29 Agosto 2025
A euforia se transforma em cautela, e até em incredulidade. Fiéis lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer se preparam para cruzar a Porta Santa de São Pedro no próximo 6 de setembro. É a primeira peregrinação da comunidade LGBTQ+ durante um Jubileu: impensável em 2000, quando a JMJ de Wojtyla em Tor Vergata foi contraposta por uma parada do orgulho gay pelas ruas de Roma, mas também prematura para o Jubileu Extraordinário da Misericórdia convocado pelo Papa Francisco em 2015-2016. O Pontífice argentino pressionou bastante pela inclusão de homossexuais e transexuais na Igreja, apesar de uma piada sobre "viadagem" nos seminários, e agora uma peregrinação ao coração do catolicismo não é mais tabu.
A informação é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por la Repubblica, 27-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
É um grande passo, mas o entusiasmo é contido. Porque há outro Papa, Leão XIV, que ainda não se manifestou sobre esse tema, assim como sobre outros temas candentes, e isso suscita receios e esperanças opostas nos campos progressista e conservador. E porque, mais fundamentalmente, a sexualidade não convencional na Igreja desde sempre é uma questão que desperta fortes sentimentos e debates acalorados.
O Vaticano e os organizadores agiram com cautela e em conjunto. O evento de 6 de setembro não será um grande evento jubilar, como o Jubileu da Juventude, o Jubileu dos Políticos ou o Jubileu dos Prisioneiros, mas sim uma das inúmeras peregrinações jubilares organizadas espontaneamente por paróquias, dioceses, associações e organizações católicas. Certamente está listado online no calendário do dicastério de D. Rino Fisichella, responsável pelo Ano Santo, do qual havia desaparecido por alguns dias na passada primavera romana devido a um "erro técnico" (assim como, vice-versa, a peregrinação dos católicos ultraconservadores lefebvrianos, de alguns dias atrás, inicialmente incluída no calendário oficial, depois desapareceu do mesmo), mas a sigla LGBTQ+ não aparece.
Oficialmente, o evento é chamado de "peregrinação da associação La Tenda di Gionata e outras associações", a partir do nome do grupo que sonha em "alargar a tenda" das igrejas para se tornarem "cada vez mais santuários de acolhimento e apoio às pessoas LGBTQ+ e a toda pessoa afetada por discriminação".
Será um evento espiritual e de oração, não uma parada do orgulho em roupagem católica, portanto não haverá faixas de reivindicação e bandeiras arco-íris. "A peregrinação será um momento de alegria", estampa um folheto do evento: "Com esse sentimento, cruzaremos a Porta Santa, a porta aberta da misericórdia e libertação de Deus; a porta aberta da Igreja, casa para todos!”
Na noite anterior, sexta-feira, 5 de setembro, será realizada uma vigília de oração na Igreja del Gesù. Na manhã de sábado, às 11h, D. Francesco Savino, vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana, celebrará uma missa na igreja dos jesuítas. Em seguida, às 15h, começará a peregrinação propriamente dita, com início na Via della Conciliazione até a Porta Santa de São Pedro.
Tendo começado bem discretamente, exceto pela indignação dos católicos mais conservadores que protestam contra a profanação, a iniciativa cresceu em poucas semanas. Não se pode descartar a possibilidade de aparecerem alguns agitadores: em Lisboa, por exemplo, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, presidida há dois anos por Francisco, uma paróquia que hospedava jovens de orientação sexual não convencional foi alvo de um grupo de ultratradicionalistas armados com cruzes e insultos. Foi discretamente previsto um sistema de vigilância, mas ninguém espera desordens sérias.
Diversas organizações desse variegado arquipélago aderiram à peregrinação. Com uma cúpula de São Pedro nas cores do arco-íris, os jovens cristãos LGBT chegarão a Roma a pé, após percorrerem mais de 100 quilômetros pela Via Francigena, partindo de Terracina.
O Padre James Martin, defensor dos direitos dos fiéis homossexuais e transgêneros nos Estados Unidos, estará presente, organizando um encontro na Cúria Geral dos Jesuítas.
O Padre Andrea Conocchia, pároco de Torvajanica, que levou as transexuais do litoral romano para as audiências do Papa Francisco, também estará presente.
Pelos cálculos, espera-se a participação de 1.300 pessoas, incluindo LGBTQIA+, seus familiares, padres e agentes pastorais. Embora as inscrições estejam encerradas, as adesões ainda continuam. "Novas pessoas aparecerão até o último minuto", dizem os organizadores, "e estamos muito felizes em acolhê-las: fazemos questão de não fechar nossas portas".
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