O Brasil no ideário da extrema-direita. Artigo de Edelberto Behs

Foto: The White House | Wikimedia Commons

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03 Junho 2025

"Talvez Trump queira constranger o Judiciário brasileiro, como o fez no seu país. Ele conseguiu da Suprema Corte dos EUA uma “liberação incondicional”, mesmo sendo réu em 34 processos. É o primeiro presidente estadunidense condenado a assumir o poder", escreve Edelberto Behs, jornalista.

Eis o artigo.

A sociedade preconizada pela extrema-direita no Brasil está alicerçada em contrassensos, próximos aos descritos por Ray Bradbury em Fahrenheit 451 — uma comunidade onde bombeiros não são os que debelam chamas, mas os que jogam gasolina sobre livros, estejam onde estiverem, em casas ou bibliotecas, para eliminá-los.

É um mundo de cabeça para baixo, como quer a ultradireita brasileira. Invasores dos Três Poderes em Brasília eram velhinhas desfilando com Bíblias debaixo do braço. Não cabe punição aos engenheiros do golpe, entre eles o capitão, porque, afinal de contas, o golpe não se concretizou. Então, cabe anistiá-los — mesmo sem julgamento!

Nessa sociedade invertida, UTIs servem de estúdio para filmagens de comercial de capacetes para motociclistas. Um presidente da República que não se importou com a saúde da população dizia: “Chega de mimimi, aí, estou com covid”. E tanto faz se morreram 400 ou 700 mil pessoas — afinal de contas, presidente não é coveiro.

As universidades são vistas como antros de maconheiros, comunistas disfarçados de pesquisadores. Deveriam estar em Cuba ou na Venezuela. Trabalhador que defende direitos trabalhistas é considerado estúpido, pois ali adiante não haverá mais vagas de trabalho disponíveis, tamanha a carga tributária para os empresários.

As instituições da democracia só atrapalham. Melhor que não existam. E as primeiras que devem ser extintas são o STE e o STF. Imagina, o STE confiar em urnas eletrônicas! Precisa acabar com isso e voltar com o voto impresso — esse, sim, é garantido.

Pastores e crentes vão para os ministérios da República. São ministros nos dois sentidos: o temporal e o espiritual. E daí se sair uma negociata com Bíblias? Isso pouco importa, porque no nosso governo, a gente garante: não tem corrupção.

Nas relações internacionais, o comandante dos patriotas sabe com quem buscar o diálogo: garçons que servem os comensais. Patriotas elogiaram a “vachina”, o que agradou nossos parceiros comerciais. As “feias” não se estupram — embora possa “pintar um clima” com meninas que se preparam para sair na balada.

Embora o nosso lema seja “A verdade vos libertará”, o que mais se faz é mentir, vilipendiar, agredir, atacar a imprensa — de preferência, as jornalistas —, pois há aquelas que “querem dar o furo”. São palavras de um político do baixo clero que virou presidente e que se acha muito respeitador e competente.

Sobre a História, o patriota acha que negros africanos vieram fazer turismo no Brasil a partir do século XVI. No Brasil virado de cabeça para baixo, segundo o ideal da extrema-direita, comunidades indígenas apareceram em terras de Santa Cruz quando portugueses já viviam aqui. O Brasil só foi descoberto por Pedro Álvares Cabral porque a Terra é plana.

Militar serve para dar golpe de Estado ou ser um poder moderador. E o ministro do Meio Ambiente trata de fazer passar a boiada, para que ninguém observe o que está sendo devastado na natureza. Patriota não acaba com o INSS porque serve pra tirar uma grana de aposentados — e manda a conta para o próximo governo.

Agora, vejamos a cereja do bolo do momento. O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marcos Rubio, afirmou que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal do Brasil (não dos EUA!), pode sofrer sanções nos States, com base na Lei Magnitsky. A lei permite que o país todo-poderoso do mundo aplique sanções unilaterais contra estrangeiros acusados de corrupção ou violações sistemáticas dos Direitos Humanos.

Ora, não seria por corrupção a acusação contra Xandão, mas sim por violação dos Direitos Humanos. Ou seja, um governo que se associa a Netanyahu na matança de mulheres, crianças, idosos, civis em Gaza, que mais se envolveu em guerras e conflitos armados no último século — o único Estado a fazer uso da bomba atômica em uma guerra — se arroga o direito de arbitrar sobre Direitos Humanos!

Talvez Trump queira constranger o Judiciário brasileiro, como o fez no seu país. Ele conseguiu da Suprema Corte dos EUA uma “liberação incondicional”, mesmo sendo réu em 34 processos. É o primeiro presidente estadunidense condenado a assumir o poder.

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