25 Setembro 2026
Falta de transparência, greenwashing… Embora os projetos de imensos data centers necessitem enormes quantidades de água, seus promotores tendem a minimizar seu verdadeiro impacto sobre o recurso.
A reportagem é de Lucille Giovannelli, publicada por Reporterre, 24-09-2026. A tradução é do Cepat.
Seu laptop aquece após algumas horas de uso intenso? Então, multiplique esse calor por milhares de chips de última geração, empilhados e funcionando em plena capacidade e você terá um data center hiperescala, um desses gigantes projetados para dar sustentação ao avanço da inteligência artificial (IA). Esses projetos de mega data centers estão se multiplicando.
No final de 2024, havia 1.136 deles em todo o mundo, de acordo com o Synergy Research Group. Para evitar o superaquecimento, essas instalações devem dissipar constantemente as chamadas “ilhas de calor” para manter os servidores a uma temperatura ambiente de 25 °C.
Para atingir esse objetivo, existem diversas técnicas de resfriamento. Os métodos mais comuns utilizam ar, às vezes resfriado por ar condicionado, e água, cuja evaporação remove o calor. Outros fazem circular um líquido em contato direto com os chips, enquanto a imersão de servidores em um líquido isolante ainda é marginal. O resfriamento a ar pode ser muito intensivo em energia, mesmo que alguns locais usem resfriamento gratuito, sugando diretamente o ar externo quando as condições permitem. O resfriamento por evaporação, por outro lado, consome água, parte da qual é liberada na atmosfera.
O consumo de água necessário para o resfriamento tornou-se um dos principais pontos de controvérsia em torno dos data centers. Dependendo da instalação, pode chegar a vários milhões de litros por dia. Os operadores buscam tecnologias menos intensivas em água e esforços para reduzir sua pegada ecológica. Mas por trás dos números fornecidos, existem vários pontos cegos. O que é realmente contabilizado como “água consumida”? E o que está sendo deixado de fora?
560 bilhões de litros de água em 2023
Em escala global, os data centers utilizaram 560 bilhões de litros de água em 2023 somente para refrigeração, de acordo com o relatório “Energy and AI” da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em abril de 2025 – o equivalente ao consumo anual de água potável de 10 milhões de franceses ou mais de 220 mil piscinas olímpicas.
A agência prevê um aumento nesse volume, que poderá dobrar até 2030, atingindo 1,2 trilhão de litros por ano. [1] Como observado pela Hubblo, empresa especializada em avaliação ambiental de soluções digitais e de IA, quase toda a água utilizada pelos data centers é água potável.
Esse crescimento agrava a pressão sobre os recursos hídricos já sobrecarregados em muitas regiões. Em 2023, 42% da água captada pela Microsoft provinha de áreas com escassez hídrica, segundo dados divulgados pela multinacional. O Google, por sua vez, indicou que 15% de suas captações de água foram feitas em regiões que sofrem com “grave escassez hídrica”.
As Big Techs justificam a localização dos seus data centers em regiões áridas citando as condições climáticas, em razão do ar seco ser mais favorável à operação de equipamentos eletrônicos, mas também pela proximidade com a infraestrutura elétrica e a disponibilidade de terras.
O problema se torna ainda mais urgente à medida que os recursos hídricos se tornam mais escassos e instáveis. De acordo com o último relatório da Organização Meteorológica Mundial sobre o estado dos recursos hídricos globais, 36% das bacias hidrográficas registraram vazões abaixo das médias históricas em 2025, e 65% das estações de monitoramento de águas subterrâneas relataram níveis em declínio.
Essa pressão se traduz, por exemplo, no Chile e na Espanha, no esgotamento das águas subterrâneas e em conflitos pelo uso da água para a agricultura ou para as necessidades domésticas. Essa realidade pode ser visualizada no mapa interativo do site de notícias Next, dedicado aos recursos associados a data centers em todo o mundo.
Consequências hídricas subestimadas
Os números apresentados pelas gigantes da tecnologia também devem ser analisados com cautela. “Focar no consumo é conveniente para as Big Techs, afirma Sébastien Gavois, editor-chefe do Next. Quando as gigantes estadunidenses anunciam que consumiram uma determinada quantidade de água, elas captaram quase dez vezes essa quantia”, explica. Nem toda a água retirada por um data center é necessariamente contabilizada como “consumida”.
Na maioria das métricas utilizadas, apenas a parcela que não retorna à bacia hidrográfica é considerada consumida. Essa distinção, no entanto, pode subestimar a pressão exercida sobre o recurso. “A água potável que é captada, mas não consumida, e, portanto, descartada, sai tratada, poluída e aquecida”, enfatiza Sébastien Gavois.
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Devolver a água ao meio ambiente não significa necessariamente devolver água equivalente, nem no mesmo local ou ao mesmo tempo. O atraso entre a captação e a descarga pode, portanto, agravar temporariamente o estresse hídrico local. O volume de água também pode ser alterado durante sua passagem pelas instalações, especialmente pelos tratamentos utilizados para combater a corrosão.
Nos Estados Unidos, em Cheyenne, Wyoming, durante a construção de um data center da Meta de US$ 800 milhões, as autoridades locais encontraram uma bactéria rara, Cupriavidus gilardii, durante uma análise de cerca de 3 milhões de litros de água despejados durante uma operação de limpeza de tubulações no local. Na Geórgia, uma associação ambiental também acusa um data center de ter despejado concentrações significativas de metais em um rio.
Na Índia, no estado de Telangana, alguns moradores da vila de Mekaguda lançaram uma petição contra um data center da Microsoft, acusando-o de despejar ilegalmente resíduos industriais em um corpo d'água próximo às suas fazendas de gado.
A temperatura da água descartada também pode alterar as condições ambientais. Em Marselha, um sistema de resfriamento chamado “river cooling” (resfriamento fluvial), usado pelos data centers operados pela Digital Realty, capta água de um riacho a 15,5 °C e a libera a temperaturas que chegam a 24,5 °C no verão.
Enquanto isso, os gigantes da tecnologia estão assumindo diversos compromissos para se tornarem “water positive” até 2030, um princípio baseado nos mesmos mecanismos da compensação de carbono – um mecanismo financeiro que permite às empresas contrabalançar suas emissões de gases de efeito estufa financiando projetos que reduzem ou capturam carbono em outros locais.
Mas para Benoît Petit, especialista em consequências ambientais da tecnologia e cofundador da Hubblo e da DC Watch, essa lógica não se aplica à água: “Compensar o consumo de água não elimina de forma alguma os impactos sobre as populações e os ecossistemas de onde ela é retirada”. Para Sébastien Gavois, editor-chefe da Next, trata-se, portanto, de “mais um exemplo de greenwashing por parte da indústria”.
Distinguir entre consumo direto e indireto
Embora o debate público se concentre quase exclusivamente na água de resfriamento, ou seja, no consumo local direto do data center, “esse está longe de ser o único uso de água ligado à operação de um data center” [2], destaca Benoît Petit.
Para ser mais explícito, toda a água utilizada na cadeia de valor deveria ser contabilizada. Isso inclui tudo, desde a extração de metais necessários para a fabricação de chips especializados (GPUs), até a produção da eletricidade que alimenta as máquinas (evaporação em reservatórios de barragens hidrelétricas, resfriamento de usinas nucleares), e até mesmo a construção do próprio edifício, que é muito exigente em termos de concreto e, portanto, de água.
De acordo com um levantamento da Autoridade Reguladora Francesa de Comunicações Eletrônicas (ARCEP), publicado na primavera de 2026, a água consumida indiretamente pelos data centers localizados na França é treze vezes maior do que seu consumo direto. Considerando todos os usos, o levantamento estima o total em quase 6,5 milhões de m³ para 2024, o equivalente ao consumo anual de mais de 100.000 pessoas. [3] E embora as captações diretas estejam diminuindo, esse total está aumentando em aproximadamente 8%, com o consumo de eletricidade em alta impulsionando o aumento geral.
O cobre exemplifica o que esse consumo invisível abrange. Excelente condutor, é um dos principais metais utilizados em data centers, onde fornece conectividade tanto dentro das salas quanto externamente às redes. Empresas de mineração reunidas na Associação para o Desenvolvimento do Cobre estimam que as necessidades hídricas de um data center variam entre 5.000 e 15.000 toneladas. No entanto, são necessários aproximadamente 500 litros de água por segundo para operar uma mina de cobre a céu aberto de médio porte, mais do que o consumo de uma cidade de 250.000 habitantes.
Lobby pesado das Big Techs
“A lacuna no entendimento do problema só aumenta em comparação com a curva dos impactos”, resume Benoît Petit. Isso é particularmente verdadeiro, visto que a situação dos recursos hídricos em torno dos data centers permanece difícil de documentar e mensurar devido a “uma enorme falta de transparência por parte das operadoras”, explica. A Amazon, proprietária da AWS, uma das principais provedoras de serviços em nuvem do mundo, não publica, por exemplo, dados detalhados sobre o consumo de água e eletricidade de seus data centers em todo o mundo.
“As gigantes da tecnologia deveriam ser obrigadas a publicar seus dados, e as regulamentações não deveriam ser escritas pela própria indústria”, argumenta Benoît Petit. Ele acredita que as métricas atualmente usadas para medir o desempenho dos data centers, como PUE (Power Usage Effectiveness – Eficiência no Uso de Energia) e WUE (Water Usage Effectiveness – Eficiência no Uso de Água), são “amplamente inadequadas”. Esses índices se concentram na eficiência energética ou nos volumes de água captados e descartados, sem levar em consideração a pegada ecológica total de um local e seu impacto nos recursos locais.
A Comissão Europeia acaba de lançar um sistema de classificação obrigatório para a eficiência energética e hídrica dos data centers. A partir de 21 de setembro, cada instalação com mais de 500 MW deverá fornecer mais informações sobre o seu desempenho e os seus impactos sobre os recursos locais. Mas este anúncio esconde um lobby pesado das Big Techs, revelado por uma pesquisa da Investigate Europe.
Em 2023, a União Europeia já tinha decidido exigir que os data centers transmitissem dados sobre o seu consumo de energia, eficiência energética e consumo de água.
Ao desenvolver as regras de aplicação, a Microsoft e a DigitalEurope, que representa especialmente a Amazon, o Google e a Meta, propuseram incluir uma cláusula de confidencialidade sobre os dados de cada data center. No texto finalmente adotado pela comissão em 2024, esta proposta foi retomada quase palavra por palavra.
Assim, os dados individuais dos data centers foram considerados confidenciais. O público, portanto, só tem acesso a dados agregados, embora estas infraestruturas tenham efeitos muito concretos nos territórios.
Esta sequência ocorre num contexto em que os recursos dedicados ao lobby digital não param de aumentar: de acordo com o Corporate Europe Observatory e o LobbyControl, as despesas de lobby declaradas pelo setor digital em Bruxelas aumentaram de 113 milhões de euros em 2023 para 151 milhões em 2025, um aumento de 34% em dois anos.
Um número que permite medir os meios à disposição dos intervenientes que procuram influenciar as regras europeias num momento em que a UE acelera o desenvolvimento dos data centers e da IA.
Notas
[1] Notemos que isto se refere à água consumida, que é diferente da água captada. Esta última contabiliza a quantidade total de água utilizada na construção, operação e manutenção dos data centers. De acordo com a Agência Internacional de Energia, a quantidade de água captada é da ordem de 5 trilhões de litros em 2023, e, para 2030, a projeção é que ultrapasse os 9 trilhões de litros.
[2] A pegada hídrica real varia consideravelmente de um local para outro, dependendo da tecnologia de refrigeração utilizada, do clima local, da matriz energética que alimenta o empreendimento e da origem do equipamento.
[3] Em 2024, 23 operadores de data centers responderam à pesquisa, que representam quase 160 data centers em operação na França. Este número deve ser comparado com os 352 data centers identificados em um estudo da Agência para a Transição Ecológica sobre os data centers, publicado no início de 2026.
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