“Foram passar veneno na lavoura e jogaram em nós”, diz trabalhador em relato sobre a rotina dos resgatados em Uruguaiana, RS

Foto: PixaHive

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16 Março 2023

Do cotidiano laboral marcado pela ausência de tudo o que era básico, um dos trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão em Uruguaiana, no dia 10 de março, em lavouras de arroz, narra um episódio que deixou marcas: o lançamento, em duas ocasiões, de agrotóxicos de uma aeronave agrícola sobre a plantação, enquanto trabalhavam no solo. Uma chuva de produto químico recaiu sobre a equipe de 20 pessoas que atuava em terra, sem nenhum equipamento de proteção individual, no corte do arroz vermelho, espécie invasora que cresce mais do que o grão cultivado.

— Foram passar veneno na lavoura e jogaram em nós. De avião. Estávamos trabalhando, e jogaram em cima. Com a minha equipe, ocorreu duas vezes. Dos 20, uns 10 ficaram doentes. Tiveram feridas, saíram bolhas nos braços, dor de garganta e de cabeça — conta o trabalhador resgatado na Fronteira Oeste, cuja identidade é preservada por motivo de segurança.

A reportagem é de Carlos Rollsing, publicada por GZH, 16-03-2023.

O trabalhador, localizado e ouvido por GZH, conta que o primeiro episódio de chuva de agrotóxico foi relatado ao recrutador, a quem chamavam de "empreiteiro", e ao agrônomo que fiscalizava o trabalho na plantação.

— Falaram que não iria mais acontecer, mas, uma semana depois, aconteceu de novo — comenta.

O homem trabalhou por cerca de 45 dias na fazenda São Joaquim, uma das duas em que 82 pessoas, incluindo 11 menores de 18 anos, foram resgatadas em situação análoga à escravidão, em operação conjunta entre Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Polícia Federal (PF). A outra propriedade envolvida é a Santa Adelaide.

Segundo a reportagem, os homens chegavam pouco antes das 7h nas plantações e começavam o corte do arroz vermelho, o que prosseguia até as 11h. Eles tinham de levar a comida e a água de casa. Como não havia local adequado para acondicionar, deixavam em mochilas ou sacolas debaixo de árvores.

— A comida estragava por causa do mormaço do sol. Volta e meia tinha alguém sem alimento. A gente se dividia para não deixar um companheiro com fome. Teve quem comeu comida azeda. Eu mesmo, duas vezes. Não tinha nada mais o que comer. Deu um mal-estar enorme, principalmente à noite — conta.

Sobre a água, ele recorda:

— Se acabasse, ficava com sede. Levávamos de casa e, pela manhã, ficava gelada. À tarde, parecia que tinha sido esquentada no fogão. A gente falava que era água para mate.

A íntegra da reportagem pode se lida aqui.

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