Ravasi conta a revolução de Paulo. Artigo de Roberto Righetto

Ilustração Apóstolo Paulo | Foto: Photo Images / Canva Pro

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18 Outubro 2024

"O livro do Cardeal Ravasi é rico em referências à literatura, à arte e ao cinema, de Michelangelo a Caravaggio, de Werfel a Testori, de Tarkovsky a Rossellini, mas é, acima de tudo, uma homenagem geral à figura de Paulo, que permite reler a sua aventura completamente, sem separar a ação missionária do arcabouço intelectual", escreve Roberto Righetto, jornalista, em artigo publicado por Avvenire, 13-10-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A biografia escrita pelo cardeal, intitulada “Eu era um blasfemo, um perseguidor e um violento”, está repleta de referências à literatura, à arte e ao cinema.

Paulo está aqui entre nós hoje. Ele demole revolucionariamente, com a simples força de sua mensagem religiosa, um tipo de sociedade fundada na violência de classe, no imperialismo, na escravidão": essa é uma das passagens do rascunho do roteiro que Pier Paolo Pasolini escreveu pensando em realizar um filme sobre São Paulo. Um projeto que nunca foi realizado - mas existe o livro publicado postumamente pela Garzanti em 1977 - que é assumido “quase como um pano de fundo para o nosso itinerário” no novo livro de Gianfranco Ravasi, Ero un blasfemo, un persecutore e un violento. Biografia di Paolo (Raffaello Cortina Editore, pág.194, 19,00 euros), nas livrarias a partir de amanhã. Aquele de Pasolini, para o biblista e cardeal, “é um convite para separar Paulo de um mosaico de abside, das páginas hagiográficas ou dos ensaios rigorosamente exegéticos para trazê-lo ao nosso presente secularizado”.

"Eu era um blasfemador, um perseguidor e uma pessoa violenta. Biografia de Paulo", de Gianfranco Ravasi (Editora Raffaello Cortina Editore, 2024).

O cineasta imaginou o Apóstolo dos Gentios imerso no mundo contemporâneo – estamos em 1967-68. Sua pregação acontece em Nova York, o centro do capitalismo e do poder político-econômico mundial, que tomou o lugar da Roma antiga, enquanto o coração religioso e cultural é Paris e não mais Jerusalém. Claro, adverte Ravasi, a pregação de Pasolini é também uma tomada de distância da Igreja da época, que, em sua opinião, estava muito ligada ao poder e esquecida do verdadeiro espírito do Evangelho. Em certo sentido, até mesmo a releitura filosófica da figura de Paulo realizada por vários pensadores contemporâneos, ente os quais Derrida, Foucault, Badiou, Zizek, Vattimo, Cacciari e Agamben, vai na direção do projeto de Ravasi. Foi Jaspers quem viu Paulo como um grande pensador digno de aparecer nos manuais de filosofia, enquanto Badiou e Zizek chegaram ao ponto de propor uma interpretação materialista de suas epístolas, uma releitura substancialmente neomarxista. Mas a filosofia de Paulo é uma filosofia que se torna antifilosofia, como se depreende do famoso Discurso no Areópago, no qual ele se confrontou com alguns pensadores gregos da época. Ravasi enfatiza a abundância de citações de autores gregos feitas por Paulo, mas enquanto o apóstolo foi ouvido quando explicou as características do Deus cristão (“Nele nos movemos, vivemos e existimos”), foi deixado sozinho quando começou a falar da ressurreição da carne. O encontro de Atenas terminou num fracasso para Paulo.

O livro do Cardeal Ravasi é rico em referências à literatura, à arte e ao cinema, de Michelangelo a Caravaggio, de Werfel a Testori, de Tarkovsky a Rossellini, mas é, acima de tudo, uma homenagem geral à figura de Paulo, que permite reler a sua aventura completamente, sem separar a ação missionária do arcabouço intelectual. Ele também destaca seus traços humanos totalmente característicos, tanto que um biblista refinado como Daniel Marguerat o interpreta como o “enfant terrible” do cristianismo. Por sua vez, João Crisóstomo escreveu que “Paulo invade tudo e transporta tudo para a verdade” e que “chegava em todos os lugares de repente, mais rápido que o vento. Governava o mundo inteiro como se fosse uma única casa ou um único navio”. Bossuet o exaltou como “alguém que não lisonjeia os ouvidos, mas vai direto ao coração”, enquanto Mario Luzi fala dele como “um homem que veio de uma crise planetária” e Derrida o enquadra com dois adjetivos: “Esse doce, terrível Paulo”.

No livro, no qual Ravasi toma claramente distância da improvável definição atribuída a Paulo como fundador ou inventor do cristianismo, como aconteceu em Nietzsche, Renan e Gramsci até um livro mais recente de Augias, são examinadas as 13 cartas atribuídas a ele, assim como os Atos dos Apóstolos, em cuja segunda parte Paulo é protagonista. Não podemos resumir aqui todas as trilhas de trabalho do cardeal, mas podemos focar a atenção em alguns temas relevantes que são destacados. Por exemplo, a originalidade cristã, “aliás, sua força provocativa contra as duas culturas dominantes”, a judaica e a grega. Trata-se de “um cristianismo cosmopolita, transfronteiriço, intercultural, interétnico e até mesmo interclassista e intersexual”.

Por exemplo, sobre a escravidão e a relação entre homem e mulher, se algumas de suas frases estão indubitavelmente ligadas à cultura da época, que no império romano via os escravos serem tranquilamente aceitos e a mulher submissa, Paulo realiza uma verdadeira revolução, como escreve na primeira Epístola aos Coríntios e naquela a Filemon. E aos Gálatas diz: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”.

Outras questões repicam aqui e ali, desde a relação entre corpo e alma, na qual é derrubada a ideia da imortalidade da alma, própria da cultura grega, em favor do novo conceito da ressurreição da carne, até o discurso escatológico. Aos Tessalonicenses, permeados por sugestões apocalípticas, o Apóstolo sugere que não caiam na tentação de fazer previsões sobre o fim do mundo. Na Segunda Carta, há também a famosa e misteriosa referência ao katéchon, a força que se opõe ao triunfo da iniquidade.

Para Ravasi, “é a própria vontade divina que governa a história e controla o mal”. Por fim, não se pode deixar de enfatizar também o poder poético de Paulo, como emerge do maravilhoso hino à caridade na Primeira Carta aos Coríntios, que o cineasta polonês Kieslowski coloca como selo de seu filme A Liberdade é Azul com Juliette Binoche, ou daquele sobre a kènosis contido na Carta aos Filipenses, com a visão grandiosa da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que de certa forma revive na epístola aos Colossenses, que “introduz um novo perfil de Cristo - observa Ravasi - como Senhor cósmico no qual tudo subsiste, tudo é reconciliado e redimido”.

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