18 Agosto 2026
"Vannacci eleva o modelo Trump-MAGA a um novo katechon contra os ‘impulsos desintegradores’, em sua visão, da civilização ocidental atual: da cultura woke ao islamismo", escreve Fabrizio D'Esposito, professor italiano, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 17-08-2026.
Eis o artigo.
O katechon era a única coisa que faltava na miscelânea programática do General Roberto Vannacci (1), publicada na semana passada no site Futuro Nazionale: 64 páginas que misturam Pasolini e São Pio X, Chesterton e Dugin, Carl Schmitt e Ernesto Galli della Loggia, relativismo e o Império Romano, Dante e Donald Trump. O katechon em grego significa "aquele que retém". Ou seja, um dos conceitos mais complexos e misteriosos da Bíblia, nunca definido pela Igreja Católica. Tudo se origina de apenas dois versículos da Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, capítulo dois, versículos seis e sete.
"6. E agora vocês sabem o que está impedindo a sua revelação, que ocorrerá no seu devido tempo. 7. O mistério da iniquidade já está em ação, mas aquele que o está impedindo precisa ser removido."
A advertência paulina é escatológica e se refere à vinda do Anticristo ("o mistério da iniquidade"), que, no entanto, está sendo impedido por alguém. Quem? Eis a questão. Para a Igreja, o katechon não tem uma identidade precisa. Portanto, existem apenas interpretações que se sucederam ao longo dos séculos. Há treze anos, Massimo Cacciari, que é principalmente um grande filósofo, dedicou um ensaio sobre teologia política e o katechon, Il potere che frena, Adelphi. Eis o que ele disse em uma entrevista ao Avvenire: "É algo, ou alguém, que 'contém', retendo e retardando a vinda do Anticristo. Esse intermediário, que ocorre entre o Evento da Encarnação e a batalha final contra o Adversário, é um momento muito significativo. Nele, Paulo sugere que atua um poder que não pode ser identificado com o Anticristo, cuja vinda ele 'retém', mas que também não coincide com a Igreja, à qual é confiada a tarefa de preservar a esperança durante a longa espera."
Para o alemão Karl Schmitt (1888-1985), um nazista, o katechon é a pedra angular da teologia política. É um poder que retém a vinda do Anticristo.
São João Crisóstomo, entre os séculos IV e V d.C., o identificou no poder imperial de Roma. E é a interpretação escolhida por Vannacci (ou pela IA, ao que parece), de forma desastrosa, onde não é mais possível retornar "ao modelo tradicional do Sacro Império Romano como garantidor (e talvez katechon – poder que restringe a desordem e a dissolução – segundo a interpretação de São João Crisóstomo) do Cristianismo contra os possíveis impulsos desintegradores de nossa civilização". Tendo dito que São João Crisóstomo viveu cinco séculos antes do Sacro Império Romano, Vannacci eleva o modelo Trump-MAGA a um novo katechon contra os "impulsos desintegradores", em sua visão, da civilização ocidental atual: da cultura woke ao islamismo.
É a mesma tese da tecno-direita antidemocrática liderada por Peter Thiel, cofundador da Palantir. Quando veio a Roma este ano para suas palestras sobre o Anticristo, Thiel explicou que os Estados Unidos são um candidato natural tanto para o papel de katechon, caso o grupo de direita Maga vença novamente; quanto para o Anticristo, caso o pensamento woke retorne à Casa Branca.
Nota do IHU
1- Roberto Vannacci (nascido em 20 de outubro de 1968) é um político italiano de extrema-direita e general do Exército aposentado. Desde julho de 2024, atua como membro do Parlamento Europeu eleito pela Liga, em fevereiro de 2026 fundou seu próprio partido político, Futuro Nacional.
Vannacci tornou-se uma figura conhecida e discutida após a publicação, em agosto de 2023, de seu livro Il mondo al contrario ("O mundo de cabeça para baixo"), que, devido às declarações controversas expressas sobre feminismo, imigrantes, homossexuais, ambientalismo e judeus, o colocou no centro de considerável atenção da mídia.
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