Se não houver paz, começa a autodestruição. Artigo de Marco Tibaldi

Foto: Canva Pro | Getty Images

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26 Março 2024

"O poder é, portanto, a raiz permanente da guerra e só mudando esse modelo de relações interpessoais as coisas poderão realmente mudar", escreve Marco Tibaldi, professor de História na Universidade de Bolonha, Itália, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 25-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No contexto atual, sente-se mais do que nunca a urgência de ativar uma reflexão teológica e filosófica capaz de desmontar as razões da guerra para promover uma real cultura da paz, que não seja reduzida a genéricos votos vazios. Trata desse tema o ensaio de Roberto Mancini e Brunetto Salvarani, Oltre la guerra. Le vie della pace tra teologia e filosofia (Além da Guerra. Os caminhos da paz entre teologia e filosofia, em tradução livre, Cantalupa, Effatà editora, 2023, 158 páginas, 15 euros). “Declarar a paz impossível - essa é uma das hipóteses que também se consolidaram na opinião pública neste tempo — já é um gesto que equivale a abdicar da nossa humanidade", afirmam os autores, lembrando que só uma mudança de mentalidade pode superar a resignação ou os interesses, que orientam a reflexão sobre a inevitabilidade da guerra no atual contexto geopolítico.

Conhecendo muito bem o papel que as religiões desempenham na legitimação da vida dos homens, Salvarani examina como o tema da paz e da guerra tem sido abordado nas Escrituras e na história da Igreja. Mesmo entre os leitores mais assíduos da Bíblia, é difundido o preconceito que a violência e a guerra são de alguma forma justificadas e desejadas por Deus. Isso é o que parecem dizer muitas passagens das Escrituras quando entendidas literalmente. Contudo, como Paulo já advertia, a leitura literal da palavra “mata” o sentido e também as pessoas, enquanto só o Espírito dá vida (2 Coríntios 3,6), no sentido que é necessária uma consideração atenta das regras hermenêuticas a serem aplicadas à Bíblia, para não cair em diabólicos mal-entendidos. Por um lado, Salvarani lembra que a presença massiva da violência nas Escrituras tem antes de tudo uma função de lembrete porque “a violência nunca é tão perigosa quanto quando está escondida: apresentando-a nas suas mais variadas expressões, a Bíblia obriga o leitor a olhá-la de frente, a considerá-la nos seus mínimos detalhes e nas suas modalidades mais sorrateiras".

Tudo isso, não para justificar e absolver, mas para fornecer as chaves de análise e compreensão do fenômeno, para não o julgar inevitável, quando não necessário. Em segundo lugar, a Bíblia em Jesus nos fornece a chave certa para interpretar até mesmo todas aquelas passagens em que Deus parece ser o mandante de opressões, de violências e guerras. Dizer que Deus é violento apenas sinaliza como ele foi entendido ao longo dos séculos e ao longo do caminho do povo judeu. De fato, na cruz do Filho, aquele que o conhece plenamente (Jo 1,18), “despedaçam-se todas as imagens divinas, pois na cruz não há a projeção de uma imagem humana do divino, mas sim de um homem que é a própria imagem de Deus: um homem sofredor, torturado, acusado injustamente, além se ser ele próprio vítima de violência.

Assim, a salvação cristã não é a remoção da violência nem a sua isenção, mas a aceitação como seu atravessamento: mas do lado das vítimas, não dos carrascos".

Como demonstra a história passada e atual, de uma leitura renovada da Escritura deve nascer uma teologia da paz, que não seja a enésima teologia do genitivo, mas o nome que o evangelho deve assumir hoje, porque se há paz pode haver todo o restante, caso contrário há apenas a autodestruição. Porque é de humanidade que se trata, como afirma Roberto Mancini. É preciso lutar contra o preconceito que considera a guerra inevitável porque é uma parte essencial da natureza humana. Pelo contrário: “a humanidade não é por natureza boa, nem má, nem neutra. A sua ‘natureza’ não é uma bagagem de características biológicas rígidas e vinculantes, é a relação com o Bem”.

A análise de Mancini prossegue destacando o verdadeiro motor que dá origem à violência e à guerra, ou seja, o poder.

Ao contrário do que muitos pensam, o poder não é neutro, não depende de como é utilizado, porque o poder é um paradigma relacional que se baseia constitutivamente na opressão, por isso “não é um simples meio à nossa disposição, é um circuito envolvente, uma gramática das relações, uma lógica vinculante que tende a reduzir-nos a meios de poder em si e não ao contrário."

O poder é, portanto, a raiz permanente da guerra e só mudando esse modelo de relações interpessoais as coisas poderão realmente mudar. À lógica “necrófila” do poder deve ser contraposta uma lógica diferente, “biófila”, que tem cinco pilares.

  • O primeiro é a liberdade quando cultivada em nome do princípio de unicidade e na fidelidade à dignidade humana.
  • O segundo é a responsabilidade entendida como disposição para o cuidado pelo bem comum.
  • O terceiro é o serviço entendido como atitude para se colocar à disposição dos outros para o crescimento do bem comum.
  • O quarto é a autoridade, entendida como a capacidade de fazer crescer os outros e, por fim,
  • o quinto é o governo que “não se exerce sobre as pessoas, mas sobre os problemas da sociedade e é a verdadeira alternativa política ao princípio do poder”.

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