Na Bíblia há violência e há salvação

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15 Julho 2021

 

Li em uma das muitas mensagens que passam no fluxo do Facebook: “Se lemos algo nas Escrituras que contradiz o mandamento do amor, significa que lemos mal”. Não importa quem diz essas palavras. Elas falam por si próprias.

O comentário é de Enrico Peyretti, teólogo, ativista italiano, padre casado e ex-presidente da Federação Universitária Católica Italiana (Fuci), publicado por Fine Settimana, 13-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Aos poucos, estamos percebendo que a Bíblia é palavra humana, toda a variedade das palavras e das histórias humanas. Na Bíblia é contado tanto o mal como o bem, também existem leis ferozes atribuídas a Deus, existe a ideia blasfema de que Deus mata nossos inimigos. Por tudo isso, como um vento vivo entre folhas verdes e galhos secos, sobre lama, pântano, deserto, sobre abismos escuros, passa a luz e a palavra de Deus.

A Bíblia não é uma história exemplar e edificante. Não é um livro mágico, a ser aplicado como um manual técnico. Tínhamos acreditado nisso, para nos exonerar da responsabilidade moral de viver, para simplesmente ter um código a aplicar. A Bíblia, como as demais escrituras sagradas da humanidade, em muitas linguagens, é história humana, com todo o mal e o bem humanos, por meio dos quais Deus nos fala, uma voz sutil em meio ao barulho, para nos dizer que ama esta humanidade perdida, para salvá-la, dar a ela a vida que está nele. Ele nos diz que sua misericórdia está imersa em nossa história ambígua, para iluminá-la e dar-lhe respiro de vida, para erguê-la acima de uma lama mortal e sufocante.

A leitura da Bíblia muda com o tempo, porque todas as coisas vivas mudam, as mortas ficam imóveis. Lemos a Bíblia no Espírito vivente e crescente. Veja-se, nos atos do Concílio, a Dei Verbum (Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina): diz que a Bíblia é melhor compreendida não só pelo ensinamento dos bispos e pelo estudo dos teólogos, mas sobretudo "mercê a íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais” (Dei Verbum n. 8). A Bíblia se lê com os olhos da fé no amor vivente, não com os olhos secos que classificam tanto mal como o bem, observando qual deles prevalece, como uma crônica abstrata.

Em toda parte, mesmo na mais bela igreja, onde há condenação sem misericórdia, ali não há Deus, Deus está onde há misericórdia, onde a história salva os perdidos, os descartados. A humanidade é a adúltera condenada ao apedrejamento (João 8), que Jesus salva fazendo cair a pedra das mãos dos algozes que pretendiam fazer justiça. O evangelho de Deus está onde as pedras caem e os condenados se levantam.

 

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