Em Manaus, Tribuna das Águas denuncia o descaso com as águas e florestas amazônicas. Artigo de Sandoval Alves Rocha

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil | FotosPúblicas

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25 Outubro 2024

"Infelizmente, os poderes públicos constituídos não demonstram interesse em enfrentar essa situação [de secas severas e aumento de temperaturas], pois estão sequestrados pelos lobbies dos grandes negócios e empreendimentos que visam a lucratividade a qualquer custo, ignorando o desastroso cenário socioambiental em curso", escreve Sandoval Alves Rocha, SJ.

Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio, mestre em Ciências Sociais pela Unisinos, bacharel em Teologia e bacharel em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), membro da Companhia de Jesus (jesuíta), trabalha no Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), em Manaus.

Eis o artigo.

No dia 19 de outubro, o Fórum das Águas do Amazonas promoveu a 6ª Edição da Tribuna das Águas, denunciando a falta generalizada de cuidado com os corpos hídricos e a ausência de políticas públicas de preservação das florestas amazônicas. A Tribuna das Águas aconteceu no Parque Municipal Pontes dos Bilhares, zona centro-sul de Manaus, em parceria com as organizações que participaram do Fórum Social Pan-amazônico, nas cidades bolivianas de Rurrenabaque e San Buenaventura, entre os dias 12 e 15 de junho do corrente ano.

Representantes de diversas organizações e movimentos sociais fizeram uso da palavra, trazendo à tona problemas socioambientais vividos na cidade de Manaus e na Amazônia. Foram eles: a Comissão Pastoral da Terra, o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental, a Rede Eclesial Pan-amazônica, o Movimento Salve o Parque dos Bilhares, a Central de Movimentos Populares, o Instituto Sumaúma, a Articulação de Mulheres do Amazonas, o Conselho Regional de Serviço Social, o Movimento Comunitário do Bairro da Chapada e o vereador recém-eleito José Ricardo (PT).

A falta de planejamento dos poderes públicos (municipal, estadual e federal) frente à seca que atualmente assola a região amazônica contribuiu para acentuar a indignação da Tribuna da Águas. Além das denúncias contra os crimes de desmatamento e queimadas na Amazônia, os palestrantes fizeram fortes críticas ao agronegócio, à mineração, à grilagem de terras e à falta de água potável e esgotamento sanitário na região. O descuido dos igarapés e rios da cidade e a ausência de manutenção dos parques florestais ganharam destaque.

O Movimento Salve o Parque dos Bilhares se manifestou contra a construção da sede da Semmas-Manaus, que realizará a derrubada de 132 árvores no Parque Municipal Ponte dos Bilhares, prejudicando o meio ambiente do entorno. As denúncias contra a construção já foram feitas em outras ocasiões, mobilizando diversos meios de comunicações e organizações da cidade. Segundo a Agência Cenarium, a construção já chegou a ser embargada pela Justiça, mas logo depois houve autorização para a continuidade da obra, que abrange um prédio de dois andares e um grande estacionamento.

Tendo em vista a falta de árvores e áreas verdes na cidade, os moradores e ambientalistas não se conformam com a agressão ambiental realizada pelo executivo municipal no Parque dos Bilhares. Um dos representantes do Coletivo salienta que se trata de uma grande contradição ver a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade agir contra uma das poucas áreas verdes da cidade, havendo centenas de prédios desocupados que poderiam ser reformados para sediar o órgão, sem precisar de derrubar nenhuma árvore. De fato, pesquisas do IBGE mostram que Manaus é uma das capitais menos arborizadas do Brasil, indicando a frágil consciência ambiental nas estruturas de poder.

O Instituto Sumaúma também endossou a percepção de que a consciência ambiental não chegou aos órgãos do poder estadual, ao denunciar o abandono do Parque Sumaúma, na zona leste da cidade. A Organização compareceu na Tribuna das Águas, cobrando a reabertura do mencionado parque para que seja possível as visitas da população que vive no seu entorno. O Coletivo também denuncia a falta de cuidado com as nascentes presentes na localidade, situação encontrada também no Parque Ponte dos Bilhares, por onde passam dois importantes igarapés da cidade: Mindu e Cachoeira Grande.

O pesquisador da Universidade Federal do Amazonas, Lucas Ferrante, também fez uma participação no evento, lendo a Carta do Fórum das Águas do Amazonas à Sociedade e Tomadores de Decisão. O documento é resultado da Conferência sobre a seca na Amazônia, ocorrida no dia 9 de agosto, no Centro de Formação da Arquidiocese de Manaus. A Carta, que foi assinada por muitos coletivos, denuncia a omissão dos poderes públicos frente às consequências das mudanças climáticas na Amazônia. Os Grandes Projetos de intervenção, como a Rodovia BR 319, são descritos como grandes perigos para a região, podendo impulsionar o desmatamento, as queimadas, a grilagem ilegal, os conflitos fundiários, a redução dos reservatórios hídricos e o desaparecimento das florestas tropicais.

As falas expressaram muita preocupação pelo avanço das mudanças climáticas que já vitimam muitas pessoas e ecossistemas no mundo inteiro, sendo as populações mais vulneráveis aquelas que mais sofrem. A Amazônia já sente esses efeitos através das secas severas e da elevação das temperaturas. Infelizmente, os poderes públicos constituídos não demonstram interesse em enfrentar essa situação, pois estão sequestrados pelos lobbies dos grandes negócios e empreendimentos que visam a lucratividade a qualquer custo, ignorando o desastroso cenário socioambiental em curso.

O Pós-Fospa, realizado no auditório da Faculdade Católica do Amazonas, aglutinou lideranças dos diversos movimentos, rememorando as principais discussões e encaminhamentos do evento da Bolívia. Palestras e trabalhos em grupos foram realizados, chegando a estabelecer prioridades nas ações a serem desenvolvidas nos próximos anos. Entre estas prioridades, destacam-se: a necessidade de remunicipalizar os serviços de água e esgoto em Manaus, a importância de uma participação mais efetiva dos movimentos em conferências do meio ambiente, a urgência no reflorestamento das áreas queimadas, assim como aplicação de penalidades severas para quem comete crimes ambientais.

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