Páscoa: dor e alegria

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25 Abril 2022

 

"Então a Páscoa é uma boa notícia apenas para aqueles que iniciaram a longa marcha do êxodo e renunciaram ao projeto escravista do faraó e do pequeno faraó que todos carregamos dentro de nós", escreve Flavio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em artigo publicado por Settimana News, 23-04-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Nestes dias, que - quase alheios ao passado - tendemos a considerar excepcionalmente trágicos e violentos, perguntei-me com insistência: "Para quem a memória da Páscoa da morte e a Ressurreição de Jesus volta como boa notícia, fonte de alegria e serenidade?"

E inevitavelmente os pensamentos se detêm diante da história de uma multidão que vem não só da Igreja, mas de toda a humanidade, "de todas as nações, raças, povos e línguas" (Ap 7,9); e depois de "cento e quarenta e quatro mil, que em suas testas tinham escrito o nome de seu Pai” (Ap 14,1); "Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro" (Ap 7,14).

O autor do Apocalipse nos fala daqueles que, para serem fiéis ao único Senhor, enfrentam o império assassino e sofrem opressão, perseguição e martírio. Apesar da aparente invencibilidade do poder imperial, eles não se deixam contaminar pelo medo e pelo desespero, pois acreditam firmemente que Jesus morto e ressuscitado é o Senhor do Universo e que o império nunca será o senhor da história.

E acreditam que somente a luta e a resistência dos povos perseguidos possam derrotar o império e "aqueles que [...] receberam um sinal na mão direita e na testa [...] ou seja, o nome da besta e o número" (Ap 13,16-17), aqueles que se identificam com as lógicas imperiais e acreditam na propaganda e mentiras do mercado.

O grito dirigido a Deus se repete, oculto e silencioso, consciente de que ele é um Deus que sabe ouvir a dor do seu povo. Ele é o vingador do sangue. O pobre Deus dos pobres. Ele se revela em extrema fraqueza amorosamente desarmada. E mostra o caminho a seguir para sermos misericordiosos como Ele.

De fato, não é com os exércitos que derrotamos o inimigo, porque Seu Reino não se estabelece segundo a lógica armada dos impérios. Podemos derrotar o inimigo, mostrando hoje que é possível viver em fraternidade e sororidade, sem o peso do poder do dinheiro e dos egoísmos.

E com humildade e mansidão, denunciar e enfrentar toda injustiça. Capazes de perdoar e também - desafio intolerável! - amar os inimigos. Sem distinções sacrais e patriarcais de dignidade e sem tradições obsoletas. E também em relativa, mas radical autonomia em elação ao estado e ao direito, que sempre foram inimigos dos pobres.

Então a Páscoa é uma boa notícia apenas para aqueles que iniciaram a longa marcha do êxodo e renunciaram ao projeto escravista do faraó e do pequeno faraó que todos carregamos dentro de nós.

Que seja, pois, alegria pascal para quem tem fome de pão e de fraternidade, para os humildes, para os pequeninos, para os pobres, para os perseguidos pela justiça, para os misericordiosos, para as vítimas da violência e para os mártires, para os santos e as santas escondidas em invisíveis biografias, para os descartados, os inúteis, para as crianças, os velhos, os doentes, os loucos e os moribundos; para as mulheres que são sempre as pessoas mais expostas à exclusão e à violência; para os povos indígenas e camponeses, que não representam o passado inútil destinado a desaparecer, mas, ao contrário, o possível futuro de uma humanidade reconciliada com a vida.

Que seja a alegria da Páscoa para nós também, se estivermos obstinadamente ao lado deles.

 

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