesmo do ponto de vista político. Até mesmo as forças e os partidos que estavam ontem na oposição e que agora governam o país falaram em “provocação”. “Só com Marino à frente da Prefeitura pode acontecer de uma capital - que em breve celebrará o Ano Santo proclamado pelo Papa Francisco - se preparar para dedicar uma praça em homenagem a Martinho Lutero”. Disseram isso. No entanto, o teólogo alemão reconhecia a Santidade de Roma.

“Salve, Santa Roma!”, exclamou ao entrar na Cidade Eterna.

É mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito, dizia Einstein. Nós quebramos preconceitos. Roma é, sem dúvida, o centro do cristianismo. Tem sido por 2.000 anos. E será para sempre. Mas Roma também é uma cidade que acolhe, uma cidade que respeita a cultura, as religiões, e que deveria aspirar a construir um mundo melhor. Isso só pode ser alcançado superando as barreiras, as cercas e os preconceitos. Um grande prefeito, Ernesto Nathan, que governou antes de mim, sabia disso muito bem. A homenagem anterior, e talvez a única, à comunidade protestante em Roma veio dele, com a concessão de um terreno para a construção da Igreja Valdense na Piazza Cavour. Dedicar a Martinho Lutero uma praça também quis ressaltar a importância daquilo que une as nossas comunidades religiosas. Penso, em particular, na centralidade da pessoa. Muitas vezes, porém, ela é relegada a um mero número em nossa sociedade.

Essa é a mensagem que recebemos da importante questão das migrações. A migração é um tema que nos envolve em todos os níveis, como cidadãos, como crentes, como pessoas engajadas. A luta entre números e pessoas deve nos levar a ficar do lado das pessoas. A consideração pelos últimos, pelos excluídos, por aqueles forçados a viver à margem: esse é o nosso farol e a nossa missão. Lutero também nos lembrou disso. Pouco depois de sua morte, foi encontrada uma nota escrita por ele alguns dias antes, contendo o que é considerado seu testamento espiritual. Resumida em uma frase: “Wir sind Bettler. Das ist wahr”. Ou seja: Somos mendigos. Isso é verdade.

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