A consciência e os papas: como evitar uma deformação litúrgica dos seminaristas? Artigo de Andrea Grillo

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Setembro 2021

 

"Foi fácil esconder-se atrás de Bento XVI, que nada impôs diretamente no plano formativo; o mesmo hoje é esconder-se atrás de Francisco, que simplesmente restabeleceu o bom senso e a consciência de um único rito, a quem formar e com quem celebrar. Um papa não era necessário para exercer uma boa consciência! Até mesmo alguns teólogos ficaram completamente indiferentes ao que acontecia ou até escreveram manuais para favorecer a "dupla formação". Esta foi uma forma de irresponsabilidade ao quadrado, promovida com palavras, ações e omissões", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado por Come Se Non, 02-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Em sua famosa carta ao Duque de Norfolk, o Card. Newman escreveu: "A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo". É uma frase tão conhecida que também é citada justamente pelo CIC, no número 1778, dedicado ao juízo da consciência moral. A afirmação alerta a tradição católica para um perigo, que se acentuou muito nos últimos 200 anos: o de fazer do papa, vigário de Cristo, uma espécie de "tela", "brecha", "abrigo" ou "álibi" da consciência. Esta frase, com suas consequências, me veio à memória assim que li o texto de um artigo no qual há referência a uma recente decisão do Reitor do Colégio Norte-Americano de Roma (pode-se ler aqui): naquele Colégio a partir de agora são canceladas as celebrações e a formação para a Missa Tridentina.

Mas o surpreendente é como a evolução é justificada pelo Reitor, Ir. Peter Harman. Ele afirma que como em obediência a SP havia sido introduzida a celebração e a formação dos seminaristas na VO, agora, em obediência ao TC, estão revogadas tanto a celebração como a formação para aquele rito tridentino. Parece-me que aqui aparece de forma macroscópica um defeito de base, que cria uma confusão estrutural dentro da Igreja. De fato, pergunto-me: onde foi parar, neste raciocínio, a consciência e a responsabilidade do Reitor? O Reitor seria talvez um funcionário, dispensado da consciência? Como é possível que, mesmo depois de SP, muitos outros reitores, felizmente a maioria deles, não tenham considerado oportuno celebrar, e muito menos formar os seminaristas para a VO?

Aqui, parece-me, tenha funcionado um mecanismo "adaptativo" que também dispensou os Reitores da consciência, assim como dispensou os cristãos individualmente e não poucos teólogos. O papa diz uma coisa e ela é feita. Depois, outro papa diz o contrário, e o oposto é feito. Isso não é comunhão, não é unidade, não é pacificação ou reconciliação: isso é irresponsabilidade, desagregação, deformação.

Na verdade, é fácil "se esconder" atrás dos papas. Mas está sempre errado. Os papas não são esconderijos. Ao se ler bem, de fato, o SP não prescreve de forma alguma uma “dupla formação” do seminarista. É claro que apresenta um princípio objetivamente perigoso - o da dupla forma do mesmo rito romano - que pode ter levado alguns a pensar que poderia ser bom que o jovem em formação tivesse ao mesmo tempo a formação ao rito anterior e também ao rito vigente, que intencionalmente corrigiu, emendou e modificou o rito anterior. Mas é evidente que aqui não vale apenas um princípio dogmático ou disciplinar. A decisão tomada apenas neste plano é temerária. Deve valer também um princípio pedagógico, formativo, de construção da identidade e de unidade da pessoa, que não pode resultar cindida.

Durante anos, a irresponsabilidade de formadores que se interpretavam apenas como "funcionários" deformou dezenas, centenas de seminaristas, que cresceram com a ideia de "equivalência", "fungibilidade" e "substitutividade" entre formas rituais que antes eram a evolução irreversível entre estilos e formas eclesiais em devir. Foi fácil esconder-se atrás de Bento XVI, que nada impôs diretamente no plano formativo; o mesmo hoje é esconder-se atrás de Francisco, que simplesmente restabeleceu o bom senso e a consciência de um único rito, a quem formar e com quem celebrar. Um papa não era necessário para exercer uma boa consciência! Até mesmo alguns teólogos ficaram completamente indiferentes ao que acontecia ou até escreveram manuais para favorecer a "dupla formação". Esta foi uma forma de irresponsabilidade ao quadrado, promovida com palavras, ações e omissões.

Portanto, não se trata apenas de “fazer a coisa certa”. Mas também saber por que se está fazendo a coisa certa. E porque talvez se devesse fazer muito antes, com a própria consciência, o que a lei hoje impõe com a sua autoridade. No entanto, ainda assim podemos brindar à decisão: acabou a deformação dos seminaristas no plano litúrgico, pelo menos no Colégio Norte-americano. Brindar não significa de forma alguma "ignorar" a VO: pelo contrário, justamente agora, quando está claro com qual rito se celebra e a que rito se deve ser formados, a VO deverá ser bem estudada, com cuidado, com curiosidade, para entender plenamente o que não morre e o que pode morrer do rito romano.

Porém, no brinde pela decisão tomada, deveríamos lembrar, mesmo no final, as palavras que o Cardeal Newman escreveu com a certa ironia na mesma carta ao Duque de Norfolk:

“Certamente se eu tivesse que citar a religião para um brinde depois do jantar - o que não é muito indicado fazer - então eu brindaria ao Papa, mas primeiro à consciência e depois ao Papa”.

 

Leia mais