22 Novembro 2024
Delegações de países árabes pressionam para recuar do compromisso histórico firmado na COP28, no qual os governos se comprometeram a “se distanciar dos combustíveis fósseis”.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 22-11-2024.
A frustração dos países com a Presidência da COP29 não se limitou ao esboço de texto sobre financiamento climático. A falta de qualquer menção ao acordo firmado na última COP28, no ano passado, pelo fim do consumo de combustíveis fósseis no esboço apresentado pelos negociadores do Azerbaijão, causou revolta em algumas delegações.
“Quanto ao texto em geral, não vou adoçar a pílula. [Ele] é claramente inaceitável do jeito que está agora”, disse o comissário da União Europeia para o clima, Wopke Hoekstra. Representantes de Reino Unido, Irlanda e Nova Zelândia reforçaram as críticas, ressaltando sua oposição a qualquer retrocesso em relação ao acordo firmado na COP28 sobre o phase-out dos combustíveis fósseis.
Até mesmo os Estados Unidos, que mantiveram sua discrição na COP29 depois do baque causado pela vitória de Donald Trump no último dia 5, tornaram pública sua frustração com o texto. “Estamos surpresos que não haja nada que leve adiante o que concordamos no ano passado em Dubai”, afirmou John Podesta, representante do governo Biden nas negociações em Baku.
Será difícil para a Presidência da COP29 amarrar um entendimento nesse assunto. Os países do Grupo Árabe, que reúne as nações petrolíferas do Golfo Pérsico, reiteraram que não aceitarão qualquer menção negativa aos combustíveis fósseis nos textos finais de Baku, disse o negociador saudita Albara Tawfiq à AFP.
Os países árabes não estão sozinhos nessa posição. Como o Guardian destacou, a China também vem se opondo a uma menção explícita à promessa de “se distanciar dos combustíveis fósseis” formalizada na última COP. Outros países em desenvolvimento também tentam aproveitar a questão para forçar os países desenvolvidos a avançarem nas negociações sobre financiamento climático.
BBC, Financial Times e Independent repercutiram a irritação dos países europeus com a falta de menção a combustíveis fósseis no esboço de decisão da COP29.
Em tempo
O secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Haitham Al Ghais, endossou as palavras do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, que classificou os combustíveis fósseis como “presentes de Deus”. Em evento da indústria fóssil realizado na mesma Baku que sedia a COP29, Al Ghais defendeu que a energia suja do petróleo e gás precisa ser “abraçada” pelos países e que as tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), quimera favorita do setor fóssil, seriam a solução para reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, e não o fim do consumo de combustíveis fósseis. CNN Brasil e Valor repercutiram a pataquada.
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