A aposta pela paz. Artigo de Alberto Melloni

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05 Abril 2024

"'Mistério da iniquidade' é de fato a fotografia mais adequada daquela forma de fazer a guerra que transformou os “civis” de classe protegida em um alvo capturado ou colocado sob o fogo inimigo, a fim de poder culpá-lo do horror", escreve o historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por Corriere della Sera, 04-04-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Pelo menos até dezembro, deverá estar suspensa a feira das banalidades psicorreligiosas. Durante todos esses últimos meses, de fato, a severa profundidade dos calendários das fés é martelada para aparar a dureza teológica e transformá-la em pílulas sedativas, espiritualidades terapêuticas. Todas as tradições religiosas pagam o preço: o judaísmo tratado como folclore exigente; o islã com o Ramadã tratado como jejum intermitente; e acima de todos (por razões quantitativas) o cristianismo. A cada Natal deve sofrer a confusão entre encarnação do verbo, aniversário de Papai Noel e ideologia do presépio, elevado à estandarte de um Ocidente que lamenta a sua prepotência perdida. A cada Páscoa o duelo entre vida e morte – travado “sem meio termos”, ensina o cardeal Matteo Maria Zuppi — derrama-se em improváveis renascimentos pós-depressivos e WhatsApp cheios de serenidade, coelhinhos, pintinhos, trevos de quatro folhas e pombas - porque a paz é um “valor”.

Para contrastar esse flagelo não servem nem a reclamação nem o puritanismo, que são a sua premissa.

Mas um esforço para compreender que a linguagem da fé pode nutrir a todos (aqueles que se iludem que "têm" a fé, aqueles que acreditam tê-la, aqueles que a enterraram em meio a desgastadas tristezas), se a respeitarmos pelo que é: uma linguagem seca, colocada à beira do silêncio necessário para buscar o nome das coisas, mesmo em tempos sombrios.

Que os nossos tempos sejam sombrios é indicado pelo fato de que basta permanecer em silêncio para perceber a insuficiência das distinções deamicisianas (agressor/agredido), a obscenidade do antissemitismo que produz extensões semânticas inadmissíveis (genocídio), a consternação diante da ferocidade do espírito humano, o ridículo da verbosidade dos belicistas de sofá e dos pacifistas de sofá que, assim como seus bisavôs, têm a ideia original de costurar uma estrela amarela em alguém.

Uma frase poderosa da segunda carta aos Tessalonicenses lança uma luz silenciosa sobre este tempo: “Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora o retém até que do meio seja tirado" (2 Tessalonicenses 2,7).

Está escrito na linguagem “técnica” da apocalíptica judaica de dois mil anos atrás, segundo a qual a redenção virá após a consumação do horror apocalíptico, não em seu lugar; e ensina que o mal que permanece inacabado prolonga a sua duração. Chama de mistério não coisas pouco claras ou místicas, mas a estrutura mais profunda da realidade. Define iniquidade ou anomia não um estado moral: mas o fruto de uma sedução com a qual o mal não se contenta em ser um ídolo, mas que bancar o Deus.

E confirma a existência de um limitador, de um freio, de um Katéchon: que impede a realização tanto da catástrofe como da redenção; e, ao frear o tempo último, gera o nosso tempo, que é aquele da história.

O debate sobre quem/o que é o Katéchon dura há dois milênios, atravessando momentos de catástrofe. Começa com Tertuliano, que no século II via o império pagão como um freio ao caos. Passa por Eusébio de Cesareia, que vê tal barreira em Constantino. Chega ao papado medieval, que pensa a cristandade como regime que restringe a desordem. Torna-se tema teológico, passa da filosofia à literatura (o "grande inquisidor" de Feodor Dostoievski se pinta como o Katéchon), torna-se exegese, chegando à teologia política. Um percurso complexo que pode ser hoje reconstituído pela valiosa obra prima de Francesca Monateri, dedicada justamente ao Katechon. Filosofia, política, estética (Bollati Boringhieri).

Jovem estudiosa do Instituto Croce, Monateri não se limita a estudar seus segmentos (como fazia a bela coletânea Il Katéchon e l’ Anticristo que foi publicada pela Morcelliana em 2009), mas tenta uma leitura integrada e complexa de todos. Tanta ousada ambição permite-lhe compreender três razões pelas quais o Katéchon é necessário no mundo pós-secular que vê corroída não tanto a fé (Jesus era cético nesse ponto, de acordo com Lucas 18,8), mas a sacralidade das democracias e o tabu atômico. A primeira é que o Katéchon é “forma”: porque a iniquidade é caos antes de ser mal. A segunda é que a (teologia) política só pode deter o mistério da iniquidade num duelo infinito, e não o superar.

A terceira, nem sequer tematizada, diz respeito ao que eu dizia no início.

As Escrituras, língua materna das religiões, obrigam a um salto hermenêutico com o qual aqueles que as respeitam podem sempre medir-se: nesse caso, a segunda carta aos Tessalonicenses ensina que o que hoje angustia tanto os homens de boa vontade quanto um homem de Deus como o Papa Francisco (agora detestado como o seu antecessor, que definiu a Grande Guerra como um "massacre inútil"), não deve ser medido nos resultados, mas a montante.

“Mistério da iniquidade” é de fato a fotografia mais adequada daquela forma de fazer a guerra que transformou os “civis” de classe protegida em um alvo capturado ou colocado sob o fogo inimigo, a fim de poder culpá-lo do horror. “Mistério de iniquidade” é a expressão certa para o abismo de crueldade que atingiu um pico rapidamente esquecido no pogrom de Simchat Torá de 7 de outubro passado: quando os líderes do Hamas (o mais temível inimigo dos palestinos e do seu sonho de um Estado) ordenaram brutalidade contra recém-nascidos, contra mulheres, contra cadáveres, contra reféns, que teria assombrado os SS. “Mistério de iniquidade” é o silêncio de Deus, mudo diante do lamento das vítimas, e como elas paralisado quando bandos de assassinos blasfemaram o seu nome com o sangue inocente.

Mistério da iniquidade” é o que aconteceu entre nós – na Europa, na Itália – que cobrimos o 7 de outubro ou com um filoisraelismo criptomilitarista a custo zero ou com lampejos de antissemitismo alimentados por mil anos de teologia da culpa e que, apesar de ter sido reprimidos a golpes de “nunca mais”, de reencarnam em rapazotes que usam a bandeira quadricolor palestina com o mesmo rancor que há oitenta anos era expresso pelas suásticas.

Existe um Katéchon para esse “mistério de iniquidade”? Paulo diz que sim. Aliás: ele diz que todos sabem que existe, mas não o define. Os exegetas discutem o que seria para o autor do texto. Mas a indeterminação do texto diz que existe porque cada um vê um diferente: o Katéchon é o esforço daqueles que gostariam de deslocar o "custe o que custar" de Mario Draghi da política monetária para paz; a firmeza de chamar de louca a evocação da escalada; é a persuasão de que soluções abaixo do ideal, possam salvar a vida de muitos, de poucos, de apenas um que hoje a perderá objetivamente por "nada"; é a recusa moral de pesar na balança as lágrimas pelo que o Hamas quis que acontecesse em 7 de outubro e o que quis que acontecesse nesses seis meses.

O que une tudo isso não é uma ideologia: mas a assunção de responsabilidade coletiva, que no jargão se chama política. De fato, o nosso Katéchon não é um imperador cristão, nem um Papa, nem um império; talvez para nós seja aquele sujeito-Europa (em seu desarmante vazio, o único não-império em cena, o único não-império em que a França conta alguma coisa) que, em vez de se contentar com suas raízes cristãs ou não, peça ao crente que se poupe das “espiritualidades” e se dedique ao tempo e à vida, que, como dizia Walter Benjamin, é a “portinhola através da qual o Messias pode entrar".

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