20 Janeiro 2025
"Na véspera de sua nova posse, no entanto, a mensagem que o presidente MAGA envia a amigos e aliados sobre a política internacional é clara: ultrapassagens pela direita não são toleradas", escreve o cientista político italiano Francesco Strazzari, professor de Relações Internacionais na Scuola Universitaria Superiore Sant’Anna, em Pisa, na Itália. O artigo foi publicado por Il Manifesto, 20-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
As bandeiras de luto por Jimmy Carter desaparecerão, para não deprimir o entusiasmo com o qual a cerimônia deve brilhar. Da paz entre a Rússia e a Ucrânia “dentro de 24 horas”, a posse de Donald Trump não traz mais o mínimo vestígio (no máximo, voltará a ser discutida na Páscoa), mas seu retorno à Casa Branca é precedido pela assinatura do o amigo Netanyahu no acordo com o Hamas, após 468 dias de massacres.
O papel decisivo que as atitudes bruscas de seu enviado especial para o Oriente Médio, o magnata do setor imobiliário Steve Witkoff, tiveram ao lidar com Israel é uma prova de como Joe Biden havia se recusado a usar todos os seus poderes.
De repente, evaporaram os obstáculos que bloqueavam uma fórmula de cessar-fogo. Que já havia sido negociada em maio passado, antes que muito mais sangue fosse derramado. E não é só: Israel agora permite a entrada de 600 caminhões de ajudas por dia em Gaza, depois de ter apontado o dedo por meses para os supostos problemas logísticos da máquina humanitária.
Diante das recusas e das “linhas vermelhas” pisoteadas impunemente pela máquina de guerra, Biden e Blinken continuaram a fornecer apoio político e militar maciço. Como escreveu o The Nation, a política externa de Biden destruiu sua presidência: uma agenda política doméstica que pode ser considerada a mais progressista desde Lyndon Johnson se entrelaçou com uma política externa que se afoga em sangue. O acordo assinado no Qatar depende de muitas incógnitas e assimetrias: Israel se beneficiará de denunciar o não cumprimento dos termos pelo Hamas, enquanto os palestinos temem que Trump, que já reconheceu Jerusalém como capital de Israel, tenha concedido secretamente sinal verde sobre a Cisjordânia.
Mas, se levada a sério, a proposta leva Netanyahu para longe do objetivo da “vitória total” em uma “guerra existencial”: prevê a retirada das forças israelenses de Gaza e não pede o desmantelamento do Hamas ou sua exclusão da política palestina.
Dificilmente a presidência de Trump, assim como a ambição de Meloni ao regime de primeiro-ministro - que imediatamente correu para prestar homenagem à Corte -, conterá o aumento do custo de vida, que foi prometido para chegar ao poder. Na véspera de sua nova posse, no entanto, a mensagem que o presidente MAGA envia a amigos e aliados sobre a política internacional é clara: ultrapassagens pela direita não são toleradas.
A cerimônia, com seu séquito de personalidades proeminentes, propõe um segundo tema, que não é exagero considerar um marco de época, e que foi abordado ao telefone com o líder chinês Xi. Não se trata apenas da relação antagônica entre as superpotências. Aliás, é bom registrar como, quando Trump fala sobre a democracia de Taiwan, agora prevalecem ênfases críticas: os taiwaneses são retratados como vorazes por postos de trabalho estadunidenses e pouco propensos a pagar para serem defendidos. A verdadeira questão é o papel de destaque que assumirão os CEOs dos gigantes da tecnologia na Rotunda do Capitólio: não apenas o homem mais rico do mundo e chefe do chamado “Departamento de Eficiência do governo”, Elon Musk (Tesla, Space X, X), mas também Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google), Sam Altman (Open AI) e o próprio Shou Zi Chew do Tik Tok, cujas atualizações agora estão proibidas nos EUA. O verdadeiro tema é, na verdade, aquele da oligarquia (alguns se referem a esta nossa época como o Capitaloceno).
Ou seja, da relação direta com o poder político de um novo mundo empresarial que, há apenas vinte anos, estava imbuído da cibercultura hippie e prometia uma globalização sem fronteiras, enquanto hoje, tendo abraçado a ideologia neoliberal, oferece seu domínio sobre dados e infraestruturas como um pilar para os objetivos hegemônicos da extrema direita, curvando-se a pulsões identitárias, classistas e supremacistas, em troca do domínio da cena.
Este mundo detesta o poder regulatório da União Europeia, que justamente nestes dias pede explicações a Musk sobre seus algoritmos. Musk é a principal personificação disso, não apenas porque a SpaceX agora alcança meio mundo, mas também por causa de sua estreita afinidade com as finanças. Musk é cofundador do PayPal: a plataforma de pagamentos que ele está criando, a X Payments, copia o modelo chinês de “um aplicativo para tudo”. Até o momento, a essa ambição faltou um forte apoio governamental e normativo, bem como de uma virada de desregulamentação em relação às criptomoedas.
A lei sobre a “proibição do Tik Tok” vai muito além da proteção dos dados de jovens estadunidenses contra vorazes agentes comunistas chineses que se escondem por trás da tela da Bytedance, a empresa controladora. Assinada em abril de 2024 e confirmada pela Suprema Corte em 17 de janeiro, a lei H.R.7521 confere ao Presidente a autoridade para proibir qualquer aplicativo de rede social de propriedade estrangeira por meio de um procedimento extremamente simples no qual o Presidente descreve ao Congresso “o problema específico de segurança nacional em questão” (anexando uma lista confidencial das atividades que deveriam ser evitadas) e, em seguida, declara o aplicativo “uma ameaça significativa à segurança nacional”.
O Tik Tok é apenas a primeira plataforma na mira de uma lei cuja linguagem permite vigiar todas as plataformas em que os usuários podem interagir, incluindo videogames. Donald Trump, que havia se posicionado contra o Tik Tok, mudou de ideia durante a campanha, declarando-se a favor de salvar a plataforma.
De acordo com o Drop Site, a imensa ênfase do debate público sobre o Tik Tok e a China é uma forma de desviar a atenção do verdadeiro impacto global da medida: o início de uma era em que o comandante-chefe tem liberdade para decidir com quem os estadunidenses podem se conectar em todo o mundo, semeando potencialmente divisões mais profundas entre os EUA e os inimigos da vez.
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