Anticristo, uma cortina de fumaça ideológica? Artigo de Gianfranco Ravasi

O Sermão e os Feitos do Anticristo. Obra do artista renascentista italiano Luca Signorelli. (Foto: Wikimedia Commons)

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30 Setembro 2026

História de um termo. Frequentemente usada em artigos e ensaios recentes, a palavra tem presenças testamentárias, mas hoje muitos a usam para confusões e tecnologias.

O artigo é de Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 27-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há algumas semanas, deparei-me com um artigo de título idêntico, um num jornal francês e o outro num semanário alemão, embora os textos em si não tivessem relação entre si: "O Anticristo, de São João a Peter Thiel". Meu imaginário voou imediatamente para aquela obra-prima que é o ciclo de afrescos do Juízo Final pintado por Luca Signorelli na Catedral de Orvieto entre 1499 e 1504. Uma das cenas que sempre me impressionou tem como foco justamente o Anticristo, que ostenta a aparência de Cristo, pregando de um pedestal onde se amontoam objetos preciosos, frutos de doações e ofertas votivas.

O Sermão e os Feitos do Anticristo. Obra do artista renascentista italiano Luca Signorelli. (Foto: Wikimedia Commons)

Contudo, o elemento mais impactante é Satanás, que sussurra em seu ouvido a mensagem que deve proclamar. Em meio à multidão, apenas alguns conseguem reconhecer o engodo, enquanto muitos outros são atraídos e conquistados. Pensei, dessa forma, retomar esse título, focando, naturalmente, no viés bíblico e teológico, sem deixar de lado o tecnocrata estadunidense (embora nascido em Frankfurt) e figura pró-Trump, Peter Thiel, 58 anos, cofundador do PayPal, e da empresa de análise de big data Palantir, da qual são clientes também o Ministério da Defesa italiano e a Policlínica Gemelli. No Novo Testamento, o termo grego Antíchristos aparece cinco vezes, ainda que de forma marginal, e exclusivamente nas epístolas joaninas.

Eis as passagens da Primeira Carta de João: "Filhinhos, esta é a última hora; como vocês ouviram que o anticristo vem, assim muitos anticristos já têm surgido. Por isso, sabemos que esta é a última hora... O Anticristo é aquele que nega o Pai e o Filho... E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo" (2,18 -22; 4,3). A quinta citação encontra-se na Segunda Carta de João: "Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo!" (1,7).

Como é evidente, o Anticristo nega os dois pilares fundamentais da cristologia, a divindade e a humanidade ("carne") de Cristo. Mais complexa - embora ainda na linha antitética da mensagem de Cristo - é a figura do Anticristo na obra de Nietzsche (1894). Ainda assim, o pensamento espontâneo volta-se para a simbologia do livro do Apocalipse joanino, onde figuras paralelas entram em cena, como o dragão vermelho, a Besta, a "antiga serpente", a Grande Prostituta, o próprio Satanás e várias alusões ao Império Romano perseguidor. Encarnar em um único personagem essa hostilidade contra Cristo deriva de uma prática geral de viés apocalíptico: trata-se de uma personalidade "corporativa" que assume em si o mal, a negação e a rejeição do bem.

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Os famosos manuscritos da comunidade judaica de Qumran, no Mar Morto, também apresentam figuras como o Homem da Mentira, o Homem do Poder Perverso e o Sacerdote Ímpio, personificações negativas com traços simbólicos que, no entanto, provavelmente aludem a personagens históricas. De fato, não devemos esquecer que o mesmo procedimento foi empregado pelos cruzados para caracterizar o "feroz Saladino", assim como Lutero, sem hesitações, rotulou o Papa com o epíteto de Anticristo. O discurso poderia estender-se ao Novo Testamento, onde no epistolário paulino despontam perfis semelhantes ao Anticristo: "o Homem da Iniquidade, o Filho da Perdição" (2 Tessalonicenses 2,1–12). Trata-se de passagens complexas cuja decifração dialética foi objeto de interesse não apenas dos teólogos, mas também de filósofos como Cacciari e Agamben.

Além disso, foi o próprio Jesus a advertir seus discípulos: "Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos" (Mateus 24,23). Nessa perspectiva, o Anticristo pode surgir em qualquer lugar ou época e é uma caricatura que imita habilidosamente Cristo, ao mesmo tempo em que falsifica a Sua mensagem. É por isso que pode enganar até mesmo os fiéis, um fato perfeitamente expresso pela representação de Signorelli em Orvieto.

Nesse ponto, contudo, o que significa aquela vinculação com o tecnocrata Thiel, para além de sua infiltração na galáxia conservadora estadunidense e no círculo do MAGA trumpiano? Na Itália causou grande repercussão uma conferência esotérica e exclusiva, realizada em Roma de 15 a 18 de março organizada por uma associação cultural de Bréscia que leva o nome do filósofo e sacerdote Vincenzo Gioberti (1801–1852), adotado como corifeu por uma sua tese teocrática. Embora defendesse a unidade italiana no espírito do Risorgimento, Gioberti a confiava à liderança moral do Papa, em consonância com os cânones do chamado neoguelfismo. Na realidade, como demonstrou o historiador Giorgio Rumi, o pensamento de Gioberti – para além de seu contexto histórico - é muito menos integralista do que a mencionada associação acredita.

Dada a natureza sigilosa da convenção de Roma, os detalhes precisos da missão sacrílega do Anticristo, conforme pregada por Thiel naquela ocasião, não são claros. No entanto, ele desenvolveu seu pensamento, muitas vezes fluido e até mesmo contraditório, nos episódios de um seu podcast. Se compreendemos corretamente, o Anticristo seria a síntese da atual ordem global tecnocrática, capaz de guiar a humanidade e protegê-la justamente dos excessos da tecnologia (particularmente da IA), mas também capaz de criar um controle totalitário. Na prática, a tecnologia nos salva dos riscos da própria tecnologia utilizando instrumentalmente a religião como antídoto. Talvez isso não passe de uma confusa cortina de fumaça ideológica (neste caso, de natureza sagrada), destinada a ocultar interesses estratégicos políticos e econômicos colossais.

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