Nós, israelenses, sob o cerco do governo. Nosso primeiro-ministro passa por cima da democracia

Foto: Wikimedia Commons

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24 Março 2025

"O primeiro-ministro continua a ignorar o fato de que a esmagadora maioria da opinião pública israelense exige o retorno dos 59 reféns restantes, o fim da guerra, uma Comissão pública de Inquérito sobre os eventos que levaram ao 7 de outubro de 2023 e o fim imediato dos ataques do governo às instituições nacionais, guardiãs da democracia, e à própria democracia", escreve Assaf Gavron, escritor, romancista, tradutor e músico israelense, ex-jornalista e trabalhador de alta tecnologia, publicada por La Stampa, 22-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os eventos da semana passada em nossa região marcam uma mudança preocupante. Depois de um período em que parecia se curvar - embora com relutância - às pressões da opinião pública, e ainda mais às do presidente estadunidense, o primeiro-ministro concordou em assinar um cessar-fogo com o Hamas em janeiro. Como resultado, 33 reféns israelenses foram libertados (25 deles vivos). No entanto, com a mesma rapidez, ele rompeu esse acordo, reacendendo a guerra em Gaza e, ao mesmo tempo, anunciando a demissão do chefe dos serviços de segurança. Essa demissão ainda precisa ser aprovada pelo Poder Judiciário e poderia não ser validada pela Suprema Corte. De qualquer forma, evidencia uma nova fase de desmando. O primeiro-ministro continua a ignorar o fato de que a esmagadora maioria da opinião pública israelense exige o retorno dos 59 reféns restantes, o fim da guerra, uma Comissão pública de Inquérito sobre os eventos que levaram ao 7 de outubro de 2023 e o fim imediato dos ataques do governo às instituições nacionais, guardiãs da democracia, e à própria democracia.

A reação do público variou de incredulidade atônita ao convite para participar de protestos em massa. Na noite de terça-feira, a maior manifestação dos últimos meses ocorreu em Tel Aviv, durante a qual tomaram a palavra ex-chefes da polícia, do Mossad e dos serviços de segurança.

Na quarta-feira, dezenas de milhares de pessoas marcharam em direção a Jerusalém, reunindo-se em frente ao Knesset e à residência do primeiro-ministro.

Depois, nas mídias tradicionais e nas redes sociais, se perceberam três formas de reação. A primeira é de desespero: nenhum protesto, por maior que seja, mudará as coisas, o primeiro-ministro e sua coalizão estão interessados apenas em permanecer no poder, acatando às demandas de guerra da extrema direita e atendendo os ultraortodoxos com dinheiro. A segunda reação foi um apelo renovado à ação, fortalecido pelos recentes sucessos das manifestações populares em lugares como a Sérvia e a Geórgia. A terceira foi uma espécie de pragmatismo cauteloso: o reconhecimento de que os protestos não derrubarão o governo, mas, como poderemos dizer aos nossos filhos um dia, “pelo menos não ficamos em silêncio, lutamos”.

Entendo a terceira atitude e talvez seja por isso que me juntei aos protestos na terça-feira.

Espero realmente que a segunda se demonstre verdadeira. Temo, porém, que a primeira seja a mais precisa. Os protestos não derrubam governos. Não é assim que se presume que as democracias devem funcionar. Em teoria, uma oposição forte - liderada por políticos experientes e capazes - deveria canalizar o sentimento popular em uma ação política concreta, possivelmente atraindo alguns membros da integérrima coalizão para barrar essa liderança fracassada. No entanto, nós não temos uma oposição. Pelo contrário, infelizmente o político mais experiente e capaz está do outro lado e, de alguma forma, continua a atrair membros da oposição para a sua órbita.

Em resumo, para onde estamos indo? Muito provavelmente - e ao contrário do que eu mesmo acreditava nestas mesmas páginas - esse governo sobreviverá até as próximas eleições, marcadas para o outono de 2026. Nos próximos dezoito meses, esse governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para enfraquecer o Poder Judiciário, os guardiões da nossa democracia e as instituições democráticas encarregadas de nos proteger. E ele torcerá que tudo isso seja suficiente para garantir a manutenção do poder nas próximas eleições.
Não acredito, entretanto, que terá sucesso. O próximo ano e meio será difícil para as forças da democracia. Terão de se manter firmes, no sistema judiciário, nos serviços de segurança, em todas as instituições tomadas pelo cerco. Acredito que resistirão. E nós temos que fazer o mesmo. Continuando a protestar ou não, nós - os cidadãos - precisamos encontrar a força para resistir.

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